Boletim Letras 360º #391

DO EDITOR
 
1. Virou (ou começou, depende da perspectiva de cada um) mais uma dezena de edições deste boletim. Desde 2012, a página do blog no Facebook passou a veicular informações variadas em torno do nosso universo de interesse. Mas, meses depois, a baixa visibilidade de conteúdo pela segmentação nesta rede social favoreceu a criação de um espaço aqui capaz de guardar o registro e oportunizar um (re) encontro com o material divulgado.
 
2. Eis, pois, a edição 391. Com algumas seções que foram integradas muito depois da existência do boletim: as dicas de leitura, destaque de outros materiais nas redes do Letras ou em espaços vizinhos e a recordação de algumas publicações do blog.
 
3. Em nome do Letras, agradeço sempre a companhia do fiel leitor e deixo o pedido de trazer aqui os seus mais achegados que admiram os livros e a literatura. Fique bem. Boas leituras!

Clarice Lispector e Alzira Vargas, filha de Getúlio. Washington, por volta de 1955.



LANÇAMENTOS
 
Um livro inédito, que apresenta pela primeira vez o conjunto de ensaios do crítico literário, filólogo, professor e tradutor Paulo Rónai sobre Guimarães Rosa, escritos ao longo de mais de três décadas.
 
“Você sabe que também sou escritor?”, perguntou Guimarães Rosa ao entregar um exemplar de Sagarana a Paulo Rónai, pedindo uma opinião. Os dois haviam se conhecido naquele mesmo ano de 1946, quando Paulo Rónai, chegado ao Brasil cerca de cinco anos antes, buscava incansavelmente trazer de Budapeste os membros da família que haviam sobrevivido ao tenebroso período da Segunda Guerra Mundial. O encontro entre um refugiado húngaro e um diplomata mineiro, resultou em uma amizade próxima, pautada na admiração mútua, e em uma produção crítica literária sem par. Ao longo de mais de três décadas, o crítico literário, tradutor, filólogo e professor Paulo Rónai acompanhou de muito perto a produção literária de João Guimarães Rosa e foi assim construindo de forma simultânea, a partir de ensaios publicados em jornais, estudos, palestras e notas, um incomparável conjunto de crítica literária sobre a obra do grande ficcionista mineiro, publicado pela primeira vez neste livro, organizado por Ana Cecilia Impellizieri Martins e Zsuzsanna Spiry. A capacidade de decifrar os segredos e sentidos recônditos nos livros do autor de obras-primas como Grande sertão: veredas e Corpo de baile, fez com que os textos de Rónai passassem a integrar a maior parte das edições de Rosa, por escolha do próprio escritor, sempre surpreso e grato com as leituras desbravadoras do amigo. Tamanha era a afinidade entre esses dois homens das letras, que após a morte repentina de Rosa, em 1967, Paulo Rónai foi designado administrador de suas edições, organizando as suas obras póstumas, onde novos textos de sua autoria apoiavam a leitura ― estes também aqui incluídos. Dispersos em jornais, edições avulsas, livros e inéditos, esses ensaios, reunidos nesta edição, confirmam Paulo Rónai como grande leitor e crítico de Guimarães Rosa e oferecem um verdadeiro roteiro dessa obra de encantamento infinito da literatura brasileira e mundial. O livro é publicado pela Bazar do Tempo.
 
Nova tradução para um dos romances significativos na obra de Flaubert e da literatura francesa.
 
Uma aventura épica que alia exotismo a reconstrução histórica, sensualidade a violência, universo mítico a paixões impossíveis. Ambientada na Cartago do século III a.C., durante a primeira Guerra Púnica, Salammbô foi escrita por um dos maiores nomes das letras francesas, Gustave Flaubert (1821-1880). Às vésperas do bicentenário do autor, esta que foi uma de suas principais obras ganha nova tradução e edição luxuosa em tiragem limitada, pela Carambaia. A história começa durante um banquete, nos jardins da casa do líder militar cartaginês general Amílcar Barca, para comemorar o aniversário da batalha de Monte Érice, na Sicília, que opôs os exércitos arregimentados por Amílcar contra os romanos, durante a primeira das guerras púnicas (264-241 a.C.). É ali, durante o festim, que o mercenário líbio Mâthos avista Salammbô, filha do general e sacerdotisa de Tanit, a deusa da Lua e protetora de Cartago. Essa aparição sensual de Salammbô não sairá da memória do soldado, que no entanto será um dos principais líderes da revolta dos mercenários contra Amílcar, depois que este reconhece não ter recursos para pagar o soldo devido aos estrangeiros que estiveram sob suas ordens lutando contra os romanos. Obcecado pela ideia de voltar a encontrá-la, decide roubar um véu sagrado dos aposentos de Salammbô na companhia do escravo liberto Espêndio, seu braço direito. Mais tarde, o sumo sacerdote de Cartago ordena que Salammbô vá resgatar o véu. Dessa forma, a disputa pela posse do objeto sagrado e pelo coração de sua dona (prometida pelo pai ao vilão, o rei númida Narr’Havas) se misturam aos embates em campo de batalha até um final digno de todas as peripécias que o precederam. Salammbô foi o romance que Flaubert escreveu imediatamente depois do abalo estético e moral provocado por Madame Bovary (1856). Do retrato realista de uma mulher insatisfeita na província francesa no século XIX, o escritor saltou para essa aventura épica, ambientada no norte da África no século III a.C. O “romance cartaginês”, como ele o chamava, foi uma de suas principais empreitadas literárias. Para escrevê-lo, o Flaubert dedicou cinco anos de sua vida, municiou-se de documentos, fez longas viagens para o Oriente Médio e leu mais de 200 obras, sobretudo estudos clássicos de historiadores como Políbio, Plínio ou Plutarco. Tudo para reconstruir minuciosamente a antiga Cartago, inserindo no enredo personagens e episódios fictícios. Amílcar é presença notória nos livros de história, mas a própria Salammbô nunca existiu. Já Aníbal, o filho verdadeiro de Amílcar e tão célebre quanto ele, participa da trama quando ainda criança, num episódio comovente. Flaubert reveste de cores fortes o material histórico, e o romance todo transpira um exotismo que evoca a Salomé bíblica e os contos das Mil e uma noites. A nova tradução desse épico ficou a cargo de Ivone Benedetti, e a edição conta com um posfácio inédito de Samuel Titan Jr., professor de literatura da Universidade de São Paulo, tradutor e especialista na obra de Flaubert. O projeto gráfico da edição de Salammbô pela Carambaia, criado por Cristina Gu, explora visualmente a tensão do romance entre o mítico, o imaginário e o histórico. Numa referência à presença de uma divindade lunar na trama, o volume contém imagens dos fenômenos naturais relacionados ao satélite da Terra, produzidas pelos cientistas James Nasmyth e James Carpenter no século XIX.
 
Doze narrativas de viagem ganham edição inédita em livro.
 
Ingleses no Brasil reúne doze narrativas de viagem, de diversos autores, todas inéditas em livro. Traduzidos diretamente de originais ingleses publicados nos séculos XVI e XVII, os relatos aqui reunidos são variados no conteúdo e na forma, e trazem à luz uma faceta fascinante de nossa história. Navegadores, corsários, geógrafos, marinheiros, soldados, náufragos, cirurgiões-barbeiros e, principalmente, mercadores narram suas experiências e aventuras, em diferentes gêneros: cartas, notícias, relatórios, obras de geografia, diários de bordo, relatos de viagem, depoimentos à Justiça. As viagens inglesas ao Brasil durante o século XVI são menos conhecidas do que as viagens de franceses e holandeses, e permaneceram praticamente à margem da historiografia brasileira. Ocorridas em uma época de grandes transformações geopolíticas, revelam o interesse que a Inglaterra nutriu pela colônia portuguesa ao longo do primeiro século de ocupação, assim como as diferentes fases das relações entre Brasil e Inglaterra — de um primeiro período de exploração marítima e descobrimento e de tentativas de estabelecer relações comerciais, até as últimas décadas de hostilidade aberta e ataques de corsários. Os relatos reunidos em Ingleses no Brasil, contextualizados por um posfácio e notas explicativas, refletem a diversidade cultural e social de seus autores, e trazem um olhar múltiplo sobre esse período e sobre aspectos pouco conhecidos da Colônia. A tradução é de Vivien Kogut Lessa de Sá e o livro é publicado pela Chão Editora.
 
O romance de estreia de Melina Galete é o 17º título da coleção Lusofonia editada pela Jaguatirica Edições.
 
De que formas uma viagem pode transformar a nossa vida? Da verdadeira Índia não é apenas um diário autobiográfico desse processo, mas antes a partilha com os leitores da obra de uma importante mutação interior. De Niterói para Aveiro, para onde se mudou com sua filha, Melina Galete já havia atravessado uma mudança cultural, onde se obrigou a desconstruir padrões normativos do seu local de origem. É precisamente em Portugal que a autora conhece a indiana Sridevi (nome fictício, para proteger a respetiva identidade), colega de apartamento, que anos depois a convida para o seu casamento, uma união arranjada, como é comum no país asiático. Embora seja inicialmente resistente à ideia de ver a amiga casar-se com um desconhecido, Melina embarca numa das maiores aventuras de sua vida, para se fazer presente na festa e conhecer um novo país do qual tinha já tantas imagens pré-concebidas. Depois de uma intensa preparação com elementos considerados no ocidente como típicos da cultura indiana, entre tentativas de meditação e muita prática de yoga, a autora descobre-se num novo mundo tão arrebatador quanto surpreendente, longe do que imaginava em Portugal e no Brasil sobre aquela cultura que é tão distinta da sua e ao mesmo tempo tão igual. O desafio do etnocentrismo, a redescoberta de si num lugar novo e os impactos que ficam gravados na alma humana, como tatuagens, são temas centrais de Da verdadeira Índia, uma obra sensível e um convite à reflexão sobre o que definimos como norma.
 
O sétimo livro de poemas de Rodrigo Garcia Lopes.
 
Rodrigo Garcia Lopes traduziu Epigramas, de Marcial, O navegante (anônimo anglo-saxão), Rimbaud, Whitman, Apollinaire, tendo apresentado as obras de Laura Riding e Sylvia Plath ao leitor brasileiro. Também lançou um livro de entrevistas com personalidades da arte e cultura estadunidense, um romance policial, dois álbuns de canções e coeditou por doze anos a revista Coyote, publicando poetas e prosadores brasileiros e do exterior. Este O enigma das ondas revela um poeta em plena maturidade, que reacende a força e a relevância da poesia, mostrando que ela pode explorar em profundidade, e em registros múltiplos, a realidade contemporânea e a existência. Em 91 peças, o volume traz poemas líricos, políticos, críticos, satíricos e reflexivos. O livro é publicado pela editora Iluminuras.
 
Goliarda Sapienza pela primeira vez fora do seu país.
 
“Subir de novo deves/ o rio do teu sangue”. Assim começa um dos poemas de Ancestral, livro que revela o ato de nascença da escrita de Goliarda Sapienza (1924-1996), cuja prosa não existiria sem a poesia. Composto na década de 1950, o livro foi publicado na Itália apenas em 2013 e encontra, nesta edição, a sua primeira tradução para outra língua. Mulher versátil e curiosa, profundamente envolvida na arte, como também nas questões políticas e sociais, Sapienza sempre buscou, em seus gestos e em sua escrita, um contato direto com a realidade, alimentada pelo desejo da descoberta, do conhecimento feito de erros e de experiência. Ancestral fala de um passado individual cronologicamente datado — o da autora —, que remete à memória da infância, aos afetos, à paisagem da Sicília, mas, ao mesmo tempo, é o registro de uma atemporalidade coletiva: Sapienza mergulha nas profundezas do verso, escancarando pulsões e conflitos, e se entrega à percepção, sem julgá-la. Este livro ilumina um capítulo ainda pouco explorado da literatura italiana do Novecentos, e, à distância de quase setenta anos de sua composição, não é apenas um texto atual, mas necessário e inovador. A tradução é de Valentina Cantori e é publicada pela Editora Âyinè.
 
O novo livro de Raimundo Carrero.
 
Não posso silenciar diante deste revoltante genocídio que se abate sobre o Brasil, com o assassinato de meninos e meninas, diariamente, em cidades e localidades onde são realizadas operações policiais em combate com traficantes e bandidos de toda ordem, dizem eles, atingindo, em geral, crianças que vão ou voltam das escolas. Enquanto trocam tiros, não poupando rifles ou metralhadoras, esses grupos sacrificam gerações inteiras, sobretudo os mais pobres e miseráveis, que derramam o sangue nesta guerra desproporcional. Possuído de uma dor crescente e cada vez mais dilacerante, resolvi escrever estas histórias que, em sua maioria, me chegam através do choro de pais e parentes, debruçados sobre corpos dilacerados. Muitas vezes ainda marcados pela ironia e pelo riso de pessoas que se consideram acima da lei e, espantoso, acima do humano. Escrever estas histórias talvez tenha sido a atitude mais dolorosa que enfrentei nesses meus setenta anos de vida. E, é claro, na minha carreira literária. Estou cansado, mas ainda assim acredito que minha obra, de alguma maneira, contribuirá para o fim desta guerra de bandidos, que só mata crianças e dizima uma geração de brasileiros. Neste livro dou continuidade às Cartas ao Mundo, iniciadas no livro As sombrias ruínas da alma, ganhador do Prêmio Jabuti, onde aparecem as três primeiras, que explicitam a minha determinação de denunciar sempre as crescentes injustiças e agressões sociais no Brasil. Estão matando os meninos é publicado pela editora Iluminuras.
 
Livro reúne textos inéditos de Clarice Lispector.
 
Organizado pelas professoras Teresa Montero, biógrafa de Clarice Lispector e Lícia Manzo, Outros escritos é o complemento indispensável à obra completa de Clarice Lispector. Isso por reunir textos inéditos, dispersos ou de acesso restrito de importância capital para o entendimento da obra clariceana, como sua única peça teatral, “A pecadora queimada e os anjos harmoniosos”, escrita no começo de sua carreira e testemunho do seu interesse pela dramaturgia, que a levou a traduzir peças de autores consagrados como Ibsen, Lillian Hellman, Mishima e García Lorca. Encontram-se aqui textos produzidos em seus tempos de faculdade de Direito (debatendo questões cruciais, como o direito de punir), suas primeiras incursões no jornalismo (como repórter da Agência Nacional) e anotações íntimas extraídas de cadernos de notas. Assim como sua única incursão no terreno dos estudos literários, a tão falada (mas pouquíssimo conhecida) conferência “Literatura de vanguarda no Brasil”, cujo sucesso da primeira apresentação na Universidade do Texas em 1963 motivou reapresentações em instituições brasileiras. Texto que demonstra inequivocamente que Clarice não era uma escritora preocupada apenas com a própria obra e encastelada em torre de marfim, e sim uma autora sintonizada com as preocupações da literatura de seu tempo e dotada de real capacidade de pensamento crítico, muito embora alegasse não se interessar por questões teóricas e históricas. Fecha o conjunto um documento incontornável: a transcrição da entrevista por ela concedida (em 20 de outubro de 1976) ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, com a participação dos amigos Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti e do diretor do MIS, João Salgueiro. Trata-se da primeira vez em que Clarice discorreu livremente acerca de sua vida e da sua literatura.

Os múltiplos de uma perturbada relação pai e filha.

Neste romance autobiográfico, vencedor dos prestigiados prêmios italianos Strega Giovani e Elsa Morante de 2016, Rossana Campo investiga memórias de infância e a construção de sua identidade a partir da figura carismática, mas difícil, de seu pai. À medida que traça um retrato de Renato, resgatando seu jeito de falar e humor, sua ancestralidade e episódios de passeios cheios de cumplicidade, assim como as ausências dolorosas do pai, a escritora se debate com as ambiguidades dele e com a dificuldade em costurar essa complexa narrativa. Campo passeia pela história e por questões sociais italianas, ao mesmo tempo que indaga a psicanálise e a própria literatura neste romance afetuoso, comovente e pontuado pelo humor característico de Renato e Rossana. Onde você vai encontrar um outro pai como o meu foi traduzido por Cezar Tridapalli e é publicado pela editora Âyinè.
 
Toda correspondência escrita por Clarice Lispector ao longo de sua vida reunida numa edição que inclui cerca de meia centena de textos inéditos para o público.
 
Ponto alto de Todas as cartas, o conjunto de correspondências inéditas endereçadas aos amigos escritores tem entre os destinatários João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga, Lêdo Ivo, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Natércia Freire e Mário de Andrade. As correspondências foram organizadas por décadas ― dos anos 1940 a 1970 ― e contam com notas da biógrafa Teresa Montero, que contextualizam o material no tempo, no espaço e nas inúmeras citações a personalidades e referências culturais. Com grande material inédito, o volume resultou de longa pesquisa realizada pela jornalista Larissa Vaz, sob orientação de biógrafos e da família, para trazer uma visão integral da pessoa e da escritora. A publicação da correspondência de grandes escritores constitui-se em importante acontecimento literário, pois o autor mantém a inspiração, o lirismo e o humor ao escrever cartas, que chegam a ser tão ou mais fascinantes e criativas quanto seus próprios livros. Clarice viveu quase duas décadas no exterior e se correspondeu sempre para cultivar o afeto da família e dos amigos e para tratar da publicação dos seus livros. Apesar de afirmar que “não sabia escrever cartas”, suas cartas são tão interessantes quanto seus romances, contos e crônicas. Neste livro foram selecionadas as cartas consideradas relevantes, que servem ao objetivo de ampliar o entendimento literário ou biográfico da vida e obra da autora, não sendo incluídas missivas comerciais, bilhetes e recados sem interesse. A Editora estima que o seu lançamento provavelmente suscitará novas descobertas e manterá futuras edições abertas à inclusão de textos que possam surgir a partir da publicação desta obra. O livro é publicado pela Editora Rocco.
 
O novo trabalho do escritor cubano Leonardo Padura é uma celebração dos elementos que fazem de sua voz uma das mais proeminentes da literatura latino-americana nos últimos anos.
 
Água por todos os lados apresenta ao leitor algumas das grandes paixões e inspirações de Padura, como a literatura, o beisebol, a cultura local e, de forma geral, sua terra natal: “Sou um escritor cubano que vive e escreve em Cuba porque não posso e não quero ser outra coisa, porque (e sempre posso dizer que apesar dos mais diversos pesares) preciso de Cuba para viver e escrever.” Nas páginas dessa obra singular, o escritor nos apresenta um lado pessoal de seu processo de criação, revelando locais e tramas em que os personagens ganham vida, seus instrumentos de trabalho e suas inspirações: “Entre uma obsessão abstrata, quase filosófica, e o complicado processo de escrever um romance, há um longo período, cheio de obstáculos e desafios.” Trata-se, então, de um relato brilhante de como transformar em material narrativo aquilo que no início se mostra apenas uma luz tênue na mente do autor e de como habilmente tecer isso com o vínculo de pertencimento mantido em relação a seu país. “Quando me perguntam por que vivo e escrevo em Cuba, tenho diversas respostas possíveis a oferecer. Prefiro, porém, a mais simples: porque sou cubano e tenho um alto senso do que esse pertencimento significa.” A tradução de Monica Stahel sai pela editora Boitempo.
 
O anexo que não poderia faltar às memórias de Caetano Veloso.
 
Na madrugada do dia 27 de dezembro de 1968, duas semanas depois de o governo decretar o AI-5, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram retirados dos apartamentos onde moravam, no centro de São Paulo, e levados em uma caminhonete ao Rio de Janeiro. Conduzidos por policiais à paisana, eles foram presos sem nenhuma justificativa. Em Narciso em férias, volume avulso do capítulo homônimo de Verdade tropical, Caetano Veloso relata o impacto brutal que os 54 dias vividos no cárcere deixariam em sua vida ― não apenas pela dimensão política, mas também pela perspectiva psicológica e artística. Esta edição inclui uma seção com registros do processo aberto pela ditadura militar contra o cantor e compositor. Esses documentos ficaram guardados no Arquivo Nacional e seriam revelados ao artista pela primeira vez cinquenta anos mais tarde, em 2018. No texto inédito de apresentação, Caetano Veloso anuncia: “este, que é meu escrito a que atribuo maior valor, entra na cena atual da vida política brasileira de modo abrasivo”. O livro é publicado pela Companhia das Letras.
 
REEDIÇÕES
 
Nova edição de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.
 
A experiência da protagonista desta aprendizagem mostra afinidades tanto com as provações da bela Psiquê, do mito grego, quanto com a mística aventura da alma, ao atravessar a noite escura no Cântico Espiritual de São João da Cruz. Como um quadro cujas linhas mestras o recortassem do grande mistério que tudo contém, este livro, que “se pediu uma liberdade maior”, é a narrativa de uma iniciação e um extraordinário hino ao amor. Lóri, a mulher, faz uma longa viagem ao mais profundo de si mesma e chega à consciência total de ser. Diz: eu é; o homem, Ulisses, um professor de filosofia, que possui fórmulas para explicar o mundo, transforma-se em algo mais simples, um simples homem. Ambos serão iniciados: Ulisses fecha os ouvidos para as outras sereias porque só está disponível para Lóri, cujo verdadeiro nome é Loreley, como a personagem de Heine e de Apollinaire, uma ondina ou sereia que costumava atrair para os rochedos os barqueiros do Reno. Na verdade, cada um vai encontrar-se consigo mesmo em face do outro. Por ser trabalho, ascese, viagem, o amor de Lóri e Ulisses vence a diferença, o estranhamento, vence até mesmo a morte, ou o medo da morte. E a entrega finalmente física dos personagens se realiza com força tântrica de êxtase, de epifania. Para Lóri, “a atmosfera era de milagre”; Ulisses “estava sofrendo de vida e de amor”. Nada termina, porém, o momento anuncia uma nova aurora: “Ambos estavam pálidos e ambos se acharam belos.” Clarice, que se insere sabiamente no possível, fecha com dois pontos a narrativa que começara com uma vírgula. — Rachel Gutiérrez
 
OBITUÁRIO
 
Morreu o poeta E. M. de Melo e Castro.
 
E. M. de Melo e Castro nasceu na Covilhã em 1932. Chegou a frequentar a Faculdade de Medicina, em Lisboa, mas em 1953 partiu para Bradford, Inglaterra, onde anos mais tarde, em 1956, se formou em Engenharia Têxtil. Enquanto trabalhava como tecnólogo têxtil tinha uma carreira paralela de criação poética e artística e de reflexão crítica, publicando livros de poesia e de crítica literária, domínios a que se dedicou inteiramente a partir de 1996. Com a sua escritora Maria Alberta Menéres (1930- 2019), com quem foi casado, editou Antologia da novíssima poesia portuguesa (1959). Foi um dos pioneiros da Poesia Visual concreta. Viveu entre Portugal e Brasil, onde morava, em definitivo desde o fim dos anos 1990. Em 1998 obtém o seu doutoramento em Letras, na Universidade de São Paulo, defendendo a tese Poesia dos países africanos de língua portuguesa: percursos comparatistas com as poesias portuguesa e brasileira. Da vasta obra, se destacam títulos como Entre o som e o sul (1960), Ideogramas (1962), Poligonia do soneto (1963), Resistência das palavras (1975), Re-Camões (1980), Finitos mais finitos (1996), Quatro cantos do caos (2009). Em junho de 2017 recebeu a condecoração da Ordem do Infante Dom Henrique. O poeta morreu em São Paulo no dia 29 de agosto de 2020.
 
DICAS DE LEITURA
 
As celebrações para o bicentenário de Fiódor Dostoiévski não é mais novidade entre os amantes da sua obra. No Brasil, as primeiras demonstrações para marcar a efeméride vieram da Academia de Letras com a realização de uma mesa redonda sobre a obra do escritor (veja seção seguinte). Pois bem, a fim de prepararmo-nos para este 2021, quando muito se falará sobre a literatura de Dostoiévski, fizemos estas três recomendações que são pequenas janelas para o universo dostoiévskiano; estamos bem servidos dos seus livros entre nós. A Editora 34 resta publicar apenas a nova tradução do que até agora é conhecido como Memórias da casa dos mortos, tudo o mais está feito a partir da língua original. O leitor que chegar aqui logo ainda poderá aproveitar para adquirir os livros recomendados na 3ª Feira Virtual da Editora 34 que acontece entre os dias 14 e 16 de setembro, no site da casa, e com desconto de 50% em todo seu catálogo. Deixamos à parte os cinco grandes romances, indispensáveis a qualquer leitor amante da grande literatura.
 
1. Memórias do subsolo. O homem do subsolo foi o protótipo ideal para que Freud desenhasse com melhor clareza as ideias do inconsciente. A personagem e também narrador dessas memórias passa à limpo seu entorno perscrutando os distintivos da civilização com uma profunda amargura, que não apenas ressalta sua condição de homem apartado da coletividade, mas vislumbra uma leitura singular sobre esse entorno. Sua luta é contra tudo e todos, mas é uma tentativa de chamar os de fora da caverna à sanidade perdida. Aqui, o leitor entra em contato com um tratamento dos jogos de consciência que foram fundamentais para a obra do escritor e para uma revolução da literatura cujas marcas ficaram para todo sempre. Também se encontra vários dos temas que serão mais bem elaborados nos últimos de seus grandes romances. A tradução da Editora 34, direta do russo, é de Boris Schnairderman.
 
2. Bobók. Na sinopse oferecida pela Editora 34, se descreve que este livro foi sempre o que melhor despertou reações inflamadas da crítica. Aqui, Dostoiévski já era o autor consagrado com a publicação de Gente pobre e o autor incompreendido com romances como O duplo e Os demônios. O texto foi escrito como a estreia do escritor numa seção do jornal Grajdanin, onde assumiu as funções de redator-chefe. Este é um conto que é ao mesmo tempo uma resposta bastante singular aos seus críticos e uma das suas criações que reúne a maior parte de suas principais aspirações criativas. A edição aqui recomendada traz um texto de Mikhail Bakhtin, um dos seus mais completos leitores. A tradução é de Paulo Bezerra, o responsável por trazer a nós a parte mais importante da obra de Dostoiévski.
 
3. Niétotchka Niezvânova. A ideia original do escritor com este romance era construir um amplo painel sobre a vida de uma personagem da sua infância à maturidade, espécie, portanto de um romance de formação. Os planos se modificaram. Dostoiévski foi mandado para a Sibéria e quando de lá retornou, uma década depois, decidiu não levar adiante o plano original. Ficou, assim, um romance que se circunscreve um drama ético da adolescência: a ambiguidade de sentimentos em relação aos pais, o desamparo, as escolhas afetivas que definirão seu destino e a sublimação dos desejos impossíveis. André Gide compreendeu que neste trabalho, a literatura deu a conhecer o nascimento dos sentimentos. A tradução é também de Boris Schnaiderman e traz um posfácio amplia a experiência de leitura sobre outro dos trabalhos do escritor russo que favoreceram as descobertas mais adiante da psicanálise.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. Falamos acima sobre o trabalho da Academia Brasileira de Letras em torno do bicentenário de Fiódor Dostoiévski. Então, a mesa redonda organizada por esta casa está disponível online em formato de podcast. Reuniu Fátima Bianchi, tradutora de algumas obras do escritor russo, Jimmy Sudário, Bruno Gomide e apresentação de Marco Lucchesi. Mais detalhes a partir deste endereço
 
BAÚ DE LETRAS
 
1. No blog, encontrará disponível vários textos sobre a obra de Dostoiévski. Dentre eles, sobre alguns dos livros recomendados na seção “Dicas de leitura”; este, de Joaquim Serra, sobre Bobók; e este, de Pedro Fernandes, sobre Memórias do subsolo. Ainda sobre este último, um texto de Alfredo Monte escrito por ocasião dos 150 anos livro examina-o como o trabalho decisivo na obra do escritor russo.

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