A arte de fazer livros pela Arte & Letra




A chegada dos leitores digitais para e-books e antes disso toda a febre tecnológica em torno dos tablets e ainda antes a moda dos notebooks, tudo do lado eletrônico, aliás, sempre veio precedida de outra febre, a causada pelo medo de que todo o aparato tecnológico pudesse abocanhar o livro de papel e promover, de uma vez por todas o fim do livro. Até a já desacreditada revista Veja chegou a insinuar coisas do tipo com matéria de capa alardeando substituições de modos de leitura da noite para o dia. Tudo alarde mesmo, porque nos países em que os e-readers e companhia surgiram bem antes, o livro de papel ainda sobrevive muito bem e em alguns casos tem mesmo é se sofisticado, a ponto de, como vinil, se tornar produto de um trabalho semiartístico. No Brasil, já a Cosac Naify, há anos investe em livros-arte que extrapolam o conceito moderno de leitura aliando-se com a produção de um sentido de bem estar visual e de apresentação na estante. Para muitos isso poderá parecer besteira de consumista, que o importante mesmo é ler, seja de forma for, mas é muito claro que, investir numa sofisticação do livro é, antes de tudo, renascer a cultura dos afetos pelo bem material de papel.

Pois bem, já desde janeiro, quando esse grupo de Curitiba (PR), a cidade brasileira mais literária – sim, porque são tantas as iniciativas vindas daquela parte do país que se pode falar com toda propriedade que um novo eixo já está há bom tempo em vigor que não o já antigo eixo Rio de Janeiro-São Paulo – juntou-se no lançamento de uma coleção de livros feitos artesanalmente. Isso mesmo: qualidade levada a um coeficiente que no Brasil é novidade. E novidade das boas. Pensada pela Arte & Letra. Os livros são trabalhados manualmente, impressos em tipografia, costurados à mão, capas e desenhos à base de xilogravura. A coleção reúne textos clássicos: Um coração singelo, de Flaubert, Assassinatos na Rue Morgue, de Edgar Allan Poe, e Luzes, de Tchekhov.



Os livros têm tiragem numerada e limitada – 200 exemplares de cada título. Montado página por página com linotipos também em xilogravura. As ilustrações dos três textos da coleção são de Frederico Tizzot, Santidio Pereira e Mariana Leme. Depois, um encadernador vai realizando livro por livro a montagem dos exemplares. Para o editor e ilustrador Frederico Tizzot, a nova coleção reflete a proposta da editora, fundada em 2004: “Queremos lançar não apenas bons livros, mas livros bem-feitos. Esta coleção busca resgatar um processo de feitura do livro que se perdeu hoje em dia. Levaremos ao leitor obras de três autores importantes indo um pouco além, com um livro especial e exclusivo”.

Já em 2010, a Arte & Letra lançou uma coleção que trazia títulos de Tolstói, Stevenson, Zola, Verne e Dickens num design diferenciado. Batizada de Coleção Em Conserva os livros vinham acondicionados em latas exclusivas. Experiência material única para uma editora que tem só nove anos de mercado. Ao menos, estão fazendo valer o objetivo de quando da sua criação, publicar livros de qualidade que não encontravam espaço no mercado brasileiro. E tem dado certo. Além dos autores clássicos já citados, estão em catálogo nomes como Miguel de Cervantes, Liev Tolstói e Charles Dickens e escritores da cena contemporânea brasileira como César Aira, Carlos Machado...

Outra novidade da editora curitibana é uma revista de contos que leva também o nome de Arte e Letra - Estórias. De tiragem trimestral já desde 2008, publicou textos de J. M. Coetzee, Paul Auster, Moacyr Scliar, Ricardo Lísias e Antônio Xerxenesky, entre vários outros.

Em 2013, a Arte & Letra já programa trazer a Coleção Osório com autores de Curitiba – Luiz Felipe Leprevost, Thiago Tizzot e Irinêo B. Netto – que escrevem histórias ambientadas na capital paranaense. Na lista, uma novela policial da escritora Teresa Urban, a reedição da obra de Manoel Carlos Karam e novas edições da revista Arte e Letra – Estórias.

A seguir, um vídeo produzido pela Arte & Letra que apresenta a nova coleção e os interesses da editora com esse retorno bem-vindo de volta ao tempo dos livros-arte.


Comentários

Lou Salomé disse…
Para mim o cheirinho do papel continua a ser imbatível...Mas pelos vistos agora há tablets que imitam o som das folhas que se viram e o cheiro dos alfarrabistas... Sinistro, não?
SUCAPOETA disse…
Moro no interior do PR, como posso comprar um trio de livros? Aguardo resposta. Obrigada. Profª Sueli
Pedro Fernandes disse…
Oi, você pode entrar em contato pela Arte & Letra acessando o site http://arteeletra.com.br/

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