A montanha, de José Luís Peixoto

Por Pedro Fernandes


José Luís Peixoto. Foto: Pedro Nunes



A montanha é o romance em que José Luís Peixoto regressa a um modelo narrativo explorado a partir de Livro, muito embora os sinais de sua prática possam ser registrados em obras anteriores, como em Cemitério de pianos. Por isso mesmo, quem pelo menos leu os livros até agora referidos, ou ainda Autobiografia, outro título da mesma linhagem, não deixará de se perceber tomado por um certo déjà vu ou apostar e mesmo acreditar em algum momento que o escritor se beneficia de uma chave antiga para acessar o objeto de sempre disfarçando-o como novidade. É necessário, para contornar essas reações, dar a volta ao curso das várias peças até a última entrada desse livro-arquivo para se descobrir simultaneamente diante de uma obra que, sim, acrescenta qualquer coisa a um modelo já conhecido, sem cair, por uma astúcia adquirida da experiência com a escrita, na repetição pura e simples. Embora não seja possível, como é comum a um texto dessa natureza, demonstrar como isso acontece, uma vez que revelaríamos meandros indispensáveis da narrativa importantes como descoberta de cada leitor, procuraremos colocar a questão no eixo de compreensão, explicando três direções até agora reveladas: ser A montanha um livro devedor de uma prática literária estabelecida na literatura de José Luís Peixoto; a noção de livro-arquivo; e de que maneira, a obra acrescenta no projeto literário desse escritor.

O romance de 2025 nasceu de uma proposta levantada inicialmente por médicos do Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO-Porto): um grupo de escritores adotaria as histórias de um grupo de pacientes em tratamento do câncer e depois esses escritos formariam uma edição beneficente, isto é, os recursos levantados com as vendas dos livros seriam revertidos para a instituição. A mudança de curso que dividiu a todos entre antes e depois da Covid-19, afetou os planos e apenas mais tarde, ainda inclinado para o projeto, José Luís Peixoto decide restaurar e levar adiante a ideia. Essa inclinação pode ser percebida pelo seu leitor, mesmo desconhecendo esse preâmbulo, porque por entre as linhas do romance, refulge a inacabada figura do pai, o ponto principal da obra desse escritor revelado ainda no seu primeiro romance, Morreste-me, e reiterado direta ou indiretamente nos livros posteriores. Numa das passagens de A montanha especula-se mesmo que a figura paterna constitua uma espécie de ciclo romanesco para a literatura de José Luís Peixoto, iniciado com o livro de 2000. 

Mas, não é esse traço temático que favorece o déjà-vu-A-montanha. E sim o uso do recurso metalinguístico de corte eminentemente calviniano, isto é, a expressão de um narrador que se confunde entre as instâncias discursivas, a sua própria e a do escritor, para desenvolver uma narrativa que se observa, em alguns pontos, redundantemente, como quando reflete a manifestação do traço escritural na página em branco. A certa altura, essa entidade autodenominada Escritor, em um de seus deslocamentos reflexivos, admite como esse recurso é entretenimento vazio, porque sabe que o seu leitor anseia pela história contada e não mais uma vez contemplar as engrenagens da história por fazer ou os rodeios de quem se dispôs contá-la. Esse ceticismo que em algum momento se converterá na dúvida se o leitor desenvolverá algum interesse pelo romance-em-processo encontra valia: em ocasiões é explícito como o Escritor encontra-se perdido numa encruzilhada feita do conteúdo do livro, seu papel de contador de histórias semiobsoleto numa era que converteu que banalizou o uso da narrativa e explora isso ao limite com as múltiplas realidades ficcionadas entre nós projetada ou convertida como nossa, e o compromisso assumido fora do livro de contar a história de um conjunto de personagens sobre o qual possui apenas anotações e gravações levantadas pelo convívio quase documental no IPO-Porto. 

Alice, Daniel, Fátima, Filipe, João e Jorge são as suas personagens. Se a máxima de Mallarmé revelada em 1897 ainda fizer sentido — e talvez esteja nas referências do autor de A montanha —, cada uma dessas pessoas daria um livro, afinal, ainda que unidas pela mesma condição, cada qual constitui um universo próprio e reluz à sua maneira. Outro grau de complexidade emerge do lugar ocupado por José Luís Peixoto, que se encontra situado ante dois altares, o do real e o do ficcional, servindo a este mas sem se descurar daquele. Essas e outras derivas integram a autoconsciência do escritor desde o limite maior, a incapacidade de acessar o total da realidade, porque individual e múltipla, e tudo isso é transformado em matéria para o Escritor de A montanha



Até aqui, o leitor terá observado que o recurso-Peixoto não é apenas referido pelo corte literário, o dentro e o fora da ficção, ou documental, o dentro e o fora do factual — é psicanalítico. A alternância que aqui dispomos entre escritor e Escritor, é uma extensão das diferenças entre eu/ ego e Eu concebidas pela psicanálise. O escritor é a parte consciente, a identidade percebida, e o Escritor a instância de identificação, o que deveria ser, a imagem narcísica do escritor. No interior do romance, esse desdobramento de corte psicanalítico se multiplica. Vejamos o caso da relação entre o Escritor e Björn Alepson. Ora, isso é importante para esclarecer que o narrado se encontra sempre no campo do possível mesmo que nele se relate o acontecido tal como documentado e registrado pelo escritor. Das seis personagens encontradas no IPO-Porto, o escritor e o próprio romance admitem o uso da máscara com o nome inventado apenas para o caso-Filipe, mas as demais são tão ficcionais quanto, simplesmente porque deixaram de ser propriamente as identidades percebidas para serem as figuras que integram o jogo ficcional. Este jogo e parte dos seus recursos são, reiteramos, o alimento para o sentido de repetição provocado por A montanha porque trata-se de uma prática pasteurizada por José Luís Peixoto, tal como é o uso da expressão reiterativa que a uns pode cansar o andamento da leitura mas se afirma como um recurso estilístico de costas para a objetividade com a qual o conhecemos em Morreste-me.

Então, qual a novidade? Assumir o aleatório, a alternância, a dispersão e o fragmento como recursos composicionais. A vida dessas seis pessoas é segmentada em variadas frentes: a descoberta do câncer, o antes e o depois da doença, a rotina hospitalar, os afetos e desafetos familiares, as aspirações e/ ou convívio com o escritor durante os encontros e as gravações no IPO-Porto são algumas delas. Não é oferecida uma cronologia, uma uniformidade, nem os muitos sentidos diante a mesma circunstância, por exemplo. Essas presenças são esboços, como se parte de um conjunto de anotações coligidas, reapropriadas, de prontuários/ diários de um psicólogo ou psicanalista. As anotações se alternam com outros papéis: as reflexões do Escritor acerca dessas vidas, a relação que estabelece dialeticamente com os episódios da doença e da morte do pai algures no passado no mesmo IPO-Porto, as anotações de um dia-a-dia continuamente invadido pela vida virtual, os volteios com a vida de escritor e com a tarefa da escrita de A montanha, os cortes ensaísticos sobre a literatura do seu tempo corroborados pelos excertos da tese Fragmentação na Literatura Europeia Contemporânea, do tal Björn Alepson, ou de matéria do câncer. 

A essa variedade de textos, não é possível deixar de acrescentar outros três elementos: as fotografias familiares de José Luís Peixoto; o que seria um sumário do romance, mas não é apenas isso, porque situado no corpo do conteúdo ficcional e não como paratexto e feito ainda de sínteses de cada uma das seções que nele readmitem a função reflexiva que domina o restante do livro; e o que seria o conteúdo de uma palestra a ser ministrada na Suécia a convite de Alepson. Está claro, portanto, o que antes denominamos livro-arquivo. O livro é uma pasta e abriga os papéis e registros variados que poderiam resultar em um romance — pelo menos no tipo de romance legado pelo século XIX. A montanha é, nesse sentido, um livro-porvir. Até agora, pelo que conhecemos, os chamados recursos pós-modernos adotados por José Luís Peixoto visavam a unidade ordenada da narração.

E, talvez ainda afetado pelas dificuldades impostas a partir dos recursos adotados na feitura de A montanha, todos tendem sempre à dispersão e lançam o escritor para o livro infinito, é que se utiliza do testo — uma passagem cuja função é justificar o inusual, a linha com a qual o leitor possa alinhavar ou suturar os fragmentos em prol da unidade perquirida, o elemento capaz de acomodar mesmo provisoriamente o dispersivo. Intitulado “Conclusão/ palestra”, este texto é explicado no suposto “Índice” como “A minha gratidão pelo teu apoio é maior do que alguma vez poderei exprimir”. A passagem que logo descobrimos falsear a ideia do gênero textual palestra se inicia com a seguinte constatação: “Não se pode explicar tudo.” Essa sentença que a princípio poderia ser a ideia de um ensaio ou a palestra sobre a nossa dificuldade na relação com o dispersivo e o nosso interesse pelo ordenamento a partir da expressão do câncer como curiosa metáfora da vida — a reiteração de um tópico que se apresenta no interior de A montanha e é sintetizado por um excerto da tese de Björn Alepson — é contraditória ao seu conteúdo; trata-se, sim, de uma explicação possível para o livro que acabamos de ler/ comentar. Não entramos em detalhe no conteúdo desta passagem, mas José Luís Peixoto repete aqui, em parte, o que o leitor brasileiro encontra em livros como Nove noites e Teatro, de Bernardo Carvalho. É verdade, que no caso em comparação, o objetivo do escritor é pela permanência da dispersão e em A montanha é, repetimos, a explicação. Não que seja uma passagem desnecessária, mas é uma circunstância que, no instante em que nos conforma, desmantela o que parecia ser, contraditoriamente, a unidade do livro: sua dispersão. 

Talvez valha admitir aqui a referida passagem da tese de Alepson. Ela aparece naquela linha dos volteios do Escritor com a memória e os desdobramentos em torno do fazer literário, depois de reencontrar um antigo livro do pai, que na infância havia embaralhado suas páginas e já, agora, por ímpeto, depois de restabelecer a ordem correta, imerge na ideia de que a desordem tal como fora praticada nunca mais será recuperada em sua originalidade. Diz o excerto: “‘No processo de efabulação, existe sempre uma desconstrução: elementos que são reconhecidos como fragmentos. O exemplar danificado de um livro, com capítulos e páginas fora de ordem, continua a incluir a totalidade da obra, apenas a apresenta de forma diferente. A sequência contínua de números não é a ‘única ordem válida. O mesmo se aplica às narrativas não-lineares e fragmentadas, tanto do estrito ponto de vista do enredo como das múltiplas dimensões presentes no texto, quer sejam literárias ou paraliterárias. A própria vida é assim.’ (Alepson, p.112)”

Admitindo que Björn Alepson se confunde com o especialista no texto literário e é ao mesmo tempo o editor e o Eu do Escritor, ambos dedicados a cobrarem do escritor a feitura do livro, é coerente concluir que essas afirmações de especialista inventadas para compor a personagem de A montanha são, no jogo proposto por José Luís Peixoto, dele próprio. A compreensão do fragmento como parte da composição de uma ordem dispersa e ainda assim ordem válida, uma vez associada com o tipo de ficção em prática, ao tema do câncer, por conseguinte, significação do que é a realidade e a vida, dizem melhor do romance do que procurar imprimir que o livro é o produto de uma elucubração psíquica; a ideia, repetimos, não é má, mas aterra o princípio da indecibilidade entre o ficcional e o acontecido; o escritor atua como se precisasse tomar a decisão entre um extremo e outro e a decisão fosse pela ficção. 

Como a contradição, embora não referida aqui, é outra qualidade circunscrita ao campo do aleatório, da alternância, da dispersão e do fragmento, ela finda por servir no funcionamento do livro. É este testo, aliás, que deveria constituir o ponto essencial na leitura de A montanha, mas o interesse do leitor, sempre tendencioso para o literal, talvez se fixe apenas no estamento da vida afetada pelo câncer e nos seus desdobramentos, como a correlação entre esse conteúdo e o da biografia do escritor que perdeu o pai ainda na infância para essa doença, o que é, sabemos reduzir a complexidade desse romance tão próximo dos demais romances de José Luís Peixoto mas tão diferente. O que quisemos foi oferecer um caminho menos óbvio, apontando para o que, de fato, é este livro: uma obra produto da invenção criativa de um escritor situado no abismo em que se encontra o fenômeno literário no nosso tempo. 



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