O moderno

Por Enrique Vila-Matas

Charles Baudelaire por Augusto Brouet


“É preciso ser absolutamente moderno”, disse Rimbaud. E um século e meio depois ainda sofremos as consequências. Essa frase, além de intimidadora, comenta Calasso em La Folie Baudelaire, fez inumeráveis vítimas, numerosos “escritores quase sempre medíocres, mas totalmente decididos, como tal a seguir o slogan que os havia cegado”.

Nos últimos tempos recebemos constantemente notícias de pessoas que não sabem que é inútil dizer que são inovadoras, porque a longo prazo, se são revolucionárias ou tecnoplásticas, serão julgadas pelo tribunal digital do tempo, sempre implacável. Charles Dickens ou Franz Kafka nunca presumiram mudar a história da literatura – nem a história de nada – e sem dúvida a mudaram. É uma prova de que para transformá-la não é necessário dar o último grito. O futurista Julien Gaul presumiu colocar tudo de pernas para o ar e hoje ninguém tem notícias dele. Se minha geração viu morrer Thomas Bernhard, alguns setores da seguinte vão a caminho de asfixiar-se de tanta presunção, inércia e opacidade do mundo que se adere à escrita de seus comparsas teóricos do novo.

Em seu momento, apenas Baudelaire esteve à altura das circunstâncias e talvez por isso hoje é o único moderno que não nos parece antiquado. Brummel nos ensinou que o ponto alto da elegância é a “simplicidade absoluta”. E Baudelaire que alcança o limite máximo da modernidade não sendo moderno e limitando-se ainda a baldear o movimento interno do mundo em que vive, embora reconhecendo nele uma “utilidade misteriosa”.

Assim, a revolução de Baudelaire, sugere Calasso, foi de caráter “conservador”. Baudelaire havia lido Joseph de Maistre e Chateaubriand e com eles aprendeu, como escreveu Christopher Domínguez Micahel, “o segredo da inovação anacrônica, a capacidade de traduzir aquilo que parece provir de uma língua morta”. Sim, mentalmente, foi mais fiel ao pintor Ingres e à Idade Média que ao romântico Delacroix. E não pode se dizer que teorizara muito sobre a modernidade, mas buscou averiguar melhor sua essência, isolá-la como se um elemento químico, registrar o peculiar, incessante bramido nervoso que desde sempre a corroía e exaltava. Não a lenda dos séculos, mas a lenda do instante, em sua volatilidade e precariedade; a lenda de um presente que percebia que cada vez comunicava mais com a decadência e o vazio. E no vazio, já se sabe, sempre acaba encontrando-se com algum célebre desconhecido. Um dia, mostraram a Baudelaire um objeto africano, uma pequena cabeça monstruosa talhada num tronco de madeira por um pobre negro. “É realmente feia”, disse alguém. “Cuidado!”, disse ele, inquieto. “Poderia ser o verdadeiro Deus!”

Na última página de La Folie Baudelaire, na descrição de um instante, Calasso parece adiantar o segredo da “inovação anacrônica” e a abaladora e verdadeira índole do moderno: “O rumor contínuo dos troncos caindo sobre o calçado dos pátios. Eram descarregados das carretas, casa por casa, ante a iminência do frio. A lenha cai no chão e anuncia o inverno. Baudelaire assiste. Não tem necessidade de nenhuma outra coisa que não seja esse som, surdo, repetido...”.

Quase ouvimos aí, misturada com a queda abafada da lenha, a laboriosa respiração do poeta ante o inverno. Baudelaire assiste e se prepara para escrever – com o nervo de sua elegante simplicidade absoluta – uns versos que hoje são lendários, mas também – por pertencer a nosso odioso e patético presente – o mais moderno que alguém pode ler nestes dias em que comprovamos que nada é novo e tudo se repete tragicamente no incessante bramido que nos exalta desde sempre: “Fremente escuto cada tronco que desaba; O cadafalso não tem um mais surdo ronco.” 

* Este texto é a tradução de “Lo moderno”, publicado no jornal El País.

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