O caminho árido da existência: reflexões filosóficas do jagunço Riobaldo

Por Juliano Pedro Siqueira 

A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro.

— Riobaldo

Grande sertão visto por Poty Lazzarotto



A extensa narrativa de Riobaldo — personagem nuclear em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa — possui múltiplas interpretações das inúmeras leituras que dele se pode fazer. A versatilidade linguística, o estilo arcaico da escrita e o primitivismo dos cenários descritos, cunhou no escritor mineiro o criador de uma epopeia de vertente mística em que a força religiosa e os conflitos de ordem existenciais emergem em meio às batalhas sangrentas promovidas por jagunços. A análise que parto é justamente esta: extrair a partir das reflexões de Riobaldo, a percepção filosófica que se constrói no curso dos caminhos áridos do sertão neste romance. Um mergulho profundo e complexo nas emoções e pensamentos cuja subjetividade reflete a terra enigmática, solitária, conflitante e sombria, onde o velho jagunço, precisou atravessar. 

Transcendendo os próprios desafios que o bioma sertanejo submetia ao homem, Riobaldo encarna o logos que permeia o deserto da vida. Cingido por um mundo onde a violência e a vingança são as únicas formas de significância do sujeito; Riobaldo a partir dos seus dilemas pessoais e visão de mundo, torna testemunha verossímil de que o “bicho” homem possui raízes muito mais profundas do que a terra pode sustentar. Os acampamentos improvisados, a prosa entre os camaradas que irrompiam vigílias e as cavalgadas sob o calor abrasador, serviram como pano de fundo, para construção de memórias, fantasias, medos e, sobretudo, conjeturas filosóficas voltadas, em primazia, à problemática entre bem e mal. A exemplo do prólogo do céu entre Deus e Mefistófeles em Fausto, de Goethe, Riobaldo tornou o centro da disputa entre a sedução da maldade e devoção ao bem. Apesar das atrocidades praticadas pela jagunçada em que Riobaldo fora moldado, não perdeu sua capacidade de amar, refletir e sentir — contrapondo-se ao seu opositor, o traidor Hermógenes; personificação do próprio “tinhoso”, criatura essa desprovido de compaixão.   

Riobaldo, conhecido entre a jagunçada como Tatarana (semelhante ao fogo), é aquele ser que, apesar da simplicidade, mansidão e compaixão, é capaz de marcar a vida daqueles que porventura se interpunham no seu caminho. A dualidade é uma das características da personalidade complexa de jagunço; pendendo, ora para o bem, ora para o mal, divaga em suas amargas e alegres lembranças. Ele que despende amor por Otacília e Diadorim, é o mesmo que destila ódio por Hermógenes, como por qualquer outro que ouse lhe ocultar o sol. A sagacidade e a sensibilidade espiritual garantem a Riobaldo a versatilidade necessária para romper a trajetória pelas paragens sertanejas. Em nome da sobrevivência e resistência à violência e às crendices que cegam boa parte do povoado, este homem forja-se na sabedoria da vida. A valentia equilibrada ao medo é fundamental na solidificação de uma vida que não só se serve à matança, mas que busca compreender, ainda que tardiamente, seus comportamentos ambíguos, quando não, malignos.  

Como uma grande metamorfose, Riobaldo é gestado no contexto da jagunçada até tornar-se um deles. O garoto criado desconexo da figura paterna aprende precocemente a árdua convivência entre homens afiados na faca, versados na malícia e revestidos pelo embrutecimento diário. A partir das suas narrativas, verificamos não se tratar de qualquer jagunço; sempre apelando à razão e pendulando no sôfrego sentimento, vive em dilemas contínuos em relação a suas ações, mesmo quando impelido à violência, geralmente justificada como garantia de respeito e autoridade entre o bando. Sua razão de ser não se encontra engajada na quantidade de corpos capaz de tombar, mas em analisar o sentido dos acontecimentos. Semelhante modo, ocorre com os amores de Riobaldo: nem mesmo sua intimidade escapa às reflexões filosóficas, quando, costumeiramente, se divide entre os prazeres fáceis das meretrizes — como da aroeirinha Nhorinhá, filha de Ana Duzuza —, e do amor platônico devotado a Otacília. Amores e medos, crenças e desilusões, vingança e justiça, Riobaldo é moldado pelos desafios de um mundo onde o místico e a violência digladiam o coração dos homens, dominados pelo beligerante agreste. 

A trajetória de Riobaldo e suas vicissitudes atingem alto teor metafísico, quando este se debruça sobre o fenômeno religioso. Inserido na lenda fáustica do sertão, reforçada na oralidade dos pactos firmados pelos jagunços — visando respeito e poder —, Riobaldo é instigado por tais lendas; sendo ele mesmo fruto deste pacto, não se deixa convencer que está diante de verdades inquestionáveis. Antes, é tomado, num primeiro momento, por uma visão um tanto anódina da fé ao julgar que a religião é uma espécie de cura contra a loucura: “Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura.”

Entretanto, a mesma fé que funciona como remédio (no grego, pharmakos) contra a loucura, enfrenta o paradoxo da desmedida, uma vez que essa fé se dá de forma exacerbada, podendo gerar danos, males e, até, um retrocesso à sandice. A religião pode mediar no homem o equilíbrio entre razão e paixão, desde que não o mergulhe em um mar obscuro de fantasias. Mas, uma vez propondo a libertação do desatino, a melhor saída parece ser o reconhecimento das múltiplas experiências que se pode absorver das religiões. Na mesma narrativa, Riobaldo reforça seu laicismo, afirmando que bebeu em todas as fontes, extraindo assim o proveito de cada uma delas: “Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio...”

O que sugere ser uma possível impostura da parte de Riobaldo, ao recusar hastear bandeira a uma única religião — seja cristã ou pagã —, na verdade é o resgate do caráter universal da experiência religiosa que não se deve reduzir a nenhuma teologia unilateral. A sabedoria adquirida da vida jagunça e das reflexões filosóficas permitiu a Tatarana vivenciar um bocado de cada parte do sagrado. Sua cosmovisão não foi amolada em uma única pedra bruta, passou por várias outras amolas, dentre elas, as mais propensas à cegueira. Riobaldo nos apresenta a aporia entre bem e mal, como desafios perenes, onde nem mesmo os medievos com seus esquemas de arguições metafísicas, conseguiram solucionar. A dúvida sempre anda de mãos com a certeza. Afinal, viver é perigoso!

A frase em questão tornou-se emblemática em Grande sertão e é, inclusive, amplamente citada até por aqueles que sequer leram uma página da obra. O perigo da vida não é apenas percebido ou refletido, mas sentido em cada experiência construída na aridez da existência. Viver é um arriscar constante, permeado por medos, assombros e desertos. O deserto do homem é tão vasto e seco quanto as terras infestadas por jagunços. Na sede em dominar cada território, o homem acaba destruindo a si mesmo, pois “não adianta ele ganhar o mundo, se ao final perde sua alma”. O jagunço bom, ligeiro e sagaz é aquele que não se perde em seu próprio deserto, mas o sabe explorar. O sertão é perigoso, assim como a vida! Furtar-se aos desafios que lhe são inerentes é negar a condição no mundo. Riobaldo mergulha na aridez, no pueril da existência até chegar em camadas mais profundas, passando e permanecendo em vales sombrios. Sua alma é a extensão daquele deserto encharcado de sangue. Suas reflexões, um combate contínuo e sistemático, voltado para o deserto que só ele, Tatarana, poderia perscrutar.
 
Riobaldo conhece de perto a maldade do homem sertanejo sem ocultar a sua; homens como Hermógenes, que de engajado camarada passa a traidor do bando de Joca Ramiro. Assim como Settembrine, dotado de dupla personalidade — uma satânica e a outra afável — tenta se passar por tutor de Hans Castorp em A montanha mágica, Hermógenes demonstra interesse análogo por Riobaldo e lhe vigia os passos a fim de dominar seus pensamentos. Mas sua real intenção é mesmo de lhe destruir; não apenas o corpo, mas também a alma (“Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo”— Mateus 10:28). Hermógenes quer extirpar a bondade latente de Riobaldo e torná-lo, sim, uma criatura incapaz de amar. Segue-se a mesma lógica com o personagem Adrian Leverkün, de Doutor Fausto, que, após seu encontro e pacto com satã, perde em seguida sua capacidade de amar. Entrementes, tanto o homem da razão, da música ou do sertão, quando se perde as chamas do amor, decreta-se assim sua ruína e danação eterna. Ainda que seu corpo goze fartos longos anos de vida gloriosa através do pacto fáustico, ao final, a alma sofrerá os danos eternos. É o amor que faz o homem suportar a desgraça da vida, encarar com leniência o inferno da existência. Uma vez que se perde essa philia pela vida — lançando-se desesperadamente aos encantos da maldade — significa a perda absoluta de si e da salvação que um dia almejou. 

Riobaldo é esse manancial de pensamentos, inquietações e ações ambíguas. Reflexo das contingências da vida, não se cansa em afirmar os desafios nela contidos! Impossível peregrinar no deserto da existência sem os riscos inerentes ao viver. Pode-se ignorar a felicidade do homem, mas não os perigos que o ronda, pois independente do melhor modelo filosófico em que se enquadre, seu temor maior sempre será os mistérios que envolve o existir! Enfrentar a realidade que escancara diante dos olhos é, por si só, uma árdua missão. Essa é a vida que se tem, ou o que se sobra dela: diante das crenças, dos saberes, dos paradoxos; contando com homens bons, mas todos inclinados para o mal. Com suas máscaras e farsas, o jagunço caminha desbravando um deserto brutal e sem fim. Seu mundo é incerto, traiçoeiro, belicoso e confuso. Ameaças essas, que facilmente conduzem a atalhos quando se nega refletir a miséria da natureza humana. Ignorar os riscos da existência é lançar-se na insanidade, na loucura, na incredulidade; recusar o amor, a coragem e a valentia é a pior sentença de morte. Quando o homem perde seu elo com o afeto e pensamento, ele se desafeiçoa na sua essência, coisificando feito bala de revólver, se torna um tiro errante pelo mundo, causando estragos por onde trafegar. 

A existência, conforme a corrente existencialista, carrega em seu bojo a sensação do nada, da angústia e do desespero. Mas é preciso coragem para aceitar seus múltiplos desafios. Riobaldo, o homem do sertão, abraça seus medos, perigos, desejos e desesperos inerentes a sua trajetória desértica. Não sucumbe à missão que a vida o condiciona, indo para além da coragem; um salto existencial que visa dialogar com um mundo caótico, emergente. Viver é um convite desafiador! A todo instante uma batalha, uma queda, uma disputa que está em jogo: seja no deserto interior, onde a sombra costuma ocultar o pequeno sol que procura brechas para emanar luz, seja das guerras externas que tende a nos constrange à covardia e ao retrocesso. O coração do homem é esta morada disputada entre sentimentos obscuros e ideias flutuantes, a mutabilidade absurda que tenta encontrar um sentido em si. Mas quanto mais ele pensa estar próximo do sumo bem, mais sua natureza está propensa a praticar o mal. Porque viver é, em última instância, um perigo constante!

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