Das misérias humanas

Por Pedro Fernandes

1. Quero relatar um episódio que não sei onde o colocaria na estante dos episódios, desses que frequentemente acontecem conosco, mas creio que fica bem no setor daqueles episódios que por baixo se escreve "Das misérias humanas". Também não sei o misto de sentimentos que me passou ponta a ponta pela cabeça no momento em que ocorreu o dito fato - se pena, se tristeza, se... O fato é que na saída de um sebo, certo dia, dia daqueles escolhidos para peregrinação em sebos, pedi a uma camelô, um copo de água, que ainda, apesar dos altos e baixos da economia, se é vendido a cinquenta centavos. Revirei minha mochila e catei os centavos que tinha. Quarenta e cinco no total. Não tomei cara emprestado e joguei com a vendedora: - Aceita os quarenta e cinco ou quer tirar de dez? Ela devolveu-me as moedas: - É melhor tirar de dez. É... E dizem por aí os economistas que o dinheiro anda curto. Não para aquela vendedora. Dei os dez, recebi o trocado e saí matutando, modo de filosofar nordestino: - Preciso de registrar isso.

2. Parece que isso que eu classifiquei de miséria humana, mas entendo ser este tipo encaixado no título de morta-fome, ter virado moda. Desculpe-me se estou sendo franco, mas acho, particularmente, essas mesquinhezes a extremidade do absurdo. Pois não é que, novamente, um desses morta-fome inventa de atravessar meu caminho. Desta vez, o fato se deu num supermercado: entrei às pressas para comprar um iogurte. No costume de sempre comprar aquele produto que custa R$1,7, peguei-o e fui direto ao caixa. Ao contar minhas moedas dei de cara com R$1,6. Já sabem, então, o que aconteceu. Simplesmente a caixa não me despachou a compra. Passei a ver isso como algo mais absurdo ainda do que aquele episódio da camelô, se entendo que, o lucro que ela tinha talvez fosse apenas aqueles cinco centavos de que ela fez-me questão. Mas num supermercado, em que vigora aquelas contagens do nove (1,99; 2,99; 3,99 e por aí vai) e a que agora vigora, para variar a do oito, a do sete, a do seis, (1,88; 1,78; 1,68) que enchem o rabo dos comerciantes, que ao fim do dia, do mês, do ano, paga todas as promoções bestas que eles propagandeiam e ainda sobra um caixa-dois, eu pergunto, onde está a vantagem em não vender um produto apenas por causa de dez centavos? Deixo a pergunta ao leitor, mas o que acho é que esse triste país onde vivemos está assim porque estamos entregues à uma lerdeza dos infernos e, não fazemos o nosso papel de, por exemplo, cobrar os centavos que eles enfiam no cu cada vez que compramos um produto qualquer.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Boletim Letras 360º #585

Boletim Letras 360º #579

Boletim Letras 360º #581

A bíblia, Péter Nádas

Boletim Letras 360º #582

Boletim Letras 360º #583