Reino de Deus, de Frances Lee

Por Pedro Fernandes



Este filme é sobre a pedagogia dos afetos. A chegada de um trabalhador romeno para ajudar nos afazeres da fazenda da família de Johnny, um rapaz que decidiu substituir a promissora vida urbana pela continuidade na vida rural e vive agora entre a frustração da escolha e a impossibilidade de encontrar uma saída para esta situação, modifica todo um ambiente fundado na rudeza.

Gheorghe, o forasteiro, oferecerá, sobretudo a Johnny, que a depender de qualquer saída para as escolhas erradas, o que nos mantém vivos são as pulsões dos afetos e a honestidade para conosco e com os outros. Ser rude consigo, com os outros e com a vida é erguer ante si mais muros pelos quais a existência, que já é um fardo, se constituirá mais pesada e pobre de ideias. E tudo só se complica se, associado à rudeza, pairar o espírito da desonestidade.

É que Johnny não consegue aceitar, muito provavelmente por uma sorte diversa de intervenções impostas e autoimpostas pelo ambiente onde vive: órfão de mãe; o pai, Martin, está marcado pelas sequelas de um AVC e a perspectiva é de que sua condição só piore a partir de então; e a avó, de alguma maneira, se situa entre a que zela pelo filho, pela ordem da casa e, em parte, pelas atividades da fazenda. A todo tempo a presença repressiva do pai, o silêncio da avó, juntam-se ao drama interior do jovem e tudo só favorece à rusticidade destruidora de corte eminentemente machista.

O que Johnny não consegue aceitar é sua sexualidade. Eis o elemento que contribui para sua condição de desonesto, porque suporta isso apenas como uma impulsão selvagem do corpo que descarrega toda vez que se manifesta noutros corpos e o faz incompetente para estabelecer-se fiel à escolha que fez. Em parte, ele próprio sabe que a ideia de continuar com a fazenda em Yorkshire se sustenta pelo medo de noutro ambiente deixar-se dominar pelo que apenas compreende como indução corporal; o ambiente rural favorece-lhe o isolamento e o puxado trabalho de manutenção mínima da ordem a negação do corpo por uma espécie de suplício. Por outro lado, o jovem é consciente de que a impossibilidade de não cumprir com as responsabilidades impostas por sua escolha o frustra profundamente.

Johnny vive num mar revoltoso de sentimentos. O movimento das vagas, por sua vez, apenas contribui para a condição de revoltado que não sabe ao certo os motivos desencadeadores da sua revolta. Será necessário um longo exercício de reaprendizagem do mundo capaz de esclarecer a essa personagem sobre sua condição e sua angústia para só então se oferecer uma saída confiável das tormentas que o perseguem. E esse exercício não se realizará por uma teorética. Porque a espessura das relações está designada pelo imperativo das ações, é por elas e nelas que residem uma possibilidade de subversão da ordem dominante; não por e nas palavras.

Gheorghe é a figura potencial no processo de reeducação para o mundo. Sensível ao que lhe rodeia, sua experiência de homem que atravessou o mesmo drama de Johnny antes de emigrar para a Inglaterra, o faz mestre ideal nessa travessia. Então, não será necessário repetir sobre as transformações desencadeadas por esta presença na vida do jovem de Yorkshire. Tão logo compreende o ambiente hostil entre os da família de Johnny, ele faz do seu trabalho, desempenhado com segurança e da melhor maneira possível dentro das limitações que lhe são oferecidas, uma via de acesso ao outro lado da fronteira, aquela cujo ódio é substituído pelo amor, a farsa pela honestidade, os dissabores pela doçura, a rudeza pela delicadeza, os desafetos pelos afetos, o isolamento pela alteridade, os discursos imperativos pelo discurso do reconhecimento.

Não é que Johnny seja a figura principal pelo desmoronamento das relações pessoais e consequentemente dos negócios da fazenda. Mas ele se torna fundamental para a instauração de um novo ciclo fundado noutros princípios diferentes dos da geração do seu pai e da sua avó. Isto é, o fracasso está condicionado, aqui, à manutenção das mesmas engrenagens impraticáveis num contexto que não permitem mais que elas se mantenham.

Frances Lee retoma o princípio freudiano de que o mundo é regido pelas pulsões sexuais – vividas ou reprimidas – e faz do corpo o princípio de todas as transformações porque passarão estas personagens, suas condições e o espaço onde vivem. A primeira lição de Gheorghe é a de favorecer ao seu aluno a aceitabilidade plena da sexualidade; desfeito esse nó, ou melhor, enquanto o desfaz, ele trabalha com uma reaprendizagem dos sentidos capaz de compreender o corpo enquanto estrutura desejante e sensível às sensibilidades de outro corpo.

A transformação silenciosa integralmente moldada pelas ações contribuirá para o aparecimento de outro Johnny, o que sorri, o que admite suas limitações, o capaz de compreender o esforço contínuo da avó pela manutenção da ordem das coisas, o de se apiedar da condição semivegetativa do pai.

Isto é, Gheorghe inaugura entre os do sítio de Yorkshire o potentado da alteridade. À medida que uns e outros enxergam-se mutuamente logo podem estabelecer zonas de convivência mais confiáveis, confortáveis e criativas para suportar a dor da existência e os problemas que se interpõem na dura tarefa do dia-a-dia na fazenda.

Este não é, como sugere o título, um reino de Deus; é um reino dos homens. Dos que aprendem que só pela verdade do reconhecimento sobre o outro é possível conhecer a si e da comunhão desses princípios se pode fazer outro mundo totalmente despido das amarras unilaterais. Sim, talvez resida aí o que tanto se teoriza acerca do amor divino. Só pela reeducação dos sentidos, quando capazes de fazer acontecer o princípio que nos distingue dos animais irracionais, isto é, a humanização, é que poderemos pensar na possibilidade de uma existência mais leve e justa. Enquanto isso, coletivamente, somos todos Johnnys; precisamos de mais de Gheorghes.  

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