Um cão andaluz, de Luis Buñuel



A carreira do espanhol Luis Buñuel passou por várias fases distintas - a mexicana, do realismo brutal de Os esquecidos (1950), a espanhola, de Viridiana (1961), e a francesa, de impiedosas sátiras sobre a burguesia. Nenhuma delas, entretanto, sintetiza tão bem sua obra quanto a surrealista, que compreende os curtas Um cão andaluz (1929) e A era do ouro (1930).

É neles que aparecem as características que levariam o espanhol a ser considerado por Alfred Hitchcock o melhor diretor de todos os tempos: o humor provocador, algo grotesco, a ironia destilada contra a hipocrisia da igreja católica. Um cão andaluz, escrito em parceria com o artista plástico Salvador Dalí e inspirado em sonhos dos dois, é o exemplo máximo da adaptação para as telas do movimento criado por André Breton.

Não existe uma trama definida conduzindo o filme, apenas mergulhos no inconsciente, uma compilação não-linear de imagens aparentemente desconexas (o próprio diretor dizia que não significavam nada), oníricas, fragmentárias e violentas. Um piano coberto por cavalos mortos, livros que se transformam em revólveres, formigas que cobrem uma mão e, na cena mais famosa, um homem que corta o olho de mulher com uma navalha. 

Reza a lenda que Buñuel (ele, assim como Dalí, faz ponta no filme) tinha tanto medo de ser atacado pela platéia que foi à estréia munido de pedras nos bolsos. Não poderia estar mais equivocado: com 16 minutos de duração, Um cão andaluz é considerado por vários críticos o mais importante curta-metragem da história.

* Revista Bravo! 2007, p.102

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