Em torno do “Silêncio na era do ruído”, de Erling Kagge

Por Maria Vaz

Erling Kagge Foto: Thomas Ekström


 
De capa pálida em letras claras. Chamou-me a atenção a ideia antitética que dá nome ao livro. Desfolhei as páginas e pude ler uma escrita pragmática mas, ao mesmo tempo, provinda de alguém que busca a raiz das coisas ou das ‘não-coisas’ que nos enredam naquilo que está além de nós e nos supera.
 
Confesso que quando adquiri o livro desconhecia que o seu autor fosse um grande aventureiro e explorador, que viajou por alguns dos locais mais inóspitos do planeta, muitas vezes sozinho. Depois percebi que, além de ser jurista, a dada altura trocou o direito pelo estudo de filosofia em Cambridge e que, mais tarde, abriu uma editora na Noruega, ao mesmo tempo que se iniciou na escrita sobre as suas viagens e sobre a arte, que considera uma das suas grandes paixões. Pronto, a partir daí ganhei uma certa empatia com ele: gosto de direito, filosofia, arte, viagens e de escrever.
 
Quando percebi que a paixão do autor pelas viagens era uma coisa muito mais profunda do que o ir ali a um país qualquer instagramável, fiquei com alguma curiosidade e, mesmo sabendo que o livro não foi nenhum best seller, senti que tinha uma mensagem simples e clara que o perpassava — pensar o sentido, alcançar a raiz. Deixa-nos algumas questões, dentre as quais: porque é que o silêncio é mais importante do que nunca?
 
Vivemos na era da rapidez, do imaterial e da ausência de tempo para pensar essas não-coisas. Vivemos a era do marketing, do neuromarketing, do show off, da relatividade das narrativas — compreendendo filosoficamente o fenómeno — da era da pós-verdade. Isso gera ruído, muitas mensagens, muitas interpretações. Muito vazio cheio de palavras. Tira clareza ao essencial. E esse essencial pode não ser eminentemente pessoal, neste tempo em que a subjetividade se assume como incontornável objeto de estudo na perceção da não pureza dos factos.
 
Erling Kagge foi a primeira pessoa a alcançar os três polos deste planeta: o norte, o sul e o pico do Evereste. Teve muitas aventuras na sua aventura maior que é o seu estilo de vida propriamente dito, com avanços contra os medos, as zonas de conforto, as proteções e seguranças dos caminhos em linha reta.
 
Não quero, com isto, confundir a biografia do autor com a obra Silêncio na Era do Ruído, que abrange outros temas, como a necessidade de continuar uma paixão, neste caso das viagens (na sua aceção mais alargada), mesmo já tendo conseguido aquilo que procurava. Explica isso com base na neurobiologia da dopamina e da necessidade de superar a insatisfação crónica. Para transmitir esses pensamentos, muitas vezes, vai buscar exemplos à relação que tem com as suas três filhas.
 
O livro também abrange questões derivadas do excesso de racionalização para afirmar que a racionalização em excesso cria importâncias desimportantes, porque desprovidas de sentido. Ilustra, desse modo, o desperdício de tempo com essas coisas, em que evitamos desafiar o nosso potencial com o tempo em que estivemos e vamos estando ausentes de nós próprios. E, muitas vezes, nem sequer paramos: distraímo-nos com o ruído. Fazemos vários sprints em que envidamos esforços, enquanto continuamos em paralelo uma maratona.
 
Neste ponto, o autor alude à metáfora do aniversário em que o aniversariante dá por si com uma taça de champagne na mão enquanto reflete para consigo mesmo a mensagem de Séneca de que “a vida é longa se soubermos como a usar”, pelo que temos tempo suficiente se nos soubermos sentir.
 
De seguida, toca a problematização do aborrecimento a partir da perspetiva filosófica de Lars, como se se tratasse de “uma situação em que nos sentimos prisioneiros”, mas tem em conta os ensinamentos que lhe foram transmitidos pela sua mãe de que o aborrecimento pode ser algo saudável. Ademais, a pobreza experiencial não deriva só do marasmo, pode derivar de um excesso de atividades vazias de conteúdo para o sujeito que as experiencia. Refere, assim, que o ponto benéfico está na paragem forçada que nos obriga a sentir a nós mesmos.





Ainda nessa linha discursiva, a dada altura realiza uma espécie de ode ao silencio, que categoriza como se se tratasse de um novo luxo, raro, que não necessita de substituição e que tende a ser subestimado.
 
Relembra o bem-estar proporcionado por uma viagem que a realizou ao Sri Lanka para um retiro: passou meio globo para se desligar e ficar em silêncio. No entanto, refere que já começa a existir uma pequena indústria do silêncio: existe um pavilhão do silêncio na Dinamarca, o Lake Shrine Temple em Los Angeles, locais para os turistas apreciarem a natureza em silêncio ante os fiordes da Noruega. Atualmente não é preciso correr o mundo para o encontrar — ele encontra-se acessível em toda a parte, “podemos encontrá-lo na nossa banheira”.
 
Como refere “o silêncio tem a ver com a redescoberta, por meio da pausa, das coisas que nos dão alegrias.”
 
E do silêncio passa para o ruído e os estímulos constantes da sociedade em movimento e das tecnologias de informação e comunicação, não acabando sem citar Heidegger no sentido de que “a proximidade continua a ser excecional”.
 
Passados todos os anos da vida de Heidegger —, sobretudo depois de uma experiência pandémica global, acho que as suas palavras reassumiram especial sentido e reatribuição de importância.
 
Ante o ruído — a que alude numa experiência exploratória nos túneis de Nova Iorque e a sua escalada a uma ponte para poder sentir os primeiros raios de sol ao nascer sobre a cidade que nunca dorme —, defende a importância do mindfulness e antes de voltar a defender a importância do silêncio ante o ruído refere que deve ter havido um mal entendido nas palavras de Parménides que afirmam que “nada vem do nada”. Ou não vindo, o silêncio deve ser outra não-coisa.

Depois de ter explorado os locais mais inóspitos do planeta, com o tempo que uma só vida lhe permite, refere que “navegamos, atravessando todo o oceano, mas é quando regressamos a casa que podemos descobrir que aquilo que procuramos, na verdade, reside no nosso interior.”
 
No fundo, quase todas as religiões dizem o mesmo — vai da bíblia aos recônditos do hinduísmo para o demonstrar. A filosofia de Platão e Aristóteles também defendia que existia o “Arrhèton” ou indizível — um não-sítio onde acaba o vocabulário e se abre a consciência para outras verdades. Mais à frente na obra faz apontamento de um raciocínio semelhante em Wittgenstein ou na poesia de William Blake.
 
E o livro, já perto do fim, volta-se para algo que também me fascina: o mistério e a paz em torno do céu estrelado. O contraste entre a eternidade dos anos-luz e da nossa transitoriedade concentrada em átomos de carbono. Cita, então, o neurologista Oliver Sacks que afirmou que “olhar o céu é como se estivesse a olhar para dentro”. E fica perto da perfeição ao citar Emily Dickinson: “o cérebro é mais vasto que o céu”.
 
O autor, não raras vezes, salta de temas que têm um fio condutor, mas fá-lo de modo a gerar uma pausa — talvez a incitar ao silêncio por breves segundos.
 
Assim, passa do céu estrelado — com a beleza peculiar que tem na Noruega quase comparável à clareza que o céu tem em Atacama, no Chile — para a capacidade de alguns líderes ouvirem os seus próprios pensamentos e dá, como exemplo, Elon Musk.
 
Mas transmite-nos a mesma ideia através de um exemplo de uma situação da sua própria vida, em jeito de storytelling, que aconteceu quando estudava filosofia em Cambridge e a sua namorada, que vivia em Oslo, engravidou. Sem saber muito bem o que fazer, decidiu regressar à Noruega e criar a sua própria editora enquanto lavava a loiça, que era um dos poucos momentos do dia que tinha para estar só consigo mesmo.
 
Quando damos por nós, muda completamente a narrativa e centra-se na empatia que o silêncio permite quando os sentidos contemplam a expressão artística do grito de Edvard Munch.
 
Antes da conclusão, Kelling fala abertamente da sua dislexia e refere que uma das coisas que mais lhe custou depois de ter passado 50 dias a esquiar sozinho pelo frio da Antárctida e ter chegado ao polo sul foi falar novamente.
 
Acaba sem fórmulas mágicas. A experiência levou-o a compreender a importância do silêncio depois de muitas milhas em cada pé.

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Silêncio na era do ruído, Erling Kagge
Guilherme da Silva Braga (Trad.)
Editora Objetiva (2017)
80 p.

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