Selvagem, de Camille Vidal-Naquet

Por Pedro Fernandes



O primeiro filme de Camille Vidal-Naquet é uma releitura sobre a liberdade. E a situação escolhida para a afirmação sobre o que chamaríamos de sua tese – isso porque o espectador não demora a visualizar uma ideia central e o desenvolvimento de múltiplas situações no seu entorno no intuito de refutar e corroborar com o que se quer defender –, compõe praticamente um ensaio sobre o indivíduo. O trabalho do diretor francês nada tem de pioneiro, mas se apresenta tão profundamente impregnado das marcas que conduziram o pensamento e a criação de seu país que não deixa de chamar atenção pela maneira como reaviva alguns dos seus lugares mais interessantes.

A principal questão é a constatação sobre a liberdade como uma utopia cujas fronteiras uma vez ultrapassadas não oferecem quaisquer oportunidades de sobrevivência ao sujeito. Isto é, o que à primeira vista parece coincidir com certo fatalismo proposital do homem (e não podemos deixar de lado tal hipótese) prefigura como uma maneira de compreender que se a liberdade é algo que nos impulsiona para a existência é também algo que pode significar nosso fim. A morte é, nesse sentido, o limite radical da liberdade. Assim, a bela cena com que Camille Vidal-Naquet finaliza seu filme, um instante de quase plena integração do homem à natureza, ou mesmo sua tentativa, atesta para esse lugar-limite do ser livre; e, claro, o espectador não deixará de perceber aqui, na natureza como acolhimento uterino para a personagem, a culminância de toda a discussão sobre a liberdade.

Selvagem é um título, então, revestido de um valor polissêmico: relaciona-se com a natureza do ser de Léo, a personagem principal e o objeto de experimentação do diretor-ensaísta; com a própria maneira como essa persona se relaciona com sua profissão – Léo é um garoto de programa que, diferente dos seus colegas de profissão, parece sentir, entre a carência e a inocência, certo sabor pela condição; e do seu modus vivendi. Destituído de família, a única possibilidade com a qual se apega, conforme se registra numa passagem das mais emblemáticas da narrativa – a de quando é atendido por uma médica do serviço social, tergiversa sobre qualquer referente e finda por abraçá-la tomado por uma onda de sincera ternura – é com um colega por quem nutre uma paixão quase incurável. Ainda assim, a história remendada é constituída mais de fantasia e casualidades, capaz de levar qualquer um que ouça a tomar como uma invenção.

Esse relato somado às várias situações em que Léo busca por Ahd podem suscitar uma noção de amor entre os dois: mais da parte do primeiro, para corroborar com certo ideal platônico. Mas, não parece que a preocupação de Camille Vidal-Naquet seja a tematizar o amor como redenção do homem. Logo, o que sua personagem vivencia é muito mais uma obsessão e uma recaída de afetos – qual o experimentado com a médica do serviço social ou o com um dos seus clientes. O amor está inscrito no mesmo rol dos impeditivos do homem à liberdade, principalmente pela maneira como culturalmente temos moldado esse sentimento: o de servir ao outro, abdicar de nossa total individualidade para ajustar-se ao outro em forma de complemento. No mundo de Léo, rareiam humanizações, por isso o mundo ideal para que o cineasta explore sua tese; e quando alguma forma se apresenta é continuamente expurgada. Aqui, não podemos deixar de citar outra condição ideal para o ensaio do diretor francês: no universo integralmente composto por homens, mesmo em situações análogas, o sentimento é qualquer coisa de inusual. Léo, propositalmente se destaca dessa ordem pela demonstração de afeto que deposita para com os clientes, admitindo o beijo e não só a mecânica do sexo. Numa ocasião de quando ainda divide esporadicamente o teto com Ahd, é este quem lhe afaga com a constatação de que, antes de tudo, ainda são humanos e essa é outra passagem tocante da narrativa que reaviva que mesmo o amor sendo limitação, não podemos existir sem afeto.

Esses arroubos de sentimento são muito raros em Selvagem. O que prevalece é uma exploração gradual e racional do corpo – este, por sua vez, tornado, no sentido mais cru, em objeto. O mergulho pelo mundo do sexo e suas múltiplas manifestações favorece Camille Vidal-Naquet explorá-lo totalmente esvaziado dos contornos langorosos fabricados pelas forças do idealismo romântico. Poderá parecer radical, mas a tarefa do diretor é mostrar como transformamos uma condição biológica em instrumento de manutenção do principia existencial e, nas circunstâncias mais objetivas, como coisa capital, em exercício de poder sobre o outro. Isso é continuamente reiterado pela narrativa e é uma das questões superáveis num projeto de plena liberdade: Léo não funciona à base de seus desejos, mas dos desejos dos outros, e mesmo nas condições de submissão às bizarrices alheias é o que não revive tal condição porque cada cliente significa uma passagem.

O estudo de personagem praticado em Selvagem se reveste de outros interesses; parece indispensável citar um filme que integra o imaginário cinematográfico francês: Querelle, adaptação de Rainer Werner Fassbinder de um texto de Jean Genet escrito em 1947. Jean-Paul Sartre viu nessa personagem uma figuração sobre nossa condição individual, segundo a qual somos condenados à liberdade. E liberdade, sublinha o filósofo, é possibilidade de escolha, e dessa ninguém pode escapar. Assim, a personagem de Genet, pela maneira como é levada pelas correntezas da existência, prefigura um mito do Homem Livre, e não é outra a pretensão de Selvagem que a de reafirmação desse mito pela ideal de universalização.

A figura que aqui chamamos por Léo só é nomeada nos créditos do filme. No mais, o que encontramos é apenas um garoto de programa que vaga pelas ruas de Salzburgo e, como notamos (e nota seu colega Ahd), parece transformar o como-vive numa forma-de-ser, uma vez que, para ele, a prostituição não se apresenta como uma fase transitória ou um meio de sobrevivência e sim uma forma de vida. O anonimato transforma-o em elemento representativo, figuração do Ser Livre, uma vez que identidade permanente.

A princípio, o espectador poderá notar certo interesse ambidestro do diretor para exposição de sua tese, ao percebermos certo impasse na constituição dessa identidade: entre uma ingenuidade quase infantil de homem que é arrastado pelos artifícios dos outros e certo controle racional das coisas, do mundo e das próprias fragilidades do corpo. Mas, não é o que prevalece porque tudo se encaminha para o que é a tese defendida em Selvagem: a única possibilidade de exercer a liberdade é ser livre e ser livre pode ser a mais radical das experiências porque impele o indivíduo à terceira margem. Daí, a movência de Léo, prefigurada no próprio corpo do ator que o encarna (criança e potência sexual), é pura percepção, óbvia até, de que não somos criaturas de uma só face. Para uma narrativa apoiada no recorrente realismo do cinema francês e no conceito de ensaio não investigar as várias direções da existência seria obrigar o objeto a dizer a tese do cineasta o que resultaria num artificialismo gratuito. E nada é gratuito neste filme que é, diga-se, uma coroada estreia.


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