Boletim Letras 360º #322


Nesta semana, o blog Letras in.verso e re.verso recebeu nova colunista, Irina Migliari. É o último nome dos selecionados da última chamada que realizamos no início de 2019. Estamos bem robustos, como veem. À medida que as participações de novos nomes forem se expandindo por aqui, os leitores poderão ter acesso diretamente aos textos de cada um através do menu lateral e saberão melhores detalhes sobre através da guia Expediente. Não deixem de acompanhá-los. Formamos um time de alto quilate. Recadinho dado, veja a seguir as matérias apresentadas durante a semana em nossa página no Facebook, o preciso objetivo desta publicação. Acompanha, as dicas de leituras (seguindo a temática do Dia das Mães) e os links com conteúdos extras. 

Fotografias de Gabriel García Márquez realizadas aquando da publicação de Cem anos de solidão vão a leilão.


Segunda-feira, 6 de maio

No ano do centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen, a primeira biografia da poeta portuguesa.

O livro que sai em Portugal é da jornalista Isabel Nery. A autora percorreu lugares e pessoas que fizeram parte da história de Sophia, como o Porto, a Grécia, Lagos, ou entrevistando mais de 60 pessoas, do pescador José Muchacho, ao amigo Manuel Alegre, e ao ensaísta Eduardo Lourenço, passando por companheiros das letras e da política. Só assim foi possível completar a biografia que faltava sobre a primeira portuguesa a receber o Prêmio Camões e a única mulher escritora com honras de Panteão Nacional.

Vai a leilão um conjunto de fotografias de Gabriel García Márquez de quando da publicação de Cem anos de solidão.

As fotos foram realizadas por Rodrigo Moya com o objetivo de servirem à quarta capa do romance mais conhecido do escritor colombiano. No total são 12 tomadas em que se vê Gabo trajando um terno quadriculado. As imagens foram realizadas durante uma sessão em 1966 e contêm anotações manuscritas do próprio escritor. Apesar dos registros, Vicente Rojo, o editor de Cem anos de solidão, decidiu não publicar nenhuma das imagens, que foram aproveitas noutras edições da obra, como a versão inglesa de 1970. O leilão é realizado pela casa Morton, em Cidade do México, com lances iniciais de 100 mil pesos.

Terça-feira, 7 de maio

Outro título da obra de François Mauriac ganha reedição.

No sudoeste da França, em um lugarejo remoto castigado pelo sol e mergulhado numa atmosfera febril, a heroína de Thérèse Desqueyroux é acusada de envenenar o marido, Bernard, com superdosagem de um medicamento que continha arsênico. Católico fervoroso e obcecado pelo problema da culpa e do resgate, François Mauriac demonstra neste romance todas as suas qualidades de grande narrador. Nesta bela tradução do poeta Carlos Drummond de Andrade, a trama move-se no terreno que Mauriac explorou com maestria: imiscui-se nos meandros mais recônditos da vida familiar na província francesa, acompanha de perto o percurso turvo da protagonista de um escândalo conjugal e junta-se a ela num exame de consciência sinuoso e torturante. Esta obra havia sido apresentada mais recentemente pela Cosac Naify e sai agora pela Editora José Olympio. Antes desse título, a mesma casa editorial havia publicado, do autor, O deserto do amor.

Quarta-feira, 8 de maio

A Dublinense apresenta livro de crônicas de Yuri Al'Hanati, do Livrada.

Bula para uma vida inadequada. Antes uma maldição formadora de párias, o deslocamento social é, hoje, o aspecto mais democrático da pós-modernidade. O estar fora de lugar é o tema destas crônicas. O flagrante cotidiano, usual do gênero, deixa um pouco de lado a perversão do voyeurismo para esboçar uma filosofia do estranhamento que, acima de tudo, celebra a solidão e a diferença. As crônicas deste livro formam uma bula: descrevem e prescrevem a vida inadequada, constroem com cenas o contraste entre a vontade de estar junto e a realidade de se estar só e tateiam, junto ao leitor, um entendimento comum sobre o fenômeno. Uma ponte levadiça, erguida quando a distância é conveniente, baixada quando a vida urge comunhão.

Quinta-feira, 9 de maio

História de uma menininha, assinado por Laure, pseudônimo de Colette Peignot (1903-1938), um livro de memórias desta mulher de saúde frágil, que trocou o meio aristocrático-burguês parisiense pelo ambiente soviético-comunista, e que conviveu com Picasso, Buñuel e tantos outros.

Nascida em Paris em 1903 numa família católica abastada e conservadora, Colette Peignot rebelou-se contra seu passado burguês. Usando o apelido de Laure, ela se recriou, adotando como estilo o decadentismo, a política radical e uma voz angustiada em sua poesia, prosa e ensaios. Associou-se a escritores importantes e a dissidentes políticos da vanguarda parisiense de entre guerras. Laure trabalhou e financiou o jornal esquerdista La Critique Sociale, que publicou alguns dos ensaios mais importantes de Georges Bataille, bem como os de outros surrealistas e marxistas. Aos 31 anos, ela começou um intenso caso com Bataille, morrendo em sua casa quatro anos depois de tuberculose. O próprio Bataille e Michel Leiris descreve que a concisão de História de uma menininha "é natural para qualquer um que esteja acostumado a não se embaralhar naquilo que não lhe parece ser essencial. Nessas páginas, são narrados os fatos aparentemente mais determinantes quanto à personalidade excepcional, já perceptível, mas que fazem sobressair, mais tarde, essa menina parisiense para quem a guerra de 1914-1918 foi ocasião para inúmeros lutos cujas regras a família dos burgueses ricos e bem-pensantes de onde ela saíra devia seguir estritamente. No próprio aspecto de seus rascunhos, fica evidente que aqui se trata, mais do que de uma tarefa para falar adequadamente literariês, de uma tentativa para, custe o que custar, objetivar alguns desses profundos nós que se formam em um ser ao mesmo tempo rude e sensível, apertando-o até quase sufocá-lo, de modo que para ele é uma necessidade vital projetá-los para fora com a única finalidade de libertar-se deles". A tradução de Ana Goldberger sai pela Iluminuras.

Sexta-feira, 10 de maio

Sai em junho no Brasil a tradução de duas peças de Edward Albee.

Quem tem medo de Virginia Woolf? (1962), que foi adaptada para o cinema quatro anos depois da publicação, e Três mulheres altas (1991). As duas peças saem, segundo o jornal saem em junho pela Grua Livros com tradução de Bruno Gambarotto e o primeiro tem como posfácio texto de Antonio Gonçalves Filho publicado no Caderno 2, quando Albee morreu.

DICAS DE LEITURA

1. Um amor incômodo, de Elena Ferrante. Que impressões de mãe ficam registradas num filho para além do DNA. Delia, que nutre um sentimento de querer libertar-se da mãe, descobre, ao acaso que Amalia está morta. Ao voltar a cidade natal a fim de conduzir os procedimentos com a sepultura da mãe, ela mergulhará num turbilhão de memórias, afetos, desafetos, histórias contadas, vividas e inventadas cujo interesse recai na compreensão de que na sua memória, história e imaginação a figura materna está ainda viva, repetível e perturbadora. Como se não fosse incapaz de separar-se dessa outra, que muito de si, Delia mergulha numa diversidade de episódios que a princípio teriam a função de libertar-se da mãe e ser ela própria. Mas, como é possível se desvencilhar de alguém que, em toda parte, lhe acompanha – seja pela idealização contínua que faz da mãe desde a infância aos titubeios marcados pelas impressões alheias atribuídas de maneira pejorativa sobretudo por um pai violento e machista e um tio capaz de acreditar que as mulheres são as responsáveis principais por todo mal que há no mundo, desde a origem de todas as coisas.

2. Em teu ventre, de José Luís Peixoto. O mito mariano é, sem dúvidas, um dos de maior culto no cristianismo moderno. A imagem da mãe de todos, generosa, submissa e capaz de passar tudo no bem interesse de servir de ordem ao mundo e paz aos homens serviu de alimento para uma série de histórias sobre a descida à terra de Nossa Senhora, interessada em renovar esses seus votos maternos para com a humanidade. Um dos episódios mais marcantes, nesse imaginário é das aparições em Fátima, Portugal, em 1917. Alimentado das diversidades de significações que o registro da relação materna propicia a crentes e não crentes, o escritor português recria a vida das personagens envolvidas com os episódios parte já do imaginário de seu país, para refletir sobre as relações entre mães e filhos – desde a concepção à educação e convívio para a vida. Uma das experiências literárias mais poéticas de José Luís Peixoto.

3. Mãe Coragem e seus filhos, de Bertolt Brecht. Escrita em 1939, é uma das nove peças que desenvolvidas pelo dramaturgo na tentativa de conter o avanço do nazismo e do fascismo. Situada  na Guerra dos Trinta Anos, a peça retrata o destino de Anna Fierling, apelidada de "Mãe Coragem", uma mascate que segue o Exército Sueco e está determinada em viver da guerra. Durante o curso da peça, ela perde todos os seus filhos para a mesma guerra que a fez lucrar. Este trabalho é um exemplo do chamado teatro épico, conceito forjado pelo dramaturgo alemão.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. No nosso Tumblr sempre editamos galerias de imagens. Algumas delas interessam neste Dia das Mães, como estas de escritoras e mães ou estas de escritores com suas mães.

BAÚ DE LETRAS

1. Dois dos livros apresentados nas dicas de leitura deste Boletim estão numa lista que publicamos em maio de 2017 com a recomendação de 11 obras literárias que têm como centro de interesse da narrativa a figura da mãe. Você pode acessar esse conteúdo que intitulamos "Mães de tinta e papel" aqui

2. Podem ler ainda este artigo sobre a estreita e complexa relação entre Jorge Luis Borges e sua mãe, ou melhor, quando Borges era Giorgie.

3. E, para sublinhar a chegada da reedição de Thèrèse Desqueyroux, de François Mauriac, recordamos um texto de Pedro Fernandes sobre o romance.

.........................
Sigam o Letras no FacebookTwitterTumblrGoogle+InstagramFlipboard


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os segredos da Senhora Wilde

Os mistérios de "Impressão, nascer do sol", de Claude Monet

Os melhores de 2018: poesia

Treze obras da literatura que têm gatos como protagonistas

Andorinha, andorinha, de Manuel Bandeira

Em busca da adolescente que abriu caminho a Virginia Woolf e Sylvia Plath

Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela, de Ignácio de Loyola Brandão