Passagem dos inocentes, de Dalcídio Jurandir

Por Rafael Kafka



Passagem dos inocentes é um romance de Dalcídio Jurandir marcado pelo signo da transição. O modo de narrar que caracterizou os primeiros livros do ciclo do extremo norte, com um ritmo mais fluido e suave, começa a dar lugar aqui aos fluxos de consciência e à temporalidade oscilante que dão ao texto um aspecto mais surrealista, angustiante e perturbador. Praticamente não temos um narrador nessa obra e a mesma se dá por meio das vozes de personagens que por meio do discurso indireto livre contam a história de como Alfredo chegou à passagem que dá nome ao romance, localizada no atual bairro da Umarizal, área nobre de Belém.

Em Passagem..., Dalcídio mais uma vez foca nas desventuras de Alfredo, um garoto cheio de questionamentos existenciais e crises de identidade que veio para a capital do estado do Pará para estudar e subir na vida, sonho antigo de sua mãe, Amélia. Porém, o autor paraense como sempre consegue focar em outras histórias paralelas, evidenciando Alfredo como um protagonista cheio de dramas pessoais, mas ao mesmo tempo desperto para o que se passa ao seu redor.

Se em Chove nos Campos de Cachoeira, Eutanazio, irmão suicida de Alfredo, assume um papel tão ou mais importante do que o jovem o qual será uma espécie de Stephen Dedalus marajoara, em Passagem dos inocentes o papel de protagonista de luxo será ocupado por Celeste, sobrinha de Major Alberto, pai de Alfredo, a qual acolhe o garoto em sua casa para o mesmo seguir seus estudos no tradicional colégio Barão do Rio Branco. Por conta disso, a história se divide em dois núcleos narrativos básicos.

O primeiro corresponde ao processo de descoberta e auto descoberta de Alfredo, o qual perpassará todos os títulos do ciclo do extremo norte, com exceção de Marajó, obra com um enredo alternativo e focado em uma temática muito similar à de Sartre em sua novela  A infância de um chefe. Alfredo aqui se mostra um garoto cada vez mais perturbado pelo racismo sofrido pela mãe, que de certa forma o marca por conta da tez mulata que o persegue. O herói dalcidiano representa como poucos protagonistas na literatura nacional o sentimento de modernidade, mostrando-se uma criatura dividida entre o misticismo de Cachoeira do Arari, no Marajó, e o desejo de racionalidade buscado nas escolas do centro de Belém, naquela época vivendo uma espécie de ressaca por conta do fim do apogeu do período da borracha. Alfredo é marcado também pelo alcoolismo da mãe, provavelmente causado pela perda de dois filhos e da rejeição sofrida por conta de ser da etnia africana.

O segundo foco narrativo é a história de Celeste, moça que vive um casamento de aparências com Antonino e que possui em seu passado uma fuga misteriosa em um navio atracado no porto de Muaná, outra cidade paraense do interior, e um quase romance com um padre, temática que Dalcídio explora de forma mais poética e impactante em Marajó, por meio da personagem Orminda. Celeste se mostra uma moça de moral ilibada, mas com um passado condenável sob diversos aspectos, e também se revela uma criatura dividida em seu âmago. O enredo de Celeste é narrado entrecruzando os fatos do passado da moça e o presente angustiado, marcado em especial pela relação com o filho Belorofonte, de comportamento rebelde e mimado.

Percebemos na leitura das passagens envolvendo Celeste que o amor pelo filho tem muito de fingimento e na verdade é uma forma de disfarce perante o casamento falido. Em seu âmago, Celeste é uma mulher a qual não gostaria de ter perdido a liberdade tida quando era solteira e podemos encontrar nela interessantes ecos de passagens presentes nos ensaios sobre a condição da mulher escritor por Simone de Beauvoir. Ao que parece, o casamento com Antonino foi um arranjo entre duas famílias, algo muito comum na época, e a coqueteria de Celeste é uma forma de fugir das convenções sociais, mesmo que no fim não haja a concretização do desejo.

Outro dado interessante sobre Celeste é seu desejo de ostentar uma riqueza a qual não possui. Diz em Muaná morar na Passagem Mac Donald, cujo nome inglês passa aos ouvintes o som de coisa importante, rica. Na verdade, reside na Passagem dos Inocentes, uma rua que mais parece um interior com marcas periféricas urbanas, sem luz, sem saneamento básico e com uma vizinhança preocupada demais com os passeios que esta senhora pratica todas as quartas-feiras, os quais servem de motivo para questionamento dos vizinhos acerca de sua honradez e bom comportamento conjugal.

Nesse sentido, o comportamento de Celeste se assemelha ao comportamento da família Alcântara, a qual hospedou Alfredo durante o enredo de Belém do Gráo-Pará. Tal família assume a postura de frequentar locais onde se é possível encontrar pessoas da alta sociedade belenense, mesmo sem fazer parte da mesma. O grau de vaidade dos Alcântaras tem seu ápice quando eles se decidem pela compra de uma casarão em uma das principais avenidas da cidade apesar de este não estar nas devidas condições, o que culmina em seu desabamento.

Por conta disso, Alfredo vive a relembrar dessa família, questionando-os acerca de seu paradeiro na imensidão da cidade de Belém. Mas não são somente eles que dão as caras no romance: Libânia e Antônio, personagens adotados para servirem na casa dos Alcântaras, também são relembrados, seja pelo sentimento de amizade nutrido por eles, seja pela analogia à condição de Arlinda, uma pequena moça trazida para trabalhar na casa de Celeste e Antonino, que em seu silêncio revela as faces de uma opressão muito comum no estado do Pará: o uso de moças de famílias pobres para servirem de empregadas domésticas semi escravizadas.

Outra personagem bastante relembrada por Alfredo é Andreza, a qual possui profunda importância no enredo de Três casas e um rio. A presença dela no presente romance se dá de forma ambígua, por misturar elementos de memória e de mito. Alfredo chega a ver na presença de um sapo a coaxar insistentemente perto da rede onde dorme a possível presença da amiga, numa cena que os mais imaginativos leitores podem associar ao corvo do famoso poema de Edgar Allan Poe. Por sinal, o misticismo muito presente em outras obras aqui deixa um pouco de aparecer, surgindo apenas nas cenas que marcam rememorações de fatos ocorridos nas cidades interiorana. Todavia, ainda é possível pela leitura de Dalcídio vermos o quanto aspectos do imaginário amazônico se imiscuem em fatos do cotidiano urbano, mostrando como a inventiva imaginação do povo paraense é um aspecto importante a ser levado em conta no momento de entendermos a nossa própria identidade como povo fortemente ligado à floresta e às águas.

Percebemos em Passagem dos inocentes o talento de Dalcídio em criar uma saga de livros que mistura elementos em outros dois tipos de sagas já citados por mim em outros textos. Há sagas que se ligam pela cronologia, com um livro começando no fim do outro e sendo impossível o seu entendimento sem a leitura conjunta. Há outras sagas que se ligam de forma de temática, sem que haja uma sequência cronológica a prender necessariamente os seus fatos. O exemplo mais claro desse gênero seria a Trilogia USA de John Dos Passos. Dalcídio usa da cronologia e vemos o crescimento de Alfredo enquanto vemos as mudanças sociais que ocorreram no país no período que vai até meados da década de 30. Ainda assim, cada livro do ciclo se mostra de leitura independente e permite ao leitor que recorrências a fatos que por ele não foram lidos diretamente. Claro que o mais interessante é sempre a leitura integral da obra, mas num ambiente leitor em que as obras desse grande autor paraense são difíceis de serem encontradas, é reconfortante saber que podemos ler uma obra dele que caia em nossas mãos sem tanta preocupação em não entender a cadeia de fatos como um todo.

Dalcídio foca nas questões existenciais ligadas à identidade, ao mesmo tempo que denuncia uma série de fatos sociais sérios, como a exploração dos mais pobres e fracos, e explora o panorama social e cultural do povo marajoara e belenense. O talento do autor em criar personagens extremamente humanas em uma teia de fatos de rara profundidade existencial o colocam facilmente entre os grandes autores da literatura mundial. Falta o grande público descobrir isso.

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Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.


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