Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Guimarães Rosa

O caminho árido da existência: reflexões filosóficas do jagunço Riobaldo

Imagem
Por Juliano Pedro Siqueira  A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro. — Riobaldo Grande sertão visto por Poty Lazzarotto A extensa narrativa de Riobaldo — personagem nuclear em Grande sertão: veredas , de João Guimarães Rosa — possui múltiplas interpretações das inúmeras leituras que dele se pode fazer. A versatilidade linguística, o estilo arcaico da escrita e o primitivismo dos cenários descritos, cunhou no escritor mineiro o criador de uma epopeia de vertente mística em que a força religiosa e os conflitos de ordem existenciais emergem em meio às batalhas sangrentas promovidas por jagunços. A análise que parto é justamente esta: extrair a partir das reflexões de Riobaldo, a percepção filosófica que se constrói no curso dos caminhos áridos do sertão neste romance. Um mergulho profundo e complexo nas emoções e pensamentos cuja subjetividade reflete a terra enigmática, solitária, conflitante e sombria, onde o velho jagunço, precisou atrav...

Indevassável, mas perquirível: Melhores contos, de Guimarães Rosa

Imagem
Por Guilherme Mazzafera João Guimarães Rosa à máquina de escrever. Que Guimarães Rosa é um contista nato não há como contestar — afinal, o romance, por mais brilhante que seja, é antes desvio irrepetível de percurso do que a norma compositiva em sua obra. No terreno mais ambíguo da novela, sua adoção plena deu-se unicamente em Corpo de Baile , contraface de Grande Sertão: Veredas e que forma com este o ápice da diástole rosiana soberbamente evidenciada no ano de 1956. Circundando estas obras magnas, temos dezenas de narrativas cuja variedade, apuro e escopo formal já seriam mais que suficientes para garantir ao escritor mineiro seu merecido lugar no panteão literário nacional. E é justamente esta contística múltipla que chega às mãos dos leitores brasileiros a partir da esmerada seleção de Walnice Nogueira Galvão. Melhores contos (Global, 2020) reúne 16 narrativas rosianas extraídas de cinco livros seus:  três de Sagarana (1946), sete de Primeiras estórias (1962), três...

Guimarães Rosa aporta no Uruguai

Imagem
Por Guilherme Mazzafera João Guimarães Rosa discursa no Ministério das Relações Exteriores, 1959.   Não foi sem alguma surpresa que me deparei há alguns anos com um livrinho de Guimarães Rosa publicado no Uruguai. Intitulado Con el vaqueiro Mariano — relatos (Ediciones de la Banda Oriental, 1979), com tradução de Washington Benavides e Eduardo Milán, o livro reúne duas narrativas fundamentais de momentos de escrita distintos na obra de Rosa: o próprio “Com o vaqueiro Mariano” e “São Marcos”. Este, extraído de Sagarana (1946), funciona como uma espécie de núcleo linguístico da obra de estreia, delineando uma poética precisa que tanto valoriza o “ileso gume do vocábulo” como a tensão inelidível entre as instâncias letrada e popular de linguagem, imortalizada no duelo poético em gomos de bambu protagonizado pelo narrador em primeira pessoa e seu rival, “Quem-será”. A importância deste texto para a obra rosiana é indicada pelo próprio autor quando indagado sobre a gênese das narrati...

Guimarães Rosa, copidesque de Mário de Andrade

Imagem
Por Guilherme Mazzafera João Guimarães Rosa à máquina de escrever. Arquivo Conselheiro Guimarães.   “A língua portuguesa, aqui no Brasil, está uma vergonha e uma miséria”. Esta formulação se encontra em uma carta de João Guimarães Rosa a seu tio Vicente Guimarães, datada de 11 de maio de 1947. Nela, com verbo pungente e desabrido, Rosa delineia uma poética precisa para a qual a emergência de “novos tempos” exige uma postura diversa dos escritores perante sua matéria, mudança que permitiria reabilitar a arte “depois de longo e infeliz período de relaxamento, de avacalhação da língua, de desprestígio do estilo, de primitivismo e de mau gosto” (GUIMARÃES, 2006, p. 134). Não é difícil perceber nessa enumeração algumas críticas a propostas do primeiro Modernismo, em especial à noção do primitivismo, do relaxamento e avacalhação da língua propiciada por uma atitude demasiado irreverente ao estilo. Figura central do movimento e espécie de demônio tutelar de Rosa, o acerto de contas com Má...

O amor do pasto secado: Manuelzão e Miguilim

Imagem
Por Guilherme Mazzafera Em seu primeiro ano como novo arrancho editorial da obra de João Guimarães Rosa, a Global optou pela publicação de três obras de monta. Sua escolha, em um primeiro momento, parece ser a de repor, em novas edições com aparatos críticos inéditos, altamente relevantes ou consideravelmente esquecidos, as obras com que os leitores rosianos estão mais familiarizados, não deixando de lado, é claro, as listas do vestibular. Tendo iniciado o percurso com Sagarana e seguido até Primeiras estórias , que já tivemos a oportunidade de resenhar (veja aqui e aqui ), Manuelzão e Miguilim, primeira parte do tríptico em que Corpo de Baile veio a ser reforjado, conduz-nos a uma etapa intermediária da obra rosiana que o mero elencar de obras e datas não permite entrever. Para quem acompanhou Rosa apenas pelos livros, ignorando suas publicações em jornais e revistas entre 1947 e 1954, a data 1956 desponta quase como seu annus mirabilis . Com diferença de menos de ...