Uma visita a intimidade de Oscar Wilde e Lord Alfred


“É uma maravilha pensar que o vermelho rosa de seus lábios deve ter sido feito não apenas para a música e o canto mas para a loucura do beijo”

Oscar Wilde e Alfred Douglas em 1893

A frase assim solta pode ser atribuída a qualquer um que num momento de paixão aguda pode escrever sobre a pessoa amada. No entanto, tudo muda de figura quando somos dado a conhecer quem é seu autor e para quem foi escrito: Oscar Wilde comentando sua paixão por Alfred. Uma daquelas paixões proibidas que viraram amor e arrastou definitivamente a vida dos envolvidos para outro rumo. No caso do escritor inglês terá cumprido um itinerário de dupla face – deu-lhe sustento para ser quem é hoje Oscar Wilde e lhe deu também a descida de sua vida para o calabouço. Quando a homossexualidade ainda era crime e a perseguição aos gays era mais evidente que hoje, um amor do gênero era mais que transgressor, era também uma condenação.

Wilde conheceu Lord Alfred Douglas em junho de 1891, quando o rapaz tinha 21 anos, mas já era um poeta talentoso.  “Bosie”, como Wilde o chamava, se tornaria desde então sua inspiração literária, o próprio Dorian Gray, o seu amante, o seu “gênio do mal”. Foi durante o curso de seu caso que ele escreveu Salomé e quatro grandes peças que até hoje se constituem como fundamentais na sua produção artística.

Não faz muito tempo que essa relação foi posta às claras para o público com a publicação em 2006 de Oscar Wilde: a life in letters (Oscar Wilde: uma vida em cartas, tradução livre e inédito no Brasil). O livro já foi definido como um conjunto das mais belas cartas de amor da história trocadas entre casais intelectuais, some-se aí, Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, Diego Rivera e Frida Kahlo, Virginia Woolf e Vita Sackveille-West, Henry Miller e Anaïs Nin, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, entre outros.  Prova disso, estão desde passagens simples como a que abre esse texto, como as que vamos ler adiante.

Em 1892, num dia frio de Oxford, Wilde escreve para Douglas*:
Querido Bosie... Eu deveria gostar muito de ir embora com você para algum lugar quente e colorido.”
Meses depois, em janeiro de 1893, novamente:
Meu querido menino,

Seu soneto é muito lindo, e é uma maravilha pensar que o vermelho rosa de seus lábios deve ter sido feito não apenas para a música e o canto mas para a loucura do beijo. Sua alma dourada e fina caminha entre a paixão e a poesia. Eu acho que Jacinto, a quem Apolo amava loucamente, era você em dias gregos. 
Por que você está sozinho em Londres, e quando vai para Salisbury? (...)

Sempre, com amor eterno, o seu,


Oscar
No início de março de 1893, Wilde está exasperado com um último contato com Douglas:
Mais querido de todos meninos – Sua carta foi como um delicioso vinho vermelho para mim – mas eu estou triste e sem sorte – Bosie – você não deve fazer cenas comigo – isso me mata – destrói a beleza da vida – eu não posso ver você, grego e gracioso, distorcido pela paixão; eu não posso pensar em ouvir seus lábios delicados dizendo coisas horríveis para mim – não faça isso – você quebra meu coração – eu prefiro alugá-lo diariamente, a tê-lo amargurado, injusto e horrível – horrível.

Preciso vê-lo em breve – vê é a coisa mais divina que eu quero – a coisa de graça e de gênio – mas, eu não sei como fazer – Devo ir para Salisbury? – há muitas dificuldades – meu gastos aqui é de £49 por semana! Eu também tenho uma sala de estar próximo ao rio Tâmisa – Mas você, por que você não quer está aqui, meu querido, meu lindo garoto? – Eu temo que deva está sem dinheiro, sem crédito –

Já o todo seu


Oscar
À medida que o tempo vai passando as cartas vão revelando os altos e baixos da relação, os dramas e as tempestades que sustinham a paixão de Oscar. Vão apontando ainda um amor despido e capaz de quaisquer coisas para estar próximo um do outro. Um amor sustentado na sinceridade. Após uma briga que provocara uma separação recente, outra carta vai comprovando isso, esta do final de dezembro de 1893:
Meu querido menino,

Obrigado por sua carta. Estou impressionado com as asas dos abutres credores e sem sorte, mas estou feliz em saber que somos amigos de novo, e que o nosso amor passou pela sombra e pela luz, pelo estranhamento e pela tristeza e saiu coroado de rosa como era antigamente. Sejamos sempre infinitamente querido um ao outro, como aliás, sempre fomos.

[...]

Eu penso em você todos os dias e sempre lhe tenho devoção.


Oscar
Em julho do ano seguinte, Wilde escreve:
Meu querido menino,

Espero que os cigarros e todo resto tenham chegado. Almocei com Gladys de Grey, Reggie e Aleck York aqui. Eles querem que eu vá para Paris com eles na quinta-feira: eles dizem que é possível por uma roupa agradável e ir jantar no Bois, mas, é claro, que não tenho dinheiro, como de costume e não posso ir. Além disso, quero ver você. É realmente um absurdo. Eu não posso viver sem você. Você é tão querido, tão maravilhoso. Penso em você o dia inteiro e não perco sua graça, sua beleza juvenil, o brilho de sua sagacidade, a fantasia delicada de seu gênio, tão surpreendente e sempre em voo súbito de andorinha em direção norte-sul, para o sol e a lua, e, acima de tudo, de si mesmo. A única coisa que me consola foi que a vidente de Mortimer Street (a quem os mortais chamam Mrs. Robinson) disse para mim.  Se eu não desacreditasse dela, que eu iria, mas sei que eu não posso, que no início de janeiro eu e você vamos fazer juntos uma longa viagem e sua vida linda vai está daí sempre de mãos dadas com a minha. Meu menino maravilhoso e querido, eu espero que você esteja brilhante e feliz.
Fui a Bertie hoje e escrevi em casa, fui e me sentei com minha mãe. Morte e amor parecem mesmo andar em qualquer lado que vida passa: elas são as únicas coisas que penso e suas assas me assombram.

Londres é um deserto. Escreve-me uma linha e tenho todo o meu amor – agora e sempre.

Sempre, e com devoção – mas eu não tenho mais palavras para dizer como eu te amo.


Oscar
Três correspondências de Oscar Wilde para Alfred Douglas. Visite o Tumblr do Letras para ver em tamanho ampliado.
As correspondências datam de novembro de 1892. Fonte: The Morgan Library

Coincidência ou não, a vidente acertou: Wilde e Douglas viajaram para Argel em janeiro do ano seguinte. Em 1985, no auge de seu sucesso literário, com sua obra-prima The Importance of Being Earnest, peça de aclamação contínua e por várias temporadas em Londres, Wilde recebeu do pai de Douglas, o Marquês de Queensberry, o processo por difamação. Com evidências provadas durante o julgamento, o escritor foi preso acusado de “atentado violento ao pudor” a membros do mesmo sexo. Depois, foi condenado a dois anos de “trabalho forçado” na prisão. Em abril desse ano, depois do lado emocional e psicológico estarem no fundo do poço, a reputação arruinada e a saúde cada vez mais deteriorada, Wilde escreveu mais uma vez a Douglas, um dia antes de findar a pena:
Meu querido menino,

Isso é para lhe assegurar o quão imortal e eterno é meu amor por você. Amanhã tudo chegará ao fim. Se a prisão e a desonra for meu destino, acho que amor por você é ainda mais divino e essa ideia, essa crença de que ele divino, de que você me ama em troca vai me sustentar na minha infelicidade e me fará capaz, espero, de vencer a minha dor mais pacientemente. Ou melhor, desde a esperança, ao invés da certeza de que irei conhecê-lo novamente em algum mundo é um incentivo e o objetivo da minha vida presente. Devo continuar a viver neste mundo por causa disso.
Em outra carta, escrita em 31 de agosto de 1897, meses depois da saída de Wilde da prisão, lê-se:
Café Suisse Dieppe
Terça-feira, 07:30

Meu querido menino,

Recebi seu telegrama de meia hora atrás e basta me enviar uma linha para eu lhe dizer que sinto minha única esperança de novamente fazermos um belo trabalho artístico e está com você. Não era assim antigamente, mas agora é diferente, e você pode realmente recriar em mim aquela energia e sensação de poder feliz na arte. Todo mundo está furioso comigo por voltar a falar com você, mas eles não nos entendem. Eu sinto que é só com você que eu posso fazer alguma coisa. Não refazer minha vida arruinada por mim, e então a nossa amizade e amor terá um sentido diferente para o mundo.

Eu gostaria que quando nos encontrarmos em Rouen que vejam que não separaram em tudo. Existem grandes abismos e grande distância territorial entre nós. Mas nós nos amamos. Boa noite, querido. Sempre seu,

Oscar. 
Mas, a articulação mais eloquente sobre seu relacionamento vem de uma carta que Wilde escreveu a Leonard Smithers – um advogado de Sheffield com negócios na área de impressão de literatura erótica e que se tornou o único editor interessado pelos livros de Wilde em seus anos de pós-prisão. A carta é de outubro de 1897:
Como você pode continuar falando com Lord Alfred em Nápoles? Você sabe muito bem quem ele é – estamos juntos. Ele é minha arte e me entende e ama muito. Espero que nunca mais tenha de me separar dele. Ele é um poeta muito delicado e requintado, além de – de longe, o melhor de todos os jovens poetas da Inglaterra. Você tem que publicar seu próximo livro, que está cheio de letras encantadoras, música para flauta, música para lua e sonetos em marfim e ouro. Ele é espirituoso, gracioso, agradável de se olhar, amável e é para ser respeitado. Ele também arruinou minha vida, mas eu não posso deixar de amá-lo – é a única coisa a fazer.

Mas, de todas as cartas bisbilhotadas aqui fica uma frase: “Ele é minha arte e me entende e ama muito” – prova mais que bela do imenso amor de Wilde por Bosie, uma sublime manifestação criativa sobre a união dos dois.


* Todas as traduções das cartas são livres.

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