Antônio Francisco

Por Pedro Fernandes

Eu com o poeta Antônio Francisco (ao centro), durante o encerramento de um minicurso na Faculdade de Letras da UERN, em Mossoró, 2008. foto de meu arquivo pessoal.



Deus é sol, sal e farinha


O sol cochilava no meio do céu,
Jogando seus raios na cara do chão.
A gaita estridente de uma cigarra
Tocava sem graça a triste canção
Daqueles que vivem nos braços da secas
Tirando da fé um pouco de pão.

Enquanto os soluços do vento da seca
Passavam tocando seu sax tenor,
De uma cabana coberta de palha
Subiam os gemidos de um armador
Debaixo dos gritos de uma mulher,
Tingidos de mágoas, medo e rancor.

“José, oh, José, onde é que tu ta?
Responda, infeliz, acabou-se o feijão!
Se o menino acorda pedindo comida?
Só resta farinha e sal no caixão.
Maldita hora, José, que te vi.
Que vida, meu Deus, que vida de cão!”

E lá no aceiro do fim do quintal,
Sentado na sombra de um marizeiro,
Um homem responde: “Maria, Maria,
Estou concertando o seu galinheiro.
Pra que tanta guerra? Pra que tanta grito?
Acredite, Maria, no Deus verdadeiro!”

E de novo a mulher atira a voz:
“José, oh, José o que foi que te deu?
Concertar galinheiro? Pra que galinheiro,
Se a última galinha a raposa comeu?...
E com tantas igrejas pidonas no mundo,
Se Deus vai lembrar de alguém como eu?”

E alheio aos gritos daquela mulher,
No mato um carão começa a cantar.
Maria escuta, e grita: José,
Carregue a espingarda e vá devagar!
Atire, José, atire pensando
Que atira na fome que quer nos matar!”

José entra em casa, carrega a espingarda,
E sai se arrastando para o tabuleiro...
Espingarda no ombro, chapéu na cabeça,
O rosto cortado pelo desespero:
Um pouco de gente, um pouco espantalho,
Um pouco de Cristo levando o madeiro.

Maria se escora no punho da rede
E olhando a criança e falando sozinha:
“Tão inocente, tão sofredora,
Tão sofredora, tão criancinha...
Gerada por nós debaixo do sol,
Nutrida com fé, com sal e farinha.”

Enquanto Maria consola a criança,
Jose se encontra de arma na mão
Poe entre os espinhos dos pés de jurema,
Com a boca da arma caçando o carão...
O carão só um pingo de sombra no mato;
José uma cruz balançando no chão.

Quando o sol se despede na linha do nada,
Que a noite se deita no colo do chão,
José chega em casa de volta da caça:
Espingarda no ombro, sem nada na mão.
Maria, chorando, pergunta: “José,
Me diga por que não mataste o carão?”

José bebe água e responde: “Maria
O pássaro cantou quando eu ia atirar.
Cantou tão bonito, senti tanta pena...
Perdoe-me, Maria, não pude matar.
Balance a criança e dê graças a Deus
Ter sal e farinha pra gente jantar.”

Maria, chorando, balança a criança
E diz soluçando num fio de voz:
“Você não matou o pássaro com pena,
Me diga, José, quem tem pena de nós?
Obrigada, meu Deus, obrigada, meu Deus.
Me diga, José, quem tem pena de nós?”


Mantive contato com este poema há uns quatro anos. Foi quando da minha primeira viagem a Mossoró – cidade do interior do estado. Na época, acertava meus trâmites para os quatro anos subsequentes, os da faculdade. Numa interminável espera na sucateada rodoviária da cidade, adquiri um jornal local. Era O Mossoroense, se não me falta a memória. 

Os versos transcritos para este espaço estavam no jornal. De imediato, achei estes versos tão belos que os copiei numa folha quando cheguei em casa. Constava abaixo do título, “Deus é sol, sal e farinha”, o nome Antônio Francisco. Em rodapé, “Antônio Francisco é poeta e menestrel de Mossoró – RN”.

Bem, passaram-se os anos. Conheci Antônio Francisco numa de suas falas no Circo da Luz por ocasião de uma das feiras do livro de Mossoró; novamente, se não me falha a memória era a primeira edição do evento realizada no meu primeiro ano na cidade. 

Revejo o poeta numa outra fala sua no desfecho de um minicurso na faculdade. Mais tarde noutra feira do livro de Mossoró. E noutra feira. E mais noutra feira. Mais tarde estive pessoalmente com o poeta, quando do lançamento do jornal literário do qual faço parte, o Trabuco

Encantado com todas essas vezes em que o vi, ou ingenuidade – ou melhor, os versos anotados ficaram perdidos entre livros – jamais associei o nome Antônio Francisco a este poema que eu lera e transcrevera daquele jornal. 

Foi apenas, semana dessas, nas minhas férias em casa, revirando uma das pastas de papéis que ainda sobrevivem a poeira e ao tempo longe de mim, reencontrei-me com as anotações e com o nome Antônio Francisco. E só então, pude, enfim, associar os versos ao nome e o nome aos versos à figura do menestrel de Mossoró. 

Antônio Francisco nasceu em 21 de outubro de 1949. Poeta de cordel, xilógrafo. Graduado em História pela mesma instituição onde curso Letras, a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, nunca exerceu a profissão. Continuou a confeccionar placas – seu primeiro ofício – e a confeccionar cordel.

Em 15 de maio de 2006, tomou posse na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, na cadeira que pertenceu ao poeta cearense Patativa do Assaré. Sua obra está publicada sob formas de folhetos e de livros, como Dez cordéis num cordel só e Veredas de sombra, os dois pulicados pela Editora Queima-Bucha, do também poeta Gustavo Luz.

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