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A narração desarvorada

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Por Benedito Nunes A ficção de Clarice Lispector passou por três distintas fases de recepção. A primeira começa com a publicação de seu livro de estreia, o romance Perto do coração selvagem (1943), então apenas conhecido entre críticos e escritores. Porém numa segunda fase, a partir de 1959, o livro de contos Laços de família conquistou o público universitário e despertou interesse pelos outros romances da autora, O lustre e A cidade sitiada , lançados entre 1946 e 1949 respectivamente, e A maçã no escuro , de 1961 Creio que a morte da autora abriu uma terceira fase de recepção à sua obra, condicionada, depois da impressão desconcertante que produzira A paixão segundo G.H. , romance de 64, às peculiaridades de dois livros, A hora da estrela , que precedeu de meses o passamento de Clarice Lispector em dezembro de 1977 e Um sopro de vida , publicado postumamente. Por uma sorte de efeito retroativo, ambos permitem desvendar certas articulações da obra inteira de que fa...

Tarcísio Gurgel

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Por Pedro Fernandes A primeira vez que ouvi falar sobre Tarcísio Gurgel foi no curso de Literatura Potiguar ministrado pelo poeta e professor Leontino Filho. Na época, o escritor (que também é professor) havia acabado de lançar o que chamo de sua obra-mestra sobre uma linha para os estudos da literatura do Rio Grande do Norte. Já circulava entre nós várias tentativas, mas compreendo que esta seja a mais completa; e ainda tem uma razão boa: parece que Gurgel terá se inspirado no mesmo gesto de trabalho e escrita praticado por Antonio Candido na reconstrução de uma história do nosso sistema literário. Depois, tive o prazer de assisti-lo numa conferência na Universidade Federal do Rio Grande do Norte; conferência em que, dentre outros assuntos em Literatura Potiguar, tratava também da gênese de Informações da Literatura Potiguar , a obra em questão. De modesto título, mas de grande valia para interessados em conhecer nosso patrimônio cultural literário. De Tarc...

O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein

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Criador propôs reinvenção da linguagem, por meio da montagem, para transmitir valores revolucionários Para um conteúdo revolucionário, uma forma revolucionaria. Sob este lema o diretor russo Sergei Eisenstein entrou definitivamente para a história do cinema em razão da expressão inovadora de sua obra e também pela reflexão sobre a produção de significados na linguagem cinematográfica, feita numa extensa lista de ensaios escritos. O Encouraçado Potemkin (1925) é seu segundo trabalho. Mas desde sua estréia, com A greve, no ano anterior, o cineasta já propunha uma narrativa em total ruptura com as formas tradicionais, ainda marcadas pela linearidade dos fatos e pela teatralidade dos gestos e atuações. Não é possível, contudo, compreender a importância da proposta estética de Eisenstein sem o contexto em que ela foi criada. A Rússia havia sido sacudida por uma revolução em 1917, e o estabelecimento gradual das reformas foi acompanhada por um grande número de experime...

Literatura, poesia, educação

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Por Pedro Fernandes As avaliações tradicionais em sala de aula ainda existem e deverão existir sempre (ao que parece); ainda engatinhamos nas discussões sobre uma possibilidade de ver como e o que poderemos fazer, como professores, para contribuir com um aprendizado em que o método avaliativo mude. Não é o caso de apagamento total do chamamos de método tradicional avaliativo . Mesmo, porque a depender dos saberes, tal método é indispensável. Mas é, pensar alternativas outras. As avaliações do ensino, tal qual concebemos, falham porque entre outros motivos contribuem para o arraigamento de um ensino mecanizado, afinal de contas, o aluno pode levar o semestre ou bimestre como quer , se matar de estudar nas vésperas da prova (o que, em grande parte, significa memorizar conceitos e relações conceituais) e, mesmo assim, ser aprovado com conceito A. Não é apenas isso, mas também vão de encontro ao ensino pregado nos documentos oficiais, como os Parâmetros Curriculares Nacional (PCN's)...

A Regra do Jogo, de Jean Renoir

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“Drama alegre” traz a modernização no modo de narrar e influencia a geração que criou a nouvelle Com tal sobrenome de peso (ele era filho do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir), Jean Renoir não teria passado despercebido pela história do cinema. Além disso, como o pai, ele trouxe para os filmes um frescor de imagens e de expressão, uma abordagem encantadora da natureza e despudorada do comportamento humano. Na época, Renoir definiu seu trabalho como um “drama alegre”. A trama se concentra numa festa num castelo, onde os nobres se divertem num andar, e a criadagem se ocupa nos afazeres em torno da cozinha, no subsolo. Entre os integrantes desses grupos circula uma versão maliciosa de cupido, que promove seduções, traições e recombinações de pares. Uma cena de caça a coelhos funciona como anúncio de tragédia iminente e como prenúncio de uma crise da civilização (pouco depois explodiria a Segunda Guerra Mundial na Europa). O que torna A Regra do Jogo tão impor...

Ana Cristina Cesar ou Ana C.

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Acreditei que se amasse de novo esqueceria outros pelo menos três ou quatro rostos que amei Num delírio de arquivística organizei a memória em alfabetos como quem conta carneiros e amansa no entanto flanco aberto não esqueço e amo em ti os outros rostos Em Contagem regressiva - Inéditos e Dispersos Ana Cristina Cesar. Fotografia: Cecilia Leal. 1976 Ana Cristina Cruz Cesar nasceu no Rio de Janeiro em 2 de junho de 1952. Desde cedo, demonstrou talento e gosto pela arte de escrever. Já aos sete anos de idade, tinha os primeiros poemas publicados num jornal, o  Suplemento Literário da Tribuna da Imprensa .  Tamanha força e precocidade não deixou escapar outra formação para a jovem que se licenciou em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde conheceu nomes como Heloísa Buarque de Hollanda, uma das primeiras no meio acadêmico a reparar no talento daquela que se tornaria nome singular na poesia marginal. Depois do curso de Letras,...