As 120 grandes obras da Literatura Brasileira, segundo Alfredo Bosi

Tarsila do Amaral. Morro da favela (1924)



Em 2005, o Museu da Língua Portuguesa pediu ao professor e acadêmico Alfredo Bosi uma lista de 120 grandes obras da Literatura Brasileira. Reproduzimos a seguir o arquivo apresentado pela instituição. Trata-se de uma lista preciosa organizada pelo autor do indispensável História concisa da Literatura Brasileira, livro que passa em revista toda a história da nossa literatura, dos primeiros instantes ao dias modernos. A publicação contempla duas partes: na primeira, um texto-incentivo do próprio Bosi; e na segunda, a lista que engloba cinco períodos: o colonial (leia-se, dos séculos XVI ao XVIII); o século XIX (de consolidação da nossa literatura); o século XX; o Modernismo; e depois do Modernismo. Boas leituras!

*

O que esta linha do tempo representa? O que nela figura explicitamente? O que precisou ficar nela implícito?
 
O que se explicitou foi a história da Língua Portuguesa. O que ficou implícito foi a inclusão de obras de autores brasileiros de nascimento ou adoção, que em 2005 já nos deixaram, mas permanecem vivos na vida de suas obras, na leitura que delas fazemos e na memória que merecem como artistas da língua portuguesa no Brasil. O elenco não pôde, por óbvias razões de espaço, ser exaustivo, mas procurou ser representativo da variedade e da força de nossa cultura letrada.
 
Não se incluíram, portanto, autores ainda vivos, nesta data, embora, pela relevância indiscutível da sua obra, alguns poetas e narradores que vêm escrevendo desde o último quartel do século XX já pertençam à história da língua literária portuguesa no Brasil.
 
Não se incluíram, tampouco, críticos literários do passado e do presente, mesmo quando se notabilizaram pela profundidade dos conceitos e excelência da sua prosa, como Araripe Jr., Nestor Vítor, João Ribeiro, Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataide), Augusto Meyer, Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux e Antonio Candido, pois o elenco precisou ajustar- se aos limites da linha do tempo, que se rege, por sua vez, pela arquitetura mesma do Museu da Língua Portuguesa. Daí, a necessidade de escolher, prioritariamente, ficcionistas e poetas, forjadores por excelência da língua literária. A exceção, aberta para Sílvio Romero e José Veríssimo, justifica- se pelo caráter de verdadeiras balizas de nossa memória cultural que têm as suas histórias de nossa literatura até o começo do século XX.
 
Uma palavra sobre o teatro brasileiro. O chamado gênero dramático, que até os fins do século XIX estava intimamente vinculado às práticas literárias, destas se separou ao longo do século XX, constituindo uma das artes cênicas ou artes de espetáculo, com caracteres estruturais bem diferenciados da poesia e do romance. Um elenco de obras dramáticas certamente incluiria peças de Joracy Camargo, Nelson Rodrigues, Dias Gomes, Jorge Andrade, Ariano Suassuna, Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Oduvaldo Viana Filho, Millôr Fernandes, Plínio Marcos, dramaturgos, que deixaram marcas na expressão oral do português brasileiro contemporâneo.
 
De todo modo, no âmbito de sua proposta, a seleção buscou ser bastante ampla e diversificada. De Caminha e Anchieta, primeiras vozes da condição colonial entre nós, até a poesia rigorosa de João Cabral e as experiências narrativas densamente existenciais de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, a língua portuguesa conheceu uma notável riqueza de tons e perspectivas, de ritmos e imagens. E causa justa admiração que tantas diferenças de filiação regional, de classe social, de contingências históricas e de fisionomias individuais tenham alcançado exprimir-se na mesma língua, acessível a todo brasileiro medianamente culto. Saibamos admirar, respeitar e conservar este legado de verdade e beleza, não só como quem guarda um tesouro, mas sobretudo como quem recebe gratuitamente um precioso instrumento de representação do mundo que nos cerca, de expressão de nós mesmos e de comunicação com o semelhante.

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Colônia (séculos XVI, XVII e XVIII)

Pero Vaz de Caminha - Carta a Dom Manuel (1500)
José de Anchieta - Autos e Poesias (1550)
Padre Manuel da Nóbrega - Cartas (1553)
Gabriel Soares de Sousa - Tratado descritivo do Brasil (1587)
Bento Teixeira - Prosopopéia (1601)
Frei Vicente do Salvador - História do Brasil (1627)
Padre Antônio Vieira - Sermões (1638-1695)
Gregório de Matos - Poesias (ca 1680)
Manuel Botelho de Oliveira - Música do Parnaso (1705)
Antonil (pseud. de João Antônio Andreoni) - Cultura e opulência do Brasil (1710)
Nuno Marques Pereira - Compêndio narrativo do Peregrino da América (1718)
Academia Brasílica dos Esquecidos (1724) e Academia Brasílica dos Renascidos (1759)
Cláudio Manuel da Costa - Obras poéticas (1768)
Basílio da Gama - O Uraguai (1769)
Fr. José de Santa Rita Durão - O Caramuru (1781)
Tomás Antônio Gonzaga - Cartas chilenas (1789?) 
Tomás Antônio Gonzaga - Marília de Dirceu (l792) 
Domingos Caldas Barbosa - Viola de Lereno (1798) 
Silva Alvarenga - Glaura (1799)

Século XIX (Romantismo, Realismo, Parnasianismo e Simbolismo)
 
Gonçalves de Magalhães - Suspiros poéticos e saudades (1836)
Martins Pena - O juiz de paz na roça (1838-1842) 
Joaquim Manuel de Macedo - A moreninha (1844) 
Gonçalves Dias Primeiros Cantos (1846)
Gonçalves Dias - Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão (1848)
João Francisco Lisboa - Jornal de Timon (1852-1854)
Alvares de Azevedo - Obras (1853-1855)
Francisco Adolfo de Varnhagen - História geral do Brasil (1854- 1857)
Junqueira Freire - Inspirações do claustro (1855)
Manuel Antônio de Almeida - Memórias de um sargento de milícias (1855)
José de Alencar - O Guarani (1857)
José de Alencar - O demônio familiar (1858) 
Luís Gama - Primeiras trovas burlescas (1859) 
Casimiro de Abreu - Primaveras (1859) 
Tavares Bastos - Cartas do Solitário (1862) 
Fagundes Varela - Cântico do Calvário (1865) 
José de Alencar - Iracema (1865)
Qorpo-Santo - Comédias (1866)
Sousândrade - O Guesa (1867-1884)
Castro Alves - Vozes d’África, O navio negreiro (1868)
Castro Alves - Espumas flutuantes (l870) 
Visconde de Taunay - Inocência (1872) 
Machado de Assis - A mão e a luva (1874) 
José de Alencar - Senhora (1875)
Bernardo Guimarães - A escrava Isaura (1875)
Machado de Assis - Iaiá Garcia (1878)
Machado de Assis - Memórias póstumas de Brás Cubas (1881)
Machado de Assis - Papéis avulsos (1882) 
Joaquim Nabuco - O Abolicionismo (1883) 
Raimundo Correia - Sinfonias (1883)
Raul Pompéia - O Ateneu (1888)
Olavo Bilac - Poesias (1888)
Sílvio Romero - História da Literatura Brasileira (1888)
Aluísio Azevedo - O cortiço (1890) 
Machado de Assis - Quincas Borba (1891) 
Cruz e Sousa - Broquéis (1893)
56.Rui Barbosa - Cartas de Inglaterra (1896) 
Artur Azevedo - A Capital Federal (1897) 
Joaquim Nabuco - Minha formação (1898) 
Alphonsus de Guimaraens - Dona Mistica (1899) 
Machado de Assis - Dom Casmurro (1899)

Século 20

Euclides da Cunha - Os Sertões (1902)
Rui Barbosa - Réplica às defesas de redação do Projeto do Código Civil (1902)
Graça Aranha - Canaã (1902)
Cruz e Sousa - Últimos sonetos (1905)
Capistrano de Abreu - Capítulos de história colonial (1907) 
Vicente de Carvalho - Poemas e canções (1908) 
Augusto dos Anjos - Eu (1912)
Lima Barreto - Triste fim de Policarpo Quaresma (1911) 
José Veríssimo - História da literatura brasileira (1916) 
Monteiro Lobato  -  Urupês (1918)
Valdomiro Silveira - Os caboclos (1920)

(Modernismo)
 
Mário de Andrade - Paulicéia desvairada (1922)
Manuel Bandeira - Ritmo dissoluto (1924)
Oswald de Andrade - Memórias sentimentais de João Miramar (1924)
Oswald de Andrade - Pau-Brasil (1925)
Guilherme de Almeida - Raça (1925)
Simões Lopes Neto - Contos gauchescos (1926) 
Alcântara Machado - Brás, Bexiga e Barra Funda (1927) 
Mário de Andrade - Macunaíma (1928)
Cassiano Ricardo - Martim-Cererê (1928)
Manuel Bandeira - Libertinagem (1930)
Carlos Drummond de Andrade - Alguma poesia (1930)
 
(Depois do modernismo)
 
Raquel de Queirós - O Quinze (1930)
José Lins do Rego - Menino de engenho (1932) 
Gilberto Freyre - Casa grande e senzala (1933) 
Graciliano Ramos - São Bernardo (1934) 
Jorge Amado  -  Jubiabá (1935)
Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil (1935) 
Érico Veríssimo - Caminhos cruzados (1935) 
Rubem Braga - O conde e o passarinho (1936) 
Dionélio Machado - Os ratos (1936)
Graciliano Ramos - Angústia (1936)
Otávio de Faria - Tragédia burguesa, I, Mundos mortos (1937)
Graciliano Ramos - Vidas secas (1938) 
Marques Rebelo - A Estrela sobe (1938) 
Murilo Mendes - A poesia em pânico (1938) 
Jorge de Lima - A túnica inconsútil (1938) 
Cecília Meireles - Viagem (1939)
José Lins do Rego - Fogo morto (1943)
Carlos Drummond de Andrade - A rosa do povo (1945)
Guimarães Rosa - Sagarana (1946)
Vinicius de Moraes - Poemas, sonetos e baladas (l946)
Henriqueta Lisboa - Flor da morte (1949)
Érico Veríssimo - O tempo e o vento (1949-1961) 
João Cabral de Melo Neto - O cão sem plumas (1950) 
Carlos Drummond de Andrade - Claro enigma (1951) 
Jorge de Lima - Invenção de Orfeu (1952)
Cecília Meireles - Romanceiro da Inconfidência (1953)
Graciliano Ramos - Memórias do cárcere (1953) 
João Cabral de Melo Neto - Morte e vida severina (1956)
Guimarães Rosa - Grande sertão: veredas (1956) 
Guimarães Rosa - Corpo de baile (1956) 
Clarice Lispector - Laços de família (1960) 
Guimarães Rosa - Primeiras estórias (1962)
João Antônio - Malagueta, Perus e Bacanaço (1963) 
Clarice Lispector - A paixão segundo G.H. (1964) 
Osman Lins  - Nove novena (1966)
Antônio Callado - Quarup (1967)
Haroldo de Campos - Xadrez de estrelas (1974)
José Paulo Paes - Um por todos (1986)

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