Boletim Letras 360º #417

 
 
DO EDITOR
 
1. Saudações! Durante a semana chegaram ao blog três novos colunistas dos selecionados na chamada pública realizada no mês de janeiro. Os textos de André Cupone Gatti, Fábio Roberto Ferreira Barreto e Marcelo Moraes Caetano aguardam a leitura se ainda o caro leitor não o fez.
 
2. Ano a ano, são disponibilizados, na página do Letras no Facebook, alguns livros para venda. O interesse do bazar é levantar os valores com os custos de pagamento do domínio do blog. 

3. A lista de 2021 já começou a ser atualizada. Veja aqui e, se possível ajude ao blog ― lembre que a divulgação sua tem um efeito importante. Caso não disponha de acesso ao Facebook, basta escrever ao nosso e-mail blogletras@yahoo.com.br.
 
4. Obrigado pela atenção. Abaixo, as notícias da apresentadas na página do Letras no Facebook durante a primeira semana de março que agora termina. Boas leituras!

João Cabral de Melo Neto. Um dos registros da fotobiografia que reúne mais de cinco centenas de imagens do e sobre o poeta. 


 
LANÇAMENTOS
 
João Cabral de Melo Neto em imagens.

A Fotobiografia de João Cabral de Melo Neto reproduz mais de 500 imagens – incluindo manuscritos e documentos inéditos – para contar a trajetória do poeta, diplomata, pai, amigo, editor e impressor, homem de vanguarda; viajante, tradutor; que viveu intensamente o seu tempo. Uma vasta pesquisa iconográfica reúne imagens e documentos sobre a vida de João Cabral de Melo Neto desde seu nascimento, em Recife, 1920, até o final da sua vida, no Rio de Janeiro, em 1999. Com organização do poeta Eucanaã Ferraz e coordenação geral da pesquisadora Valéria Lamego, o livro apresenta além de fotografias familiares, imagens de acervos brasileiros e internacionais, públicos e privados. Também faz parte do volume um vasto registro de todas as obras realizadas pelo poeta e, também, impressas por ele em Barcelona, na Espanha. Além de entrevistas e uma seleção de poemas. A pesquisa traz ainda fotografias dos treze países nos quais o poeta serviu como diplomata brasileiro, dando ênfase as suas duas passagens pela Espanha, na década de 1940 e 1960. Bem como a sua paixão pelo flamenco e pela tauromaquia. Além disso, o livro estampa obras de muitos artistas: pintores, escultores e artistas gráficos brasileiros e estrangeiros amigos do poeta (como Joan Miró; Joan Brossa; Fayga Ostrower; Franz Weissmann; Mary Vieira e Aloisio Magalhães) ou que tiveram influência sobre sua obra, como Mondrian. Para completar, o volume apresenta, ainda, poemas, cartas, entrevistas e outros documentos. No texto de abertura, o poeta Eucanaã Ferraz, organizador da obra, escreve: “Preenchemos lacunas, deparamos com o que não sabíamos, trouxemos de volta o que se dispersara, avizinhamos o que estava separado, fotografamos o que nunca o fora, criamos conjuntos imprevistos, corrigimos erros de informação que se repetiam em outros trabalhos e descobrimos centenas de registros inéditos. Guiaram-nos tanto o senso da objetividade quanto as disposições subjetivas e as inclinações do organizador, conduzido pelo desejo de fidelidade, característico das montagens que se fazem entre a crítica e o retrato, mas igualmente movido pela convicção de que um perfil biográfico composto por fragmentos que viajaram no tempo e no espaço exigiria mais que rigor: invenção, liberdade, risco.” A Fotobiografia dá continuidade às publicações da editora sobre o poeta. À exemplo de Aniki Bobó, parceria com Aloisio Magalhães (lançado em 2016) e Joan Miró (lançado no final de 2018), ensaio sobre o grande artista catalão e que traz três gravuras feitas pelo pintor exclusivamente para a obra  além de mais de 20 fotografias, ambos organizados por Valéria Lamego. 

Editora relança série estrelada por Tom Ripley com acabamentos de luxo e nova tradução.
 
1. Desde a publicação de O talentoso Ripley, em 1955, e as posteriores adaptações para o cinema, como a estrelada por Matt Damon, Jude Law e Gwyneth Paltrow, de 1999, Tom Ripley conquista fãs ao redor do mundo, sendo reconhecido como um dos maiores sociopatas da literatura. Neste primeiro volume da série de cinco livros que narra sua trajetória, ele tenta se estabelecer em Manhattan após fugir de seu lar mais do que disfuncional. Bom de lábia, exímio imitador e piadista, praticante de furtos e pequenos golpes, Tom vê sua sorte mudar ao receber uma proposta inusitada. Ele deve ir a uma aldeia na Itália e convencer Dickie Greenleaf, o filho de um rico industrial, a voltar para casa e assumir os negócios da família. O problema é que o vigarista é seduzido pelo estilo de vida refinado do playboy. A relação de amizade entre os dois se complica com a interferência de Marge, a típica boa menina americana, rica e apaixonada por Dickie. Não demora para o fascínio de Tom pela vida de Dickie assumir contornos de obsessão. Quando este percebe o perigo e tenta se afastar, já é tarde demais: Tom vê na rejeição a motivação que faltava para dar vazão aos seus desejos mais sombrios e rouba não só o dinheiro do amigo, mas também sua vida e personalidade. Com O talentoso Ripley, Patricia Highsmith faz a introdução sangrenta e repleta de adrenalina dos percalços desse jovem capaz de tudo para manter seu estilo de vida. Matar ou se reinventar em diversas personalidades não serão empecilhos. Publicada em capa dura a nova edição tem tradução de José Francisco Botelho.
 
2. No segundo volume da série de cinco livros que narra a trajetória de um dos sociopatas mais conhecidos da ficção, Tom Ripley está morando em uma confortável propriedade no Sul da França ao lado da esposa, Heloise, a jovem herdeira de uma fortuna. Além de circular pelo jet set europeu e colher os frutos do roubo da identidade de Dickie Greenleaf, Tom administra um esquema de falsificação de quadros. Tudo começa com a súbita valorização das obras do recluso pintor Phillip Derwatt, graças ao trabalho de divulgação dos amigos Jeff Constant e Ed Banbury. O que os compradores não sabem é que Derwatt está morto. Quando os quadros originais são quase todos vendidos, Tom propõe à dupla que, com a ajuda do pintor Bernard Tufts, passem a criar obras inéditas atribuídas ao falecido. O esquema parece perfeito, até que um dos compradores desconfia da falsificação e ameaça ir à polícia. Como sempre, Tom cria um plano: ele simplesmente assume a identidade de Derwatt e tenta convencer o comprador da legitimidade da peça. Um plano infalível, não fossem o descontrole emocional e a culpa de Tufts, que forçam Tom a mais uma vez adotar medidas surpreendentes e embarcar em uma trama marcada por sangue e reviravoltas. Ripley subterrâneo tem tradução de Fernanda Abreu.
 
Livro reúne os melhores contos da premiada autora Lorrie Moore.
 
Quinto livro de ficção de Lorrie Moore – aclamada pela crítica e pelo público como uma das maiores escritoras estadunidenses – e seu trabalho mais pujante, Pássaros da América reúne doze contos originalmente publicados em importantes jornais e revistas como The New York Times, Elle, The Paris Review e The New Yorker. O livro figurou durante semanas na lista de best-sellers do The New York Times. Particularmente delicadas e pungentes, as narrativas têm como fio condutor personagens consumidos pelo tédio, pela angústia, pela falta de objetivo: pela própria vulnerabilidade humana. E em vez de definir tramas elaboradas em direção a uma resolução clara, ou mesmo provisória, Moore esboça as dificuldades que seus protagonistas frustrados e sem muita ambição na vida enfrentam e não conseguem superar. Eles não chegaram aonde pretendiam, mas, apesar disso, continuam vivendo. Ainda que façam piadas o tempo todo – para afastar a dor e o desapontamento –, há algo de triste nessas figuras. Elas exemplificam a capacidade de Moore de mapear a paisagem emocional das pessoas perdidas e solitárias, que se depararam com situações-limite, que se sentem fora dos ninhos. Em cada história, Moore habilita seus personagens, permitindo que seus pensamentos e conversas brilhem com o jogo de palavras, com o sarcasmo, usados com originalidade surpreendente. Não importa quão caótica seja a vida, a mente das personagens ainda funciona com sensatez.  Os cenários das histórias são os mais diversos: Chicago, a mais populosa cidade de Illinois, conhecida por suas aparições no cinema, é reduzida ao cenário decrépito de uma atriz decadente de Hollywood; um Natal em família, com um divertido e revelador jogo de mímica, acontece em uma casa tradicional do sul do Maine; em Minnesota, um professor de Direito de cinquenta anos, desiludido com suas experiências amorosas, decide escrever o ensaio “Os jovens foram enviados à Terra para divertir os velhos. Então por que não se divertir?”, e, se sua retórica será capaz de salvar sua vida, é uma questão que Moore se recusa a responder. É com maestria que, em Pássaros da América, Lorrie Moore retrata a vida dessas pessoas e suas relações interpessoais, suas idiossincrasias, seus sonhos e, principalmente, a forma como lidam consigo mesmas. O que se segue poderia ser difícil de ler, mas a ficção ainda nos faz rir nos momentos de horror desvelado. Como Beckett, Moore aceita que nada é mais engraçado do que a infelicidade; que o cenário mais horrível. A tradução é de Cecília Brandi. O livro é publicado pela José Olympio.
 
Uma seleção de contos manuscritos deixados em uma pasta pelo escritor Naguib Mahfuz, único autor árabe agraciado com o Nobel da Literatura, são descobertos por pesquisador e traduzidos diretamente do árabe. Publicação desses contos estava prevista para 1994, ano em que o escritor sofreu um atentado por extremistas islâmicos e perdeu os movimentos da mão direita.
 
Enquanto fazia a pesquisa para escrever Os filhos do nosso bairro: a história de um romance banido (2018, sem edição brasileira), o jornalista e crítico literário egípcio Muhammad Shoair mantinha contato com a filha de Naguib Mahfuz, Umm Kulthum, e frequentava sua casa à procura dos manuscritos originais do polêmico livro. Durante a empreitada, ele conta ter encontrado uma caixa com a indicação “para publicar em 1994”, na qual havia cinquenta textos curtos. Após um levantamento, descobriram que muitos já tinham sido publicados na revista Nisf Addunya, à exceção de dezoito contos. Não se sabe se os textos pertenciam a um projeto maior de Mahfuz ou se ele já os concebia como um livro completo. Também não é possível determinar com precisão a época em que foram escritos, mas o acadêmico britânico e tradutor da obra para o inglês, Roger Allen, sugere que eles sejam do início da década de 1990. Após algumas negociações, Umm Kulthum decidiu publicar os dezoito contos em livro, por uma editora libanesa. É esta a edição lançada agora pela Carambaia, traduzida diretamente do árabe por Pedro Martins Criado, com texto de apresentação de Roger Allen, o maior especialista ocidental na obra do autor egípcio. Foi a filha de Mahfuz foi quem escolheu o título da edição, emprestado de um dos contos: “O sussurro das estrelas” – um paralelo com a primeiríssima publicação do pai, o livro de contos O sussurro da loucura, de 1938. Seguindo o estilo alegórico de Naguib Mahfuz, “O sussurro das estrelas” se passa em uma típica viela egípcia (ḥara). É inevitável enxergar nessa localidade – tão recorrente em sua obra, sobretudo na famosa Trilogia do Cairo – uma aura da infância do autor em Gamaliya, bairro de classe média baixa na capital egípcia. A descrição do lugar é propositalmente vaga, o que lhe confere um aspecto genérico e, à sua forma, universal; trata-se de um microcosmo exemplar, constituído mais por funções do que por estruturas materiais. A zawiya, o antigo forte, o abrigo e o café são locais dotados de valor social, e cada um cumpre um propósito na rotina da comunidade, bem como simboliza um valor. Da mesma maneira, há apenas duas personagens recorrentes em quase todos os contos: o xeique da viela e o imã da zawiya, ambos arquétipos das autoridades comunitária e religiosa, respectivamente. Os enredos em si não seguem uma sequência específica, e os temas variam de uma história para outra. Contos como “Perseguição”, “Infortúnio” e “A vida é um jogo” retratam relações mediadas por instituições tradicionais, como o casamento, a maternidade e a paternidade, tomando como referência os indivíduos e o contato complexo entre sua natureza íntima e as expectativas da sociedade. “Tawhida” e “O forno” enfocam as diferenças internas da família e os impactos diversos que ela surte sobre seus membros ao longo do tempo. “O Filho da Viela” e “Shairrun” abordam a intervenção social e os embates entre a atuação individual e as forças da tradição. “A tempestade” e “Nabqa no antigo forte” são permeados pela metafísica, enfatizando a dimensão do “oculto” e sua capacidade de permear o contato das pessoas com a realidade objetiva. “Seu quinhão na vida” e “A profecia de Namla” exploram a ironia e o absurdo mahfuziano, voltando-se à incapacidade do poder institucional de amparar satisfatoriamente a vida humana. Em meio à multiplicidade sutil de dimensões interpenetrantes da obra de Naguib Mahfuz, O sussurro das estrelas é um conjunto de sensações digno de um grande escritor. Os contos reunidos na obra conduzem o leitor através de lampejos contundentes de sua proposta literária, e fazem qualquer ser humano se sentir egípcio por um instante; a viela de Mahfuz é o mundo, e o mundo de Mahfuz é a viela.
 
Publica-se no Brasil pela primeira vez as traduções que Mário Cesariny fez de Rimbaud.

Nesta edição estão reunidas duas traduções que o poeta português Mário Cesariny (1923-2006) fez dos livros de Jean-Arthur Rimbaud (1854-1891), Une saison en enfer (1873-1875) e Illuminations (1873). Traduzidos para o português por Uma cerveja no inferno e Iluminações, os livros de Rimbaud são uma das origens da poesia moderna. Tanto pela liberdade estilística como pela força imaginativa, a tradução de Cesariny acompanha a inventividade e a potência dos escritos do poeta francês. É a primeira vez que as traduções que Cesariny fez de Rimbaud são publicadas no Brasil. Edição bilíngue pela editora Chão da Feira.
 
Um quarto só seu e três ensaios de Virginia Woolf sobre as grandes escritoras inglesas Jane Austen, Charlotte & Emily Brontë e George Eliot.
 
A partir de uma série de palestras apresentadas em 1928 a jovens universitárias sobre o tema “As mulheres e a ficção”, Virginia Woolf (1882-1941) desenvolve as reflexões que dariam origem a Um quarto só seu, livro publicado no ano seguinte. No ensaio, considerado um dos textos mais influentes do século XX, a escritora faz uma fina análise das condições sociais das mulheres na história e de todas as limitações impostas a elas, fatos que explicam a pouca representatividade feminina no universo intelectual ao longo dos séculos. Diante da constatação, Virginia Woolf pensa as estratégias para as mulheres driblarem o ambiente literário dominado pelo patriarcado. Uma de suas conclusões se tornou célebre: “uma mulher precisa ter dinheiro e um quarto só seu se quiser escrever ficção.” Quatro grandes romancistas inglesas citadas por seus êxitos nesse texto – Jane Austen, as irmãs Charlotte e Emily Brontë, além de George Eliot (pseudônimo de Mary Ann Evans) – foram tema de outros ensaios específicos, originalmente publicados em O leitor comum, e também reunidos nessa edição. Depois de quase um século, a obra de Virginia Woolf continua alimentando os debates feministas e de gênero com inabalável vigor. O livro tem tradução de Júlia Romeu e é publicado pela editora Bazar do Tempo.
 
Perla Suez construiu, com uma prosa seca e uma trama exata, uma ficção envolvente, de uma leitura que não dá respiro até a última página e seu final inesperado.
 
Luque está fugindo, quer escapar de sua cidade, sua casa, seu passado e suas lembranças. Mas seu passado é voraz, astuto e espreita em cada nova esquina. Deixa a Argentina rumo à Assunção, Paraguai, para casa de um primo, mas lá também estão suas lembranças. Dizem que em Cidade do Leste tem trabalho, oportunidades. Só lhe resta uma opção, seguir em frente. A vida parece melhorar. Luque consegue um trabalho e conhece Isabel, talvez o mais próximo do que poderia chamar de amor. Acredita ter encontrado seu lugar, seu rumo. Contudo nossas crenças, às vezes, são mais otimistas que a realidade. Fúria de inverno é um livro impecável. A partir do enigmático e soturno Luque, Perla Suez construiu, com uma prosa seca e uma trama exata, uma ficção envolvente, de uma leitura que não dá respiro até a última página e seu final inesperado. A tradução de Nylcéa Pedra é publicada pela Arte & Letra.
 
Romance de Cristina Judar é publicado pela editora Dublinense.
 
Ana e Joan. A primeira é diurna e contemporânea, bombardeada pelo consumismo e por pressões estéticas e comportamentais. A segunda é noturna, influenciada por noções de ancestralidade, ritos de passagem e intuições do inconsciente. Ambas estão prestes a completar dezoito anos e acompanhamos suas histórias em paralelo, mês a mês, até a data de seus aniversários. Mas não se engane: mais do que o relato da jornada de duas jovens mulheres, Elas marchavam sob o sol é um romance sobre violência, perseguição religiosa, perda de liberdade e direitos, além de ser um libelo sobre a necessidade dos ritos, dos sonhos e da ressignificação dos corpos, questionando papeis sociais através da linguagem vibrante e singular de sua autora. Segundo Carola Saavedra, “Cristina Judar construiu uma narrativa poética e pungente, numa linguagem-punhal que entra na pele, que tudo desfaz e reordena. Não há como fugir ou sair incólume. Um belíssimo romance, para se ler como quem sonha.” O livro é publicado em abril pela editora Dublinense.
 
Publica-se no Brasil nova tradução para um dos livros mais importantes para a poesia do século XIX.
 
As flores do mal, de Charles Baudelaire teve sua primeira edição publicada na França em 1857, e desde então se tornou uma das obras mais importantes e influentes da literatura mundial. Uma nova e esmerada edição bilíngue da poesia baudelairiana, traduzida em versos brancos por Margarida Patriota, é publicada pela Editora 7Letras no âmbito das homenagens pelo bicentenário de nascimento do poeta francês neste ano de 2021.
 
REEDIÇÕES
 
A Editora 34 reedita a Eneida em edição de bolso.
 
Publicada em 19 a.C., logo após a morte de Virgílio, a Eneida está para o mundo romano como a Ilíada e a Odisseia para o mundo grego — faz o inventário de seus mitos, dá a medida das paixões e dos deveres humanos, instaura uma ética para as relações sociais, inventa um passado coletivo e fundamenta concepções de mundo que iriam perdurar por mais de mil e quinhentos anos. Com a bela tradução de Carlos Alberto Nunes, e organização de João Angelo Oliva Neto, da Universidade de São Paulo, esta edição inclui uma minuciosa apresentação, inúmeras notas e um resumo das ações de cada um dos doze cantos da obra, entre outros aparatos. O resultado é um volume completo no qual o leitor pode acompanhar as múltiplas dimensões do périplo de Eneias, das ruínas de Troia à gênese da civilização romana.
 
Nova edição de um dos textos de maior sucesso na dramaturgia brasileira.
 
A chave para o grande sucesso de Eles não usam black-tie está na emoção que provoca no espectador e no leitor. Um marco na dramaturgia brasileira. Escrito em 1955, por Gianfrancesco Guarnieri, e encenado pela primeira vez pelo Teatro de Arena em 1958, Eles não usam black-tie significa até hoje, para quem lê ou assiste, a possibilidade de riso, dor, alegria, tristeza e reflexão. Considerada a revolução definitiva na dramaturgia brasileira, por introduzir personagens da classe social proletária e pobre como protagonistas, a peça alcançou grande sucesso de público e esteve em cartaz por mais de um ano em São Paulo. A história se passa em uma favela carioca nos anos 1950, e o tema central é a greve em uma empresa. Permeando as articulações grevistas por melhores condições salariais, estão inseridos conflitos e inquietações universais, reflexões sobre a frágil condição humana. Ao mesmo tempo, o enredo apresenta o embate entre pai e filho com posições ideológicas e morais opostas. As múltiplas camadas interpretativas contidas em Eles não usam black-tie possibilitam ao texto a capacidade de ser lido, relido e atualizado conforme o aparato histórico-cultural de gerações de leitores e leitoras. Na história, os jovens operários Tião e Maria decidem se casar após descobrir que terão um bebê. Então, tem início um movimento grevista, e os trabalhadores acabam se separando entre os dispostos a aderir à greve e os que apostam em saídas individuais. A tensão começa quando Tião, preocupado com o casamento e com medo de perder o emprego, fura a greve, entrando em conflito com o pai, Otávio, um operário politizado. Ao mesmo tempo que trata de inquietações humanas universais, Eles não usam black-tie traz temas importantes, como as difíceis condições de vida dos trabalhadores e o abismo social entre dominantes e dominados. A peça parte, sem dúvida, de uma visão de mundo romântica. Pressupõe uma série de valores básicos, imutáveis, através dos quais os problemas surgem, fazendo estourar conflitos em que os homens se debatem. A nova edição é publicada em abril pela Civilização Brasileira.
 
O mais importante romance de Antonio Callado ganha nova edição.
 
Publicado pela primeira vez em 1967, Quarup conta a história de Nando, um padre jovem e ingênuo que sonha reconstruir no Xingu uma civilização comunista semelhante à que existiu nas Missões jesuíticas do sul do Brasil. Para se dedicar ao projeto, Nando viaja ao Rio de Janeiro a fim de pedir a autorização necessária junto ao Serviço de Proteção ao Índio (SPI), órgão que deu origem à atual FUNAI. No Rio, toma contato com a sociedade permissiva do sexo livre e das drogas e com a corrupção política, pois os dirigentes do SPI desejam manipular o projeto de Nando em proveito próprio. Perdido entre conflitos existenciais e os prazeres da vida, o jovem padre ganha uma nova percepção do mundo, de seus semelhantes e de si mesmo. No romance, o ritual indígena do Quarup ocorre para Nando e para muitos dos personagens como uma espécie de rito de passagem, obliterando o sentido sagrado para os povos do Xingu. O romance mostra, sob a ótica de seu protagonista, o período entre o suicídio de Vargas e o Golpe Militar de 1964. Após passar por várias experiências traumáticas, Nando adere à luta armada contra o regime militar. O livro chega à 24.ª edição pela José Olympio.

DICAS DE LEITURA
 
Na segunda-feira passa-se o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Para assinalar a data, separamos, nas dicas de leitura desta semana, quatro títulos recentes de obras literárias fundamentais escritas por mulheres ― todas já apresentadas aquando da sua publicação em alguma das edições deste ano do Boletim Letras 360º.
 
1. Eisejuaz, de Sara Gallardo. Este livro integra as recentes retomadas de obras literárias escritas por mulheres que foram esquecidas ou ignoradas pela crítica quando da sua publicação. Este livro diferente e belo, como disse Manuel Mujica Lainez numa carta à escritora, deveria aparecer entre as listas dos principais romances do chamado Boom Latino-Americano, mas como tantos outros ficou de escanteio. Nele, Sara Gallardo se instala nas fissuras da linguagem para criar Eisejuaz, uma das personagens mais paradigmáticas da literatura latino-americana: um índio que escuta a voz de Deus numa lagartixa e que renuncia a tudo para seguir um chamado de consequências desastrosas para sua comunidade. Com uma narrativa que mergulha na paisagem do norte da Argentina e no mundo indígena arrasado pela exploração e subverte os lugares-comuns do regionalismo através da criação de uma língua fascinante e repleta de inovações. Eisejuaz foi publicado pela Relicário Edições com tradução de Mariana Sanchez.
 
2. Niketche. Uma história da poligamia, de Paulina Chiziane. Este livro se tornou o trabalho com qual a escritora moçambicana, primeira em seu país a publicar um romance, se fez reconhecida. Durante muito tempo esteve fora de catálogo e agora recebeu uma edição na coleção de bolso da Companhia das Letras. Nele, Chiziane ficciona a vida de Rami, mulher subserviente ao marido que um dia descobre que ele mantém um universo de amantes e filhos, acontecimento que leva a personagem a empreender uma viagem de reconhecimento uma a uma.
 
3. Uma mulher perdida, de Willa Cather. Um retrato do declínio do espírito do pioneiro estadunidense, assim sintetiza a apresentação deste romance de uma escritora que entrou para a história da literatura com a autora de uma nova Madame Bovary e elogiada por uma lista valiosa de leitores, incluindo Harold Bloom. A partir da relação entre Niel Herbert e a Sra. Marian Forrester, casada com um magnata da construção ferroviária, o romance explora o papel do casamento como instituição e o choque de gerações, já que a perspectiva desse encontro se desenvolve pelo ponto de vista do jovem. Publicado pela Ponto Edita, o livro foi traduzido por Mauricio Tamboni.

4. O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk. Um dos romances de destaque da escritora que se revelou com a poesia. Com um episódio que remete para o Brasil do século XIX, o livro revisita temas muito caros para a nossa história ainda por contar: sobretudo os do nosso tempo colonial, marcado pela exploração, violência e toda sorte de artimanhas negativas cujos ecos são sentidos profundamente no Brasil vigente. Os protagonistas desse romance dizem tanto do nosso passado como do nosso presente. Iñe-e e Juri, são duas crianças indígenas sequestradas por uma missão alemã para um mundo onde deixariam de ver a luz de seu mundo original. O livro foi publicado pela Companhia das Letras. 

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. Como anunciado na capa deste Boletim Letras 360º, a tão esperada fotobiografia de João Cabral de Melo Neto, a princípio anunciada para o ano do seu centenário, em 2020, chega agora aos leitores. O acontecimento é motivo de várias matérias na imprensa brasileira e da edição recente da revista Quatro Cinco Um ― veja parte do material aqui.

2. No Tumblr do Letras, copiamos um conjunto de registros fotográficos de João Cabral de Melo Neto a partir das divulgações nos cadernos de cultura brasileiros e que forma parte na Fotobiografia. Grande parte do material acolhe os instantes em família. Sabe-se que a vida atribulada de viandante devido à carreira diplomática fazia o poeta colocar esses momentos entre os mais valiosos.
 
2. Publicado um poema perdido de Vladimir Nabokov. O episódio é duplamente inusitado: primeiro, o escritor é inteiramente lembrado por sua prosa; depois, trata-se de um poema que imagina a dor do Superman por não poder ter um filho com Lois Lane. O texto foi encontrado por Andrei Babikov numa pasta na Biblioteca de Yale e veio a público no “TLS”, suplemento literário do Times. Data de 1942 e foi enviado ao editor de poesia da New Yorker em junho do mesmo ano. “The Man of To-morrow's Lament” foi recusado sob a justificativa de que era este um texto que não alcançaria a compreensão por parte dos leitores da revista. Vladimir Nabokov havia chegado aos Estados Unidos havia pouco tempo. E treze anos mais tarde publicaria o romance que o faria mundialmente famoso, “Lolita”. Centrado na perspectiva do Superman, o “lamento” se mostra enquanto ele justifica a Lois o uso de seus óculos de grau. Leia mais aqui.
 
BAÚ DE LETRAS
 
Não deixaríamos passar em branco o aniversário de Gabriel García Márquez celebrado neste dia 6 de março. O escritor Prêmio Nobel de Literatura em 1982 nasceu em 1927. Destacamos três publicações do blog, entre as mais visitadas pelos leitores, sobre o escritor e sua obra.
 
1. Este texto que transita pela estreita relação entre o escritor colombiano e o cinema desconstrói certa imagem de sucesso seu com a sétima arte.
 
2. Uma visita a várias circunstâncias da gênese de Cem anos de solidão, o romance que projetou García Márquez e é um dos mais importantes da literatura do século XX. A partir daqui, o leitor mergulha num conjunto de seis textos em torno dessa obra-prima.

3. Quais foram os livros preferidos de Gabriel García Márquez? Há uma possibilidade de resposta para a pergunta através de uma visita ao centro de interesses do leitor. Aqui

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Comentários

Professor Fábio disse…
Feliz por estrear como colaborador!

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