Frantumaglia, de Elena Ferrante

Por Pedro Fernandes 



Em “A frantumaglia”, texto que antecede a existência dessa coletânea, Elena Ferrante estabelece algumas definições de um termo que remonta a fala de sua mãe e emprega para justificar a condição existencial de suas personagens, sobretudo as dos seus dois primeiros romances, Um amor incômodo (1992) e Dias de abandono (2002); dentre elas, uma parece justificar o título dessa obra: “é uma paisagem instável, uma massa aérea ou aquática de destroços infinitos que se revelam ao eu, brutalmente, como sua verdadeira e única interioridade”. Tal revelação, por natureza caleidoscópica e heteróclita, produz em que aparece tomado de frantumaglia uma sensação de vertigem, náusea, desnorteamento dos sentidos, o que recobram do indivíduo uma necessidade de recuperar um estágio fundamental ao não perecimento, a vigilância sobre si.  

Ao que parece, frantumaglia é um jogo de elucubração exclusivamente feminino, embora a escritora italiana não deixe de sublinhar noutra ocasião de suas intervenções haver rompido com o que se determina enquanto sentido de mulher e sentido de homem. A indistinção, entretanto, não imiscui – e o seu leitor bem sabe – que há maneiras diversas de compreender o mundo interior e exterior e essa variedade é em parte uma constituição marcadamente pela diversidade cultural que orientam os sentidos dos seus preceptores. Numa cultura que sempre tratou de maneira distinta mulheres e homens, estes sobrepondo-se aquelas, elas desenvolveram instintivamente outras maneiras de sentir e de perceber inacessíveis a eles. Certamente mais ricas. Mas, a quantidade de ideias que circulam como poeira de uma complexa galáxia, causa nos leitores uma parte desse estar obnubilado que em parte determina o estar em frantumaglia

O texto que nomeia a coletânea é o mais desenvolvido e oferece um amplo retrato sobre a galáxia Ferrante: sabemos não apenas o que determinam os sentidos de Delia e Olga; como quais são aqueles que interessam à romancista (a relação entre mães e filhas e vice-versa, a relação feminina com um mundo propositalmente fabricado por homens, a relação dessas mulheres consigo, com as outras, com o corpo etc.); sua obsessão pelas cidades, Nápoles e Turim; pela indumentária das mulheres. Isto é, nos é oferecida uma projeção riquíssima para observar melhor a escrita e as criações da escritora italiana.  

Mas, o que se descreve como “sua verdadeira e única interioridade” é apenas outra maneira de a escritora ficcionalizar sobre si e sobre seu universo. Não reside nessa constatação uma acusação de falseamento; é, antes a compreensão que parece ser, inclusive, determinante ao fazer literário da própria Elena Ferrante: isto é, a escrita, pela impossibilidade de revelar a verdadeira ordem das coisas, é uma camada que reinventa o todo existente ao ponto de se constituir verdade autônoma entre as verdades. Há uma ocasião quando um jornalista pede à escritora que se possível descreva a si mesma e ela se recusa a fazê-lo negando uma afirmativa de Italo Calvino, para quem, toda vez que este tema se infiltrava numa conversa com jornalistas, preferia inventar, dizer falso de si, o que ela, Ferrante, prefere não seguir. Não que a lição seja vã, mas se sente responsável por uma necessária verdade do eu e pela impossibilidade de se sentir à vontade em falsear apenas para satisfazer certa curiosidade usual de todos.  

Quer dizer, o falsear não está no ato em si – uma necessidade que ela própria assim expressa noutra ocasião: “Para tolerar a existência, mentimos, sobretudo a nós mesmos. Às vezes contamos belas fábulas, às vezes dizemos mentiras mesquinhas. As mentiras protegem, atenuam a dor, permitem que evitemos o susto de refletir seriamente, diluem os horrores do nosso tempo, salvam-nos até de nós mesmos”. O danoso do falsear reside na consciência de que falseio. À medida que o faço para justificar ou estabelecer no caos uma ordem que me previna perecimento, falsear é uma necessidade. A escrita, portanto, essa dupla camada que se derrama ora por entre, ora por sobre a realidade, renovando-a, realinhando-a reside nesse território positivo da mentira. Logo, o que Ferrante ensaia nesses textos é tão somente a construção de uma complexa argamassa capaz de sustentar o castelo que constrói com palavras e imaginação, obra que preserva de toda maneira dos atentados que os olhares lascivos podem provocar. 

Parece que é o tônus que alimenta toda e qualquer conversa que os entrevistadores tentam com a escritora: captar alguma coisa que os façam acumular peças capazes de, qual o jornalista que produziu o seu curto tempo de fama, dizer qual a verdadeira identidade de Ferrante. Suas respostas são muito coerentes e inaugura uma necessidade que certamente já existiu com outras condições do escritor recluso: o direito ao anonimato. Sobretudo porque vivemos numa sociedade sedenta pela imagem, uma sociedade cada vez mais presa à ordem das sombras, para citar o mito da caverna de Platão. “Acredito que, após terem sido escritos, os livros não precisam dos autores para nada. Se tiverem algo a dizer, encontrarão, mais cedo ou mais tarde, leitores; caso contrário, não”, sublinha numa ocasião. “Acho que a boa notícia sempre é: saiu um livro que vale a pena ler. Acho também que os verdadeiros leitores e leitoras não se importam nem um pouco com que o escreveu. Acho que os leitores de um bom livro esperam no máximo que o autor de um bom livro continue a trabalhar com consciência de produzir outros bons livros”, sustenta noutro momento. “O verdadeiro leitor, a meu ver, não procura o rosto frágil da autora em carne e osso que se embeleza para a ocasião, mas a fisionomia nua que permanece em cada palavra eficaz”.  

Assim, quando diz se assumir mais autêntica nas intervenções públicas, Ferrante parece dizer que nelas se mostra melhor porque nelas se revelam as peças que constituem seu universo pessoal (o que pensa, as leituras, os temas que de seu interesse) uma vez na ficção seu estilo se constitui por se aproximar tanto das vivências suas e alheias ao ponto delas se constituírem situações puramente ficcionais e não presas ao seu tempo e seu lugar de produção. Entretanto, o que se mostra é apenas uma pálida imagem, fantasmagórica e múltipla. Afinal, o eu que escreve é uma projeção ideal, e essa condição não estaria apagada se tivéssemos acesso à imagem de quem fala.  

O que em parte está em questão é a impossibilidade de acesso à autenticidade do eu ou mesmo uma tentativa de construção de um eu cujo todo se mostre em melhor condição uma vez ser a escrita algum sustentáculo à inapreensibilidade. E Ferrante problematiza isso claramente ao preferir apenas a escrita o meio pelo qual prefere se manifestar; essa provocação é uma recusa da própria lógica assumida pelo mercado capital que aos poucos tem substituído a escrita e apagado o literário em nome da exposição excessiva do artista. Isso nos aproxima e muito de alguns fenômenos contemporâneos apresentados na história recente da nossa literatura, quando um possível nome porque publicado por uma importante editora preenche inteiramente as páginas de toda imprensa comum nacional enquanto as qualidades da escrita sequer aparecem ou são apenas massivamente repetidas no mesmo tom vazio do autor-revelação. “Não digo que é errado trabalhar dessa maneira, os caminhos para um bom livro são infinitos. Mas não é o meu modo de ver o processo criativo”, alerta-nos Ferrante. Ainda que não negue claramente as imposições do mercado, porque sua atitude já o faz suficientemente, essa mesma atitude cobra de nós certo cuidado para o que vende o mass midia. Essencialmente o que nos oferece a todo custo destoa da natureza do literário. 

O melhor dos textos de Frantumaglia é a negação do epíteto forjado por este mesmo mercado sedento pela imagem. Ao se corresponder com a imprensa – e neste 2018 Ferrante passou a assinar uma coluna semanal no Guardian – e com os seus leitores sabemos logo que a ideia de reclusão não serve de justificativa sobre a escritora italiana. Recluso seria o escritor cuja presença é notada apenas pelos livros que escreve; Frantumaglia prova que não é o caso de Elena Ferrante. “Os leitores, se quiserem, podem escrever à editora. Fico feliz com isso. Respondo mais ou menos pontualmente”, responde a um jornalista. Está em cena, portanto, uma escritora que decidiu ser unicamente – ao menos até a essa altura – produto verbal.  

Além da longa entrevista convertida em ensaio que dá nome ao livro e de outras entrevistas apresentadas depois da publicação de seus dois primeiros romances, há outros encontros intimistas propiciados por este livro que propositalmente se oferece em negação a um designativo que tende reduzir o perfil da escritora: cartas redigidas enviadas e não enviadas, excertos não incluídos nos seus dois primeiros romances, contos – um trânsito original e determinante para o funcionamento do universo Ferrante que se mostra ao alcance do leitor, como fôssemos instado à casa de máquinas da ficção pelos mecanismos que a enformam, a palavra escrita.  

Elena Ferrante novamente mostra o quanto as fronteiras que se constroem entre o eu e suas criações são apenas convenções. A escrita é lugar onde convergem os dois rios que constituem existir: o das vivências físicas e o das experimentadas pela dimensão imaginária, indispensável. “A via biográfica não leva à genialidade de uma obra, é apenas uma micro-história que acompanha”. Rico experimento na era da imagem. Frantumaglia nos aproxima e simultaneamente nos embaça ainda uma existência que se tem feita de tinta e papel. Pode não parecer, mas é mesmo o suficiente para a existência de uma obra. 

Ligações a esta post:
>>> Elena Ferrante, a leitora


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