O pálido fogo da literatura é sua própria (possibilidade de) existência

Por Álvaro Arbonés





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Fogo pálido: um poema em quatro cantos, por John Shade

Pretender resumir toda uma vida sempre é um trabalho injusto que tende a se tornar absolutamente obsoleto sobretudo se estabelecê-la enquanto escrita. Sempre que pretendemos reduzir nossa existência a sequências parecerá que ficamos muito pequenos, que aqui ou ali sempre poderíamos dizer algo a mais, ou talvez certa situação poderia ter sido explícita ou mais obscura; ao descrever nossa própria vida sempre ficará honoráveis faltas que gostaríamos de não haver cometido. Por isso, escrever uma biografia, pior ainda se uma autobiografia, é uma tentativa de viver a vida em si mesma, esta que se produz sempre em trânsito e por isso inconclusa. Que é se não uma utopia pretender escrever a vida em si mesma em sua totalidade?

O que John Shade, pouco antes de morrer, tenta é resumir sua vida em 999 versos – embora se diz que ficou um perdido, que seria repetição do primeiro – e  pretende nos mostrar tudo aquilo que o levou a ser como agora o é. A escolha é a pretensão de vida que o leva a construir um impossível, um poema autobiográfico, no qual possa expressar tudo aquilo que está além de sua própria vida, caracterizando não apenas a si próprio mas tudo que afetou sua vida; o propósito de Shade é construir um mundo onde um mínimo denominador comum, buscando esse efeito que se situa como embrião através do qual pode crescer autonomamente, com a ajuda do leitor, é mostrar a totalidade de sua vida em si mesma. O que consegue é sintetizar imagens, tropos e estranhezas alienadas que o levam a uma viagem constante a nenhuma parte cavalgando entre decassílabos que sempre parecem já não dizer muito pouco e sim muito da alma de homem que viveu, o suficiente para saber inclusive que aquilo que dói é o do que somos feitos. John Shade caracteriza a escrita como o fogo pálido que ilumina sua própria vida ao demonstrar para si mesmo, e não apenas para o leitor, o que configura sua vida em sua própria dimensão.

Eu era o pássaro abatido, sombra começa e acaba a obra. Ele não é nem sequer a vida, aquele que mostra tudo não é ele próprio, mas sua sombra. O escritor inventa ficções e faz de sua própria vida uma ficção, ser assassinado no falso azul dos vidros da janela é um acontecimento de fato porque esse azul sempre será falacioso: se é fatual, o é porque de fato ele existe muito além da realidade, se é ficcional é porque lhe reclamam sempre para os atos do real – e de dentro me duplicava eu mesmo. O escritor, John Shade, ficcionaliza sua vida da única maneira que um escritor pode fazê-lo, através do uso metafórico da palavra que faz sua vida se tornar literal ao ponto de conseguir que não pareça isso; o fracasso de todo contar uma vida é tentar narrar esta vida como algo absoluto, fechado, fora de toda interpretação: toda vida é uma interpretação, toda vida é um livro em processo de leitura. É por isso que a única biografia válida é a que se pratica através do poema – Infinito passado e infinito futuro: por cima de tua cabeça como alas gigantes se fecham, e estás morto. Quando se acaba um poema, quando está concluído de forma absoluta, o poema está morto, mas um poema nunca se acaba porque sempre há uma nova leitura por fazer-lhe.

A vida é o que acontece na própria escrita, porque quando se vive se escreve. Se escreve a biografia de uma vida nos lugares onde habitamos, nas pessoas que amamos, nos trabalhos que realizamos – o fato é que os três quartos, unidos então por ti, por ela e por mim, formam agora uma tríptico ou uma peça em três atos onde os fatos refletidos permanecem para sempre; nada escapa à escrita, flutuamos na tinta amniótica que traçamos entre os materiais de tudo quando nos rodeia para escrever nossa própria história. E assim deve ser. Não há nada que não deva ser contado, porque tudo se conta em suas mais profundas intimidades nas formas da metáfora mais pura, aquela que só é o ato em si que se interpreta como um ato de amor ou de ódio, um ato de saúde ou de doença, um ato que se supõe mas não se sabe com certeza. Só por isso temos a certeza sobre eles.

Não é só que a vida só possa ser construída num poema, é que a vida é um poema ao ser necessariamente em processo, um constante devir – o tempo significa sucessão e a sucessão, mudança. Se o único que muda de forma constante é o poema, a vida é necessariamente um poema. É por isso que escrever uma biografia como um poema não é uma genialidade, é só uma necessidade para articular um discurso autêntico a respeito da vida em si. Se John Shade seguisse os passos dos homens anteriores a ele se encontraria com algo informe que não fala de sua vida, como o fogo pálido que projetou sua sombra de falador impossível, encontraria com o nada da terribilidade – acredito que entendo a existência, ou pelo menos uma minúscula parte de minha existência, só através de minha arte. Qualquer outra tentativa de ir além do mundo em si, de sair da escrita ou da vida, é necessariamente cair na morte vazia de todo sentido que nos arrasta à destruição completa de nós mesmos, porque só podemos compreender a vida de Shade partindo do fato de que sua vida é em decassílabos. Pretender resumir toda uma vida sempre é um trabalho injusto que tende a se tornar absolutamente obsoleto sobretudo se estabelecê-la enquanto escrita.



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Fogo pálido por Vladimir Nabokov

Uma das maiores dificuldades quando abordamos uma obra literária é pretender que nela o escritor não depositou algo particular, seu. É lógico que quando uma pessoa dedica meses, até anos, na gestação completa de um projeto inocule neste, de forma mais ou menos notória, parte de seu espírito, de modo a insuflar-lhe uma autêntica vida além de sua qualidade intrínseca; toda obra é filha de seu criador, independentemente desta galgar o mundo sozinha. Mas também não há ocasião em que um romance não carregue a opinião do outro, do leitor, daquele que comenta a obra em suas margens – de forma literal ou metafórica – apropriando-se para si de tudo quanto lê nele. Acaso não é lógico que, ao ler um romance qualquer, não sintamos identificados ou, o mínimo, saquemos interpretações que sempre estarão relacionadas com nossa opinião a respeito do mundo? É, e por isso gostamos da literatura.

A peculiaridade de Fogo pálido de Nabokov não é já o fato de criar uma ficção biográfica particular forjada em forma de poema por uma personagem, coisa que por outro lado não é tão estranho; sua singularidade é como esta serve de desculpa para edificar um romance. Isto não significa que se valha do recurso comum de aproveitar um componente biográfico para edificar toda uma história como se chegou até essa situação, mas que retorce toda a premissa até converter o comentário crítico do poema na proposição própria do romance em si. Não há uma construção a partir do poema que dê pé a uma história narrativa no sentido clássico, mas que o poema é um inusitado exercício de estilo que fomenta a construção de um todo maior, o romance, que se edifica a partir de sua perturbação dos códigos escriturais. Ou podemos dizer que em Fogo pálido está contido um romance porque de fato é um romance que se disfarça de outros gêneros – a poesia, o ensaio literário – para assim poder se definir como tal de forma que vá mais além dos meros convencionalismos narrativos do que se supõe ser um romance. É um fogo pálido porque é um pálido romance, algo que só parece romance porque sabemos que é.

É isto um voo para frente? Nada mais distante da realidade, é uma fuga para trás; é uma fuga até o momento em que as convenções literárias eram inexistentes e o romance era tudo aquilo que narrava uma história embora nesta contivesse sua própria crítica, um poema ou uma narrativa ensaística: o fogo é pálido não por ser novo, mas por ser antigo. Mas para fazer isto não se sai do romance, não se situa ele mesmo como uma personagem, o que constitui a ficção a partir de seu interior como o precipitado Charles Kinbote, personagem através do qual se constrói essa simbiose constante entre uma genuína reflexão crítica a respeito do poema e os pareceres argumentativos comuns numa construção romanesca. O interesse radical que tem Fogo pálido não é algo como a revelação de algo mais, de algo diferente, mas de seu retorno ao passado: não pretende inovar, consciente de que é impossível fazê-lo, mas pretende destruir os códigos que criam as barreiras diferenciadas entre gêneros.

Agora ter a tentação de afirmar que é o romance de Charles Kinbote, que na verdade só ele assume a tarefa de editar o poema ainda quando a viúva do autor se opõe à ideia, seria cair radicalmente na farsa. O romance só é tal a partir do poema, pois tudo é um componente em si dentro deste. O papel de Kinbote é determinante, pois sem ele nunca chegaria a converter-se o que é um embrião romanesco em potencial, romance em ação, mas, de fato, é outro elemento que ativa este acontecimento; o interesse radical que mostra isto precipita os sucessos, mais ainda se Nabokov elegesse outro crítico literário mais ortodoxo: poderia haver convivido nesta evolução até um regime romanesco. A construção que faz é através de todo um conjunto determinado dentro de sua própria potência, não de uma série de elementos narrativos que acreditam o que denominamos um romance: Fogo pálido é um romance na medida em que admitimos que sua estrutura não mantém relação com o que não é um romance; é um romance porque de fato nos conta a história de algo – de um poema, da interpretação de um poema, de um rei exilado ou de um poeta e sua vida – independentemente de como o faça.

O que Nabokov faz aqui é a construção de algo que chamamos romance para entender o que exercita, mas que vai muito além da limitada (e frágil) interpretação do romance clássico, imperativo na criação literária. Seu propósito, como em toda sua obra, parece ser o de reverter esse âmbito da narratividade para deixar passar um estilo indomável que impregne cada gota de tinta que caia sobre o branco do papel, carregando tudo de uma mágica aventura onde importa mais como se diz e pensa algo do que o que se diz e pensa ao longo do tempo. Porque sendo um romance, o que realmente é um romance, está eivado de ideias e reflexões, de aventuras e sentimentos, está carregado de uma realidade tão profunda  que o mundo transpira a cada segundo sem necessidade de cartografar minuciosamente cada milímetro deste; é um fogo pálido porque não necessita ser uma grande chama luminosa para mostrar ao mundo que é fogo, e vai com sua tênue luz nos permitir clarear as figuras da sempiterna noite. 

* Este texto é uma tradução de "El pálido fuego de la literatura es su propria (posibilidad de) existencia" publicado em The Sky Was Pink


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