Nadine Gordimer

A escritora Nadine Gordimer em sua casa em Joanesburgo. Foto: Jordi Matas

A África do Sul tem produzido vários escritores de grande envergadura desde a metade do século XX, mas poucos têm seguido à risca o difícil caminho que seguiu Nadine Gordimer; afinal é para poucos aliar literatura e política sem cair na armadilha de se tornar panfletário. Sondar a relação homem-sociedade, que, afinal é isso o caráter político de toda obra de arte, e tornar isso matéria literária também não é fácil. Mas, diga-se, um escritor não sabe falar de outra coisa se não daquilo que lhe incomoda, se não daquilo que experiencia.

No discurso de recepção ao Prêmio Nobel, em 1991, disse “O homem é o único animal com capacidade de observar a si mesmo e o único dotado da dolorosa capacidade de haver sempre querido saber o porquê. E isso não é apenas a grande questão ontológica sobre por que estamos aqui, através de que religiões ou filosofias buscamos a resposta final que distintos povos em tempos distintos têm formulado também a explicação dos fenômenos cotidianos, como a procriação, a morte, a mudança das estações... Os antepassados dos escritores, com ajuda dos mitos, começaram a investigar e formular esses mistérios através da apreensão de traços da vida cotidiana, em combinação com a fantasia”.

Gordimer retoma assim, não apenas pelo discurso, mas pelo exercício que se prestou a sua literatura a dizer desse cotidiano um tanto sufocante, diga-se, dado o contexto vivido pela escritora. “A forma com que os escritores têm se acercado e acercam às forças da existência tem sido, e, hoje mais do que nunca, objeto de estudo para o conhecimento científico da literatura. As relações do escritor com a realidade perceptível e a que está além do perceptível estão na base desses estudos”.

Yeats, Joyce, García Márquez são nomes relembrados pela escritora que, através de infinitas maneiras têm tratado de saber acerca do labirinto da existência humana através da palavra. E no âmbito desse extenso e complexo labirinto, Gordimer trouxe para a palavra, lugares caros à contemporaneidade dos povos africanos e caros também em outras nações: a opressão política, a tensão racial, os impeditivos da sexualidade. Tornou tais elementos em matéria de reflexão crítica e em forma literária. 

Com Nelson Mandela em 1993. Nadine foi militante no Congresso Nacional Africano (ANC) entre os anos 1960 e 1990, quando conheceu Mandela. Foto: Louise Gubb / Corbis

Dentro e fora da escrita, foi uma voz contra os males do Apartheid, mal, que segundo declarava, se estendeu até muito depois do surgimento de uma democracia multirracial. Essa é talvez a marca pela qual sempre irá ser lembrada: depois dos anos 1970, Gordimer dedicou extensas páginas de sua literatura, a explorar a questão por ângulos diversos. É o período em que se multiplicam suas participações em movimentos de libertação, organismos culturais associados ao tema, eventos de igual natureza. Não se pode acusá-la de ter sido uma voz omissa. Tanto falou que foi incômoda. Teve muitos de seus romances listados para o rol das proibições até às vésperas de receber o maior galardão de sua carreira, pontuada por uma leva de outros prêmios de grande valia.

Quando a Academia Sueca valeu-lhe o prêmio anunciou que era por suas “grandes obras épicas, centradas sobre os efeitos das relações raciais em seu país”. As relações do tipo estão na sua obra como estão também as minúcias do poder, que sempre, de uma maneira ou de outra, tem suas formas de está sempre ativo, exercendo-se por sobre os povos das margens. A literatura de Gordimer, diz a crítica, é a colocar o leitor em contato com grandes tectônicas de uma história que se passa longe dos olhos do grande público e de como esses movimentos não visíveis em algumas culturas também lá estão.

O Nobel lhe veio depois de um extenso verão que academia não atribuía a premiação a mulheres; já se passara 25 anos. Certamente foi um nome que deu visão ao júri para a literatura contemporânea produzida por escritoras - se formos pensar que depois tantas outras receberam a honraria: Toni Morrison (1993), Wislawa Szymborska (1996), Elfred Jelinek (2004), Doris Lessing (2007), Herta Müller (2009), Alice Munro (2013).

No banquete depois da entrega do Prêmio Nobel, dezembro de 1991. Foto: Boo Jonsson

A carreira literária de Gordimer começa muito cedo; era ainda uma menina de 15 anos quando publicou seus primeiros contos num periódico de seu país durante a década de 40 e início dos anos 1950. É ainda como contista que se apresenta em grandes revistas com a The New York, que teve uma política na década de 50 de apoiar jovens escritores. Antes, em 1949, publica Face to face, que a princípio não alcançou os olhos da crítica; os contos, entretanto, foram sempre recebidos como narrativas inteligentes, perspicazes, interessadas em dizer o interior de personagens brancas da classe média presa num mundo no qual se sentiam culpadas, mas não entendiam o porquê. Foram mais de 200 contos, reunidos muitos deles em antologias como Not for publication (1965), Livingstonne’s companions (1971), Jump (1991), Loot (2003) e Life times (2011).

O primeiro romance publicado, The lying days (1953), classificado pela crítica como de escrita semiautobiográfica, é o grande título da produção de Gordimer. Foi o texto que projetou-a internacionalmente pela recepção crítica que teve na época. Depois, vieram  A world of strangers (1958), Occasion for loving (1963) e The late Bourgeois world (1966), textos que confirmaram seu nome entre os dos principais romancistas do século XX. São narrativas sobre as falhas do amor e da moralidade num mundo corrompido e limitado das relações coloniais.

Esse exercício literário começou, disse certa vez, muito na solidão. Não se sentia a vontade em dialogar com nomes como Oliver Screiner, Alan Paton, Dan Jacobson... Preferiu olhar para os predecessores europeus como George Eliot, Henry James, D. H. Lawrence, Marcel Proust, Dostoiévski, Anton Tchekhov  – sua escola literária era a biblioteca do povoado de Springs, onde nasceu, em 1923 e viveu até boa parte de sua adolescência. “Nesse período de minha vida – diz ainda no Discurso de recepção do Prêmio Nobel – eu era uma prova vivente da teoria de que os livros estão feitos de outros livros. Mas isto foi durante um curto tempo. Com a adolescência e o despertar da sexualidade a fantasia adquire outra dimensão num processo enriquecedor.” Foi quando lhe vem outra dimensão, a de que os livros se compõem de vivências.

"Eu nunca fui uma escritora política, mas a política está nos meus ossos, no meu sangue, no meu corpo"  
"Você não decide ser escritora, só há um caminho, ler, ler, ler para que se desperte o dom da escrita"  
"Eu não estou em nenhum de meus livros, não me busquem em nenhum personagem."

Ainda com vivências tão trágicas com a que passou: o massacre de Sharpeville que lhe foi, como para outros nomes desse período, um divisor de águas, Gordimer presenciou a prisão de sua melhor amiga de lutas na ANC e o acontecimento terá lhe dado fôlego para se juntar ao movimento pelo fim do Apartheid. Atuou na surdina, sob a cortina de ferro, numa resistência que estava cada vez mais sendo esmagada pelo estado a medida em que tudo foi sendo transformado em matéria para sua literatura, para a construção das vozes de seus romances. Antes de tudo, ainda quando criança, pelos 10 ou 11 recorda a escritora, foi quando se deu conta de que vivia num mundo branco opressor: uma noite, a polícia invadiu sua casa na busca de álcool no quarto da criada, quando então era proibido aos negros. Nadine disse que seus país permitiram os agentes entrarem sem nem mesmo pedir permissão. Aquele fato lhe marcou muito.

Vieram The Consevationist (1974), livro com o qual ganhou o Booker Prize, Burger’s daughter (1979), The house gun (1997), Get a life (2005), No time like the present (2012), grande parte com narrativas a tratar dos dilemas pós-Apartheid.

Filha de imigrantes judeus – sua mãe veio de Londres, seu pai deixou a Letônia ainda adolescente para escapar da miséria e se juntar a um irmão relojoeiro. O núcleo familiar está por toda obra da escritora, como estão também as experiências de educação vividas no colégio de freiras católicas onda foi educada. Foi para a literatura depois de se desencantar com o balé, chegou a dizer certa vez. As freiras alegaram que Gordimer tinha problemas cardíacos e não podia se meter com um tipo de arte que requeresse esforço físico; a mãe, na época, não engoliu muito a história e retirou a filha da escola.

Estudou em casa. E formou-se em Letras na Universidade de Joanesburgo. Esteve na Europa e nos Estados Unidos como professora em Harvard e Princeton.

No Brasil, há vários títulos seus já traduzidos, entre eles Ninguém para me acompanhar (1996), A arma da casa (2000), O engate (2004), De volta à vida (2007); o mais recente saiu este ano, O melhor tempo é o presente (2014). Todos os títulos publicados pela Companhia das Letras. Antes desses vieram O amante da natureza (Codreci / Pasquim), O falecido mundo burguês (Art Editora), A história do meu filho (Siciliano), A filha de Burger (Rocco). O Selo Biblioteca Azul, da Globo Livros, editou os dois volumes de Tempos de reflexão.

Esteve por aqui na Festa Literária Internacional de Paraty de 2007. Na época em entrevista ao caderno Prosa, do jornal O Globo falou sobre a preocupação da marginalização da literatura e apontou as formas de entretenimento contemporâneas como um grande mal social, embora compreendesse que a literatura sempre esteve a buscar folego para sobreviver a tudo: “Hoje a palavra está sendo desafiada pela imagem, que influencia mais as pessoas. O exemplo mais óbvio são as crianças. Quando você era criança, certamente seu pai ou mãe lia para você. Hoje, em vez da história, a criança fica em frente a uma televisão. É uma situação muito perturbadora, porque a imagem não pode substituir a palavra. Por outro lado, há alguns anos, diziam que o romance estava morto, mas na verdade está longe disso. O romance evolui constantemente, tentando achar novas formas de capturar o mistério da vida.”

Fica-nos, então, uma obra a ser lida e explorada.

Ligações a este post
Leia aqui resenha do nosso colunista Alfredo Monte sobre o romance De volta à vida
No Tumblr do Letras uma série de imagens da escritor Nadine Gordimer

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