A clarabóia

Depois de publicar em 1947, pela editora Minerva, o romance Terra do pecado, antes batizado por A viúva, José Saramago, conforme revelou a exposição A consistência dos sonhos, teria se aventurado e tanto pelo território da escrita. Uma dessas aventuras é o romance A clarabóia que, por desejo do autor, nunca chegou a ser publicado, pelo menos em vida. A novidade é que ontem, pelo Dia Mundial do Livro, a Fundação José Saramago divulga excerto inédito do referido romance. Não apenas isso, mas divulga com esse excerto que o romance será publicado no fim do ano em Portugal e em outros países:

***

Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rijamente as articulações dos braços. Por baixo da camisola, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pele das palmas tão espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada.
Num movimento mais lento de rotação, deitou as pernas para fora da cama. As coxas magras e as rótulas tornadas brancas pela fricção das calças que lhe desbastavam os pelos entristeciam e desolavam profundamente Silvestre. Orgulhava-se do seu tronco, sem dúvida, mas tinha raiva das pernas, tão enfezadas que nem pareciam pertencer-lhe.
Contemplando com desalento os pés descalços assentes no tapete, Silvestre coçou a cabeça grisalha. Depois passou a mão pelo rosto, apalpou os ossos e a barba. De má vontade, levantou-se e deu alguns passos no quarto. Tinha uma figura algo quixotesca, empoleirado nas altas pernas como andas, em cuecas e camisola, a trunfa de cabelos manchados de sal-e-pimenta, o nariz grande e adunco, e aquele tronco poderoso que as pernas mal suportavam.
Procurou as calças e não deu com elas. Estendendo o pescoço para o lado da porta, gritou:
– Mariana! Eh, Mariana! Onde estão as minhas calças?
(Voz de dentro:)
– Já lá vai!
Pelo modo de andar, adivinhava-se que Mariana era gorda e que não poderia vir depressa. Silvestre teve que esperar um bom pedaço e esperou com paciência. A mulher apareceu à porta:
– Estão aqui.
Trazia as calças dobradas no braço direito, um braço mais gordo que as pernas de Silvestre. E acrescentou:
– Não sei que fazes aos botões das calças, que todas as semanas desaparecem. Estou a ver que tenho que passar a pregá-los com arame...
A voz de Mariana era tão gorda como a sua dona. E era tão franca e bondosa como os olhos dela. Estava longe de pensar que dissera um gracejo, mas o marido sorriu com todas as rugas da cara e os poucos dentes que lhe restavam. Recebeu as calças, vestiu-as sob o olhar complacente da mulher e ficou satisfeito, agora que o vestuário lhe tornava o corpo mais proporcionado e regular. Silvestre era tão vaidoso do seu corpo como Mariana desprendida do que a Natureza lhe dera. Nenhum deles se iludia a respeito do outro e bem sabiam que o fogo da juventude se apagara para nunca mais, mas amavam-se ternamente, hoje como há trinta anos, quando do casamento. Talvez agora o seu amor fosse maior, porque já não se alimentava de perfeições reais ou imaginadas.
Silvestre foi atrás da mulher até à cozinha. Enfiou na casa de banho e voltou daí a dez minutos, já lavado. Não vinha penteado porque era impossível domar a grenha que lhe dominava (dominava é o termo) a cabeça – o “lambaz do barco”, como lhe chamava Mariana.
As duas tigelas de café fumegavam sobre a mesa, e havia na cozinha um cheiro bom e fresco de limpeza. As faces redondas de Mariana resplandeciam, e todo o seu corpo obeso estremecia e se agitava movendo-se na cozinha.
– Cada vez estás mais gorda, mulher!...
E Silvestre riu. Mariana riu com ele. Duas crianças, sem tirar nem pôr. Sentaram-se à mesa. Beberam o café quente em longos sorvos assobiados, por brincadeira. Cada um queria vencer o outro no assobio.
– Então, que resolvemos?
Agora, Silvestre já não ria. Mariana também estava sisuda. Até as faces pareciam menos coradas.
– Eu não sei. Tu é que resolves.
– Já ontem te disse. A sola está cada vez mais cara. A freguesia queixa-se de que levo caro. É a sola... Não posso é fazer milagres. Sempre queria que me dissessem quem é que trabalha mais barato que eu. E ainda se queixam...
Mariana deteve-o no desabafo. Por este caminho não resolviam nada. O que era preciso era ver essa questão do hóspede.
– Pois é, fazia jeito. Ajudava-nos a pagar a renda e, se fosse um homem sozinho e tu quisesses encarregar-te da roupa, a gente equilibrava-se.
Mariana escorripichou o café adocicado do fundo da tigela e respondeu:
– Cá por mim, não me importo. Sempre é uma ajuda...
– Pois é. Mas estarmos outra vez a meter hóspedes, depois de nos vermos livres dessa cavalheira que se foi embora...
– Que remédio! Seja ele boa pessoa... Eu dou-me bem com toda a gente, se se derem bem comigo.
– Experimenta-se uma vez mais... Um homem só, que só venha dormir, é o que convém. Logo, à tarde, vou pôr o anúncio. – Mastigando ainda o último bocado de pão, Silvestre levantou-se e declarou: – Bom, vou trabalhar.
Regressou ao quarto e caminhou para a janela. Afastou a cortina que formava um pequeno biombo que o isolava do quarto. Havia um estrado alto e sobre ele a banca de trabalho. Sovelas, formas, bocados de fio, latas de prego miúdo, retalhos de sela e pele. A um canto, a onça de tabaco francês e os fósforos.
Silvestre abriu a janela e deitou uma vista de olhos para fora. Nada de novo. Pouca gente passava na rua. Não muito longe, uma mulher apregoava fava-rica. Silvestre não chegava a perceber como vivia aquela mulher. Nenhum dos seus conhecidos comia fava-rica, ele próprio não a comia há mais de vinte anos. Outros tempos, outros costumes, outras comidas. Resumida a questão nestas palavras, sentou-se. Abriu a onça, pescou as mortalhas na barafunda de objetos que pejavam a banca, e fez um cigarro. Acendeu-o, saboreou uma fumaça e deitou mãos ao trabalho. Tinha umas gáspeas a pôr, e aí estava uma obra em que sempre aplicava todo o seu saber.
De vez em quando, relanceava os olhos para a rua. A manhã ia aclarando pouco a pouco, embora o céu estivesse coberto e houvesse na atmosfera um ligeiro véu de névoa que esbatia os contornos das coisas e das pessoas.
Na multidão de ruídos que já enchia o prédio, Silvestre começou a distinguir um bater de saltosnos degraus da escada. Identificou-os imediatamente. Ouviu abrir a porta que dava para a rua e debruçou-se:
– Bom dia, menina Adriana!
– Bom dia, senhor Silvestre.
A rapariga parou debaixo da janela. Era baixinha e usava óculos de lentes grossas que lhe transformavam os olhos em duas bolinhas minúsculas e inquietas. Estava a meio do caminho dos trinta aos quarenta anos, e já um que outro cabelo branco lhe riscava o penteado simples.
– Então, ao seu trabalho, heim?
– É verdade. Até logo, senhor Silvestre.
Era assim todas as manhãs. Quando Adriana saía de casa já o sapateiro estava à janela do rés do chão. Impossível escapar sem ver aquela gaforina desgrenhada e sem ouvir e retribuir os inevitáveis cumprimentos. Silvestre seguiu-a com os olhos. Assim, de longe, parecia, na comparação pitoresca do sapateiro, “um saco mal atado”. Chegada à esquina da rua, Adriana voltou-se e acenou um adeus para o segundo andar. Depois, desapareceu.
Silvestre largou o sapato e torceu a cabeça para fora da janela. Não era bisbilhoteiro, mas gostava das vizinhas do segundo, boas freguesas e boas pessoas. Com a voz alterada pela torção do pescoço, saudou:
– Viva, menina Isaura! Que tal o dia, hoje?
Do segundo andar, atenuada pela distância, veio a resposta:
– Não está mau, não. O nevoeiro...
Não se chegou a saber se o nevoeiro prejudicava, ou não, a beleza da manhã. Isaura deixou morrer o diálogo e fechou a janela devagar. Não desgostava do sapateiro, do seu ar a um tempo refletido e risonho, mas nessa manhã não sentia ânimo para conversar. Tinha um monte de camisas para acabar até ao fim da semana. Sábado tinha que entregá-las, desse lá por onde desse. Por sua vontade, acabaria de ler o romance. Só lhe faltavam umas cinquenta páginas e estava na passagem mais interessante. Aqueles amores clandestinos, sustentados através de mil peripécias e contrariedades, prendiam-na. Além disso, o romance estava bem escrito. Isaura tinha experiência bastante de leitora para assim julgar. Hesitou. Mas bem via que nem sequer tinha o direito de hesitar. As camisas esperavam-na. Ouvia lá dentro um ruído de vozes: a mãe e a tia falavam. Muito falavam aquelas mulheres. Que tinham elas a dizer todo o santo dia, que não estivesse já dito mil vezes?
Atravessou o quarto onde dormia com a irmã. O romance estava à cabeceira. Lançou-lhe os olhos vorazes, mas seguiu. Parou diante do espelho do guarda-vestidos que a refletia da cabeça aos pés. Trazia uma bata caseira que lhe modelava o corpo esguio e magro, mas flexível e elegante. Com as pontas dos dedos percorreu as faces pálidas onde as primeiras rugas abriam sulcos finos, mais adivinhados que visíveis. Suspirou para a imagem que o espelho lhe mostrava e fugiu dela.
Na cozinha, as duas velhas continuavam a falar. Muito parecidas, os cabelos todos brancos, os olhos castanhos, os mesmos vestidos negros de corte simples, falavam com vozinhas agudas e rápidas, sem pausas e sem modulação:
– Já te disse. O carvão é só terra. É preciso ir reclamar à carvoaria – dizia uma.
– Está bem – respondia a outra.
– Que estão a dizer? – perguntou Isaura, entrando.
Uma das velhas, a de olhar mais vivo e de cabeça mais ereta, respondeu:
– É o carvão que é uma lástima. Tem que se reclamar.
– Está bem, tia.
Tia Amélia era, por assim dizer, a ecónoma da casa. Era ela quem cozinhava, fazia contas e dividia as rações pelos pratos. Cândida, a mãe de Isaura e Adriana, tratava dos arranjos domésticos, das roupas, dos pequenos bordados que ornamentavam profusamente os móveis e dos solitários com flores de papel que só eram substituídas por autênticas flores nos dias festivos. Cândida era a mais velha, e, tal como Amélia, viúva. Viúvas a que a velhice já tranquilizara.
Isaura sentou-se à máquina de costura. Antes de começar o trabalho, olhou o rio que se estendia muito largo, com a outra margem oculta pelo nevoeiro. Parecia o oceano. Os telhados e as chaminés estragavam a ilusão mas, mesmo assim, fazendo força para os não ver, o oceano surgia nos poucos quilómetrosde água. Uma alta chaminé de fábrica, à esquerda, esborratava o céu branco com golfadas de fumo.
Isaura sempre gostava daqueles momentos em que, antes de curvar a cabeça sobre a máquina, deixava correr os olhos e o pensamento. A paisagem era sempre igual, mas só a achava monótona nos dias de verão teimosamente azuis e luminosos em que tudo é evidente e definitivo. Uma manhã de nevoeiro como esta, de nevoeiro delgado que não impedia de todo a visão, cobria a cidade de imprecisões e de sonho. Isaura saboreava tudo isto. Prolongava o prazer. No rio ia passando uma fragata, tão maciamente como se flutuasse numa nuvem. A vela vermelha tornava-se rosada através das gazes do nevoeiro. Súbito, mergulhou numa nuvem mais espessa que lambia a água e, quando ia surdir de novo nos olhos de Isaura,
desapareceu atrás da empena de um prédio.
Isaura suspirou. Era o segundo suspiro nessa manhã. Sacudiu a cabeça como quem sai de um mergulho prolongado, e a máquina matraqueou com fúria. O tecido corria debaixo da patilha e os dedos guiavam-no mecanicamente como se fizessem parte da engrenagem. Aturdida pelo barulho, pareceu a Isaura que alguém lhe falava. Deteve a roda bruscamente e o silêncio refluiu. Voltou-se para trás:
– O quê?
A mãe repetiu:
– Não achas que é um bocadinho cedo?
– Cedo? Porquê?
– Bem sabes... O vizinho...


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