Umas palavras sobre uma breve fase de um grande poeta: Ferreira Gullar e o CPC (Centro Popular de Cultura)

Por Fábio Roberto Ferreira Barreto

Em março de 1962, vinha a lume o Anteprojeto de Manifesto do Centro Popular de Cultura; embora suas atividades cronologicamente tenham se iniciado em 1961. Para rememorar o CPC, bem como para comemorar minha estreia como colunista no Letras in.verso e re.verso, escrevo sobre o poeta Ferreira Gullar e sua fase cepecista.

Roberto Freire e Ferreira Gullar durante o lançamento de Cultura popular em questão no CPC da UNE, 1963.


 
Apesar de não se enquadrar, Ferreira Gullar em um quadro: fase cepecista
 
Ferreira Gullar não é poeta que se enquadre.

O estudioso João Luiz Lafetá, em “Traduzir-se – ensaio sobre a poesia de Ferreira Gullar”, afirma: “dentro do clima esteticista da Geração de 45, passou pela ruptura do Concretismo e do Neoconcretismo, pelo discurso populista do CPC [Centro Popular de Cultura] e pelo demorado, ainda inconcluso, processo atual de travessia de uma situação difícil para a criação poética”.

Alfredo Bosi, vinculando sua trajetória literária aos acontecimentos do país, diz que é possível notar que “o pós-modernismo de 45 raiado de veios existenciais, a poesia concreta, a existência popular-nacionalista do CPC, o texto de ira e protesto ante o conluio de imperialismo e ditadura, a renovada sondagem na memória pessoal e coletiva… são todos momentos de uma dialética da cultura brasileira de que Ferreira Gullar tem participado como ator de primeira grandeza”.

Ainda que salte aos olhos diferentes composições poéticas de distintos períodos, é recorrente me pôr a pensar em Ferreira Gullar no tumultuado e efervescente início dos anos de 1960. Questões atinentes ao nacional-popular instigam o poeta ao envolvimento com outros intelectuais pela transformação cultural do Brasil por meio da militância nos CPCs e, por conseguinte, à adoção de um estilo de produção poética peculiar em sua trajetória artística. Isso me interessa muito como leitor e como pesquisador; talvez, sendo franco, um cadinho mais pela primeira condição.

O engajamento de Gullar, em sua fase cepecista, pode ser compreendido, por exemplo,  a partir do poema “Quatro mortos por minuto (à razão de mil dólares)”.

Morrem quatro por minuto
Nesta América Latina.
Não conto os que morrem velhos
só os que a fome extermina
 
Se se pretende socialmente revolucionária, essa composição poética de Gullar esteticamente não o é. Coerentemente com os objetivos do CPC, de que o poeta era militante bastante ativo, recorre o sujeito poético de “Quatro mortos” a quartetos na organização de estrofes, uma das formas mais populares de composição do gênero em língua portuguesa – muito frequente em textos populares, lembremos, como o cordel –  e, também no poema, vale-se da redondilha maior, garantindo rima externas entre o segundo e o quarto versos em quase todas as estrofes.

O emprego de anáfora é um recurso bastante presente nesta produção estética de Gullar. Como em toda poesia que almeja fixar-se em corações e mentes, recorre o poeta do Maranhão à repetição para alcançar seus objetivos mnemônicos, quais, em última instância, visam a inculcar em seus leitores a espantosa e inaceitável ideia de “quatro morrem por minuto” na América Latina, corroborando as teses sobre o didatismo de obras da época. Embora não disponha de dados recentes, mesmo desconsiderando a pandemia da COVID-19, a situação não parece tão mais promissora na atualidade desta parte do continente americano; decerto, nos dias de hoje, dentre aqueles que não morrem de causas naturais, tombam mais mulheres, negros, indígenas e pobres entre os latinos.

Em consonância com o Manifesto do CPC/UNE, esse poema ilustra que “querendo ou não, sabendo ou não, o artista se encontra sempre diante de uma opção radical: ou atuar decidida e conscientemente, interferindo na conformação e no destino do processo social ou transformar-se na matéria passiva e amorfa sobre a qual se apoia este mesmo processo para avançar”.

Nesse sentido, Ferreira Gullar opta por pertencer ao grupo dos que têm “atitude revolucionária consequente”, em alternância dentro de sua trajetória poética do individual para o coletivo. É justamente por essa especificidade, que se constroem as críticas de Lafetá: “(fase) na qual o peso da propaganda política mata arte”. Recorde-se que a crítica literária, em geral corrobora com a mesma tese advogada por Lafetá. Aliás, vale ressaltar que o mesmo tipo de ponderação se faz sobre toda a produção literária atrelada ao CPC.
 
Quatro mortos por minuto (à razão de mil dólares)
 
Dividido em treze estrofes, “Quatro mortos por minuto (à razão de mil dólares)” é produzido em tom coloquial, que oscila da situação comunicativa informal ao discurso panfletário. As cinco primeiras estrofes se dedicam a explicar que as mortes de que trata o sujeito poético não decorrem da fome: “não conto os que morrem velhos/ mas só os que a fome extermina”; mesmo porque, como a voz poética ressalta, “esses são poucos/ aqui mal passam dos trinta”.

O eu poético enfatiza que não se refere “aos mortos de faca” nem tampouco “os mortos pela polícia”. Ao mesmo tempo em que prenuncia tais constatações – de forma um tanto alongada, ocupando-se em quase metade dos versos dessa tarefa – insere várias outras denúncias de problemas sociais a que são submetidos os brasileiros à época (“à época”, esboço um triste sorriso enquanto escrevo, pois as problemáticas do passado persistem em nosso presente). Trata, inclusive, dos homicídios decorrentes de um país atrasado em diversos aspectos, culminando em violência rural e urbana, bem como das mortes causadas pela repressão policial, em alusão explícita de que as instituições que deveriam constituir-se como instrumentos de segurança pública à população, na verdade, funcionam como mecanismos de proteção da elite contra o povo.

Morrem de fome e miséria
Quatro homens por minuto,
Embora enriqueçam outros
Que deles não sabem muito
 
O eu poético do texto, em estrofes que visam a conscientizar a população sobre a exploração imperialista, estabelece jogos de oposição entre as perdas de vidas latino-americanas em detrimento dos lucros imperialistas:  a) (no título) “quatro mortos” versus “mil dólares”; b) (primeira estrofe) “morrem de fome e miséria” (e uma lista enorme que a antecede) versus “embora enriqueçam outros” (“que deles não sabem muito”); c)”que nunca lhe viram o rosto” versus “mas que lhe roubam a moeda”; d)“mil dólares por minuto” versus “eis o quanto nos rouba o ianque”; enfim, e) “enquanto quatro homens morrem” (“por minuto, por minuto”) versus “mil dólares voam  daqui” (“para a gaveta dos trustes”) e f) “quatro dos nossos morreram” versus “e o ianque encheu mais seu cofre”.

No tempo que dispendeste¹
Para ler estas estrofes
Quatro dos nossos morreram
E o ianque encheu mais seu cofre
 
Na penúltima estrofe do poema, lançando mão da função apelativa da linguagem, incitando uma reação do interlocutor, o eu poético provoca: “no tempo que dispendeste/ para ler estas estrofes/ quatro de nossos morreram”. Emendando essa discussão, em processo de gradação discursiva, a voz poética afirma (escuto-a toda vez que leio): “tempo é dinheiro – eles dizem./ Tempo – nós dizemos/ Fidel mostrou-nos a rota!/  Pátria ou morte! Venceremos”.

Note que a utilização do plural não é gratuita no desfecho do poema. Estrategicamente, a voz poética engloba o leitor, tal qual em discurso de panfletagem política; antes que esse mesmo leitor necessariamente venha a aderir à causa, o verbo no imperativo, na primeira pessoa do plural, apelativamente o insere no “front”, por meio da expressão de guerra ou de ordem: “venceremos”... (Comungo da ideia, mas a luta, Gullar, tem sido árdua e as batalhas cada vez menos exitosas de nosso lado...)
 
Entre a crítica e um palpite meu...
 
Lafetá, tratando da fase que se inicia nos anos de 1960 e se estende aos de 1970, lembra que Ferreira Gullar, não apenas como poeta, mas como ideólogo, “cobra dos artistas, a cada instante, a consciência do subdesenvolvimento, do imperialismo”.

Heloísa Buarque de Hollanda corrobora com Lafetá sobre o poeta Ferreira Gullar ter vivenciado uma fase menos poética em seu período cepecista. Para a crítica do Rio de Janeiro, “ao reivindicar para o intelectual um lugar ao lado do povo, não apenas se faz paternalista, mas termina de forma adequada à política da época, por escamotear as diferenças de classe”. 

Parece que Ferreira Gullar tenha  elaborado – nesse período –  uma composição poética que, a despeito de se distinguir de outros estilos que se encontram em sua obra em versos, é convincente no engajamento pelo menos favorecidos. A suposta ingenuidade no verso final, de que “venceríamos a batalha”, na análise de Lafetá sobre os discursos em poemas da época, poderia ser substituído, em meu entendimento, pelo sonho de mudar o “status quo” da sociedade, em um contexto combativo em qual não caberiam interesses subjetivos dos donos do poder, mas tão somente imperativos de uma gente que não suporta mais viver sem seus direitos.

Em outras palavras, julgo que parece muito adequada a inserção de Gullar no momento histórico aludido neste texto, apesar de todas as considerações que podem ser engendradas acerca de sua pertinência mais ou menos abrangente de sua escrita poética. Quiçá, provavelmente, pode ter pecado Gullar por falar sobre o povo sem, contudo, de fato escutá-lo; todavia, o poeta do Maranhão tentou fazê-lo de modo honesto, tentando ladear esse mesmo povo, não o cooptando nem capturando sua essência para vender como produto na cultura de massa tampouco se promovendo às suas custas.

Destarte, valeu pela intenção e por, mesmo não tendo o êxito que aspirava ter Gullar – atingir, efetivamente, as pessoas comuns –, servir ao propósito de fomentar as discussões à época a respeito de inserir a população excluída na transformação do país pelo viés cultura. Ainda que se possa apontar equívoco na ação, não se pode ignorar a tomada de decisão do poeta do Maranhão pelo oprimido; afinal, não se pode deixar de notar a relevância de um poeta como Gullar, tão reconhecido em todo o território nacional por sua obra, publicando e inspirando, em meios e pessoas, do povo.

Talvez sob essa perspectiva seja possível rediscutir a crítica literária existente acerca da fase cepecista de Gullar; afinal sigo os passos do poeta outrora e deixo agora a “cultura posta em questão”... Ou, quem sabe – contrariando-me futuramente sobre o que penso neste momento, porque faz parte do processo sustentar ou rever opiniões,  não é mesmo? – tão somente venha a corroborar com as teses já escritas pela crítica sobre Ferreira Gullar e o CPC...

Julgo, entretanto, que seja demanda para debater em outra ocasião... Quem sabe o faça após reler  o clássico “João Boa-Morte, cabra marcado para morrer” – outro poema publicado no Volume 1 de Violões de rua publicado pelo CPC –, no qual o poeta do Maranhão homenageia Pedro Teixeira (João Pedro Teixeira), líder das Ligas Camponesas, assassinado em Sapé-PB.

Ferreira Gullar permanece vivo não apenas porque tinha o labor artístico das palavras, mas porque os problemas sociais que o afligiam, manifestando-se em antológicos textos de sua autoria, infelizmente, não foram, ainda, sepultados no Brasil.
 
Notas:
¹ A conjugação é “despendeste”, mas para esta publicação mantivemos a forma como o poeta registrou.

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