Boletim Letras 360º #676
DO EDITOR
Uso deste breve espaço para agradecer aos autores que até o dia 25 de janeiro enviaram as suas candidaturas para os novos colunistas no Letras e estendo este obrigado a você, leitor, que de alguma maneira ajudou na divulgação desse chamado.
Desde o dia 26, este espaço regressou ao curso normal das suas atividades: com publicações diárias e este boletim com as seções criadas em algum momento depois de inventada essa coluna.
Uma marca dos 19 anos online é continuar a oferecer possibilidades de ficar mais próximos dos nossos leitores, o maior desafio numa era de bolhas e de dispersões. De todo jeito, tenta-se. Por isso, o Letras foi parar no WhatsApp, depois de alguma solicitação dos que não usam o Telegram. Para seguir basta clicar aqui.
E, finalizo com um lembrete essencial — permanente: na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter o Letras. A sua ajuda continua valiosa para que este projeto permaneça online.
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| João Guimarães Rosa. Foto: Arquivo Secult-MG |
LANÇAMENTOS
João Guimarães Rosa biografado.
Esta é primeira grande biografia do escritor brasileiro mais inovador de todos os tempos: João Guimarães Rosa. Da infância em Cordisburgo, Minas Gerais, à morte súbita no Rio de Janeiro, em 1967, poucos dias depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras, este volume, de quase 800 páginas, traz dezenas de fotos e acompanha o percurso humano, intelectual e artístico do autor de Grande sertão: veredas. Menino que escrevia nos papéis da venda do pai e na madeira da mesa de estudos, médico no interior mineiro, diplomata em tempos de guerra, poliglota apaixonado pelas palavras e pelos horizontes ilimitados da experimentação linguística, Rosa construiu sua obra entre boiadas sertanejas, bombardeios em Hamburgo e cabarés da Paris do pós-guerra. Amparado por documentos raros, depoimentos reveladores e pesquisas realizadas ao longo de uma década, o jornalista e historiador Leonencio Nossa traz informações inéditas e mostra que Rosa dialogou ainda com o samba, o rádio, a cultura popular, a espiritualidade oriental e o mundo animal. Mais do que a vida de um gênio literário, esta é também uma história crítica do Brasil moderno, narrada por um escritor inquieto, experimental e visionário, cujos livros continuam a fascinar, desafiar e reinventar a literatura brasileira. Publicação da editora Nova Fronteira. Você pode comprar o livro aqui.
O premiado romance de estreia do mesmo autor de Uma noite de verão e Mentiras que contamos.
Em 1916, enquanto a guerra devora vidas, Vincent, um jovem belo e inteligente, busca refúgio no desejo. Ele vive uma paixão com Arthur, soldado que tenta escapar por alguns dias do horror das trincheiras, e inicia uma amizade amorosa com Marcel Proust, inquieto com o fascínio que o adolescente exerce. Entre eles surge uma troca de cartas: declarações comoventes entre Vincent e Arthur, que pressente seu fim, e mensagens tensas entre Vincent e Proust, que tenta alertá-lo sobre os perigos de sua sexualidade. Na parte final, a mãe de Arthur, empregada da família de Vincent, revela ao jovem um segredo que carregou em silêncio. Com tradução de Julia da Rosa Simões, o livro de Philippe Besson sai pelo selo Vestígio/ Autêntica. Você pode comprar o livro aqui.
Intitula-se As vozes da noite e é narrado por Elsa, a tímida jovem que, para contar a sua história, apresenta antes, um a um, os membros da família, que é a verdadeira protagonista deste romance. Percorrendo os anos do fascismo e da guerra, avançando e voltando no tempo, até chegar ao pós-guerra, ela narra os personagens isoladamente para em seguida colocá-los em cena juntos, e assim mostrar como se comportam diante dos outros. As histórias individuais se entrelaçam ao pano de fundo do período, uma espécie de atmosfera compartilhada, que interfere no modo como cada um deles pode “descobrir a realidade”. Construído com simplicidade e uma nota de ironia, As vozes da noite é um romance em que o encontro com aquilo que falta aos sonhos é vivido sempre com algo da ordem de um estupor melancólico. O assombro de descobrir a realidade, frente à fantasia, é parte do modo como Ginzburg conta uma história: uma curiosa mescla da graça e do peso da existência. Publicação da Companhia das Letras; tradução de Iara Machado Pinheiro. Você pode comprar o livro aqui.
Dois novos romances na recente Coleção Contemporânea criada pela editora Pinard.
1. Atrás fica a terra, de Arianna de Sousa-García, é um romance íntimo sobre migração, maternidade e memória. A partir da voz de uma narradora que escreve para o filho, o livro constrói um relato fragmentado de deslocamento forçado, atravessado por perdas, silêncios e tentativas de reconstrução em um território estrangeiro. Entre lembranças da terra deixada para trás e a experiência concreta do exílio, a narrativa reflete sobre o corpo, a língua, o pertencimento e a transmissão da memória às novas gerações. Com uma escrita contida e sensível, Arianna de Sousa-García transforma a experiência migratória em um gesto literário de resistência e cuidado, compondo um retrato profundo da fragilidade e da força que coexistem na experiência de começar de novo. O livro é publicado com tradução de Wesley Santos Rocha e prefácio de María Elena Moran. Você pode comprar o livro aqui.
2. Um beijo de Dick, de Fernando Molano Vargas, é um romance intenso e delicado sobre o amor juvenil, a descoberta do desejo e a fragilidade da vida. Ambientada na Colômbia dos anos 1980, a narrativa acompanha o vínculo profundo entre dois adolescentes que encontram um no outro um espaço de afeto, cumplicidade e resistência diante de um mundo marcado pelo preconceito, pela violência e pela ameaça constante da perda. Com uma escrita lírica e direta, Molano constrói uma história de formação e amor queer que se tornou um clássico da literatura latino-americana contemporânea, combinando ternura, humor e tragédia em uma reflexão comovente sobre crescer, amar e sobreviver. Com tradução de Be Rgb e prefácio de Paulo Lannes. Você pode comprar o livro aqui.
Reunindo dezesseis contos inéditos, Marcelo Moutinho evidencia a habilidade de criar personagens múltiplos e profundamente humanos, inseridos em situações aparentemente banais, mas carregadas de tensão e desejo.
Entre cenários do subúrbio e da zona sul carioca, o autor transita com naturalidade por diferentes camadas sociais, afetivas e morais do Rio de Janeiro contemporâneo. Para Micheliny Verunschk, no texto de orelha da edição de Gentinha publicada pela editora Record, “Moutinho, que cultiva uma longa história de amor com a crônica, traz para este conjunto de 16 contos o olhar aguçado do grande cronista que é, atento à amplitude da paisagem, ao assunto, às mínimas granulações que compõem a cena. Uma mirada sensível e feroz.” Você pode comprar o livro aqui.
Os contos aqui selecionados, na brevidade com que constroem seus enredos, flertam com o insólito, o inexplicável, nos fazendo questionar a racionalidade com que pretendemos ler os acontecimentos, ou melhor, com que acreditamos entender o que acontece.
Há em Instamatic e outros contos, de Mia Lecomteneles um ar de mistério que não se dissolve (e que felizmente não precisamos compreender). É muitas vezes no espaço íntimo da casa ou das relações pessoais, permeadas pelo afeto, que esse estranhamento aparece com mais força, gerando uma sensação que é ao mesmo tempo incômoda e intrigante. A atmosfera é reconhecível, mas há algo que nos escapa. Para onde essa história vai nos levar? Esta parece ser a pergunta norteadora feita naturalmente quando começamos a leitura de cada um dos contos aqui reunidos, enquanto nos reconhecemos nas angústias ali elaboradas. Ao final, no entanto, os desfechos parecem não coincidir em nenhum dos casos com a hipótese inicial de leitura, de forma que ao longo de todo o livro seguimos nos surpreendendo pela não obviedade dos encaminhamentos. Organizada e traduzida por Cláudia Alves, a antologia sai pela Edições Jabuticaba. Você pode comprar o livro aqui.
Um regresso ao marcante ano de 1986 está no centro da estreia de Maria Brant.
Em 1986, o mundo aguarda a passagem do cometa Halley. No Brasil, a redemocratização está em curso após 21 anos de ditadura militar. É esse o contexto da estreia literária de Maria Brant, um romance de formação sobre o complexo processo de luto e uma jornada de autodescoberta. No período de janeiro a dezembro, O ano do cometa mapeia a dor e a busca pelo significado de assuntos não ditos, mas captados pela percepção infantil de três meninas: Íris, Rosa e Violeta. Íris tem onze anos e, em meio às excentricidades da mãe e ao silêncio do pai, lida com a dor da perda de seu tio Peu. A procura por rastros e explicações se manifesta em detalhes: a cicatriz na testa em código morse, as lembranças do tio surfista e sonhador, os cadernos em cirílico do bisavô astrônomo e os fragmentos de história da família que parecem flutuar entre o que é real e obscuro, assim como os acontecimentos que ainda pairam pela história recente do país. O luto que ronda a família se expressa em Rosa de maneira diferente. O sentimento de não pertencimento, o novo país, o retorno de um exílio que ela não sabia que vivia se refletem num vazio preenchido com a compreensão do ciclo da vida e a superação dos medos ― sejam eles de aranhas, do mormaço ou de uma iminente catástrofe nuclear pós-Chernobil. Violeta é quem, sob a possibilidade de voltar ao passado, olhando tudo de outra perspectiva, tenta compreender o que aquele ano significou para ela e para as crianças e os adultos que passaram por esse período. Como tudo aconteceu? Como entender o que vivemos? Maria Brant faz um mergulho na infância e transcende a crônica familiar para entregar uma meditação atemporal sobre as grandes ausências e os eventos históricos que se espelham no cotidiano. Como se a única forma de dar sentido aos “fragmentos de uma saga” pessoal fosse seguir a trilha dos “cometas e eclipses”, aceitando que a luz do vaga-lume só se revela e faz sentido quando abraçamos a escuridão. "O ano do cometa" propõe uma análise da fragilidade e da resiliência infantil, provando que a busca por nossa origem e identidade é tão vasta e necessária quanto o céu noturno. Publicação da editora Fósforo. Você pode comprar o livro aqui.
Em segunda edição atualizada, este livro já conceituado nas áreas de Artes Cênicas, Cinema e Televisão reúne onze textos dos mais essenciais ensaios da trajetória do crítico e professor paranaense Ismail Xavier.
Entre as abordagens, com particular relevância à concepção da cena tal como formulada desde o século XVIII, quando emergiu o drama burguês e a hipótese de “quarta parede” foi assumida para valer nos palcos. De modo geral, O olhar e cena reúne escritos que focam a passagem do teatro e da literatura ao cinema num sentido amplo, que ultrapassa o caso da adaptação e revelam a forma como operam, na indústria cultural do século XX, gêneros como o melodrama e uma geometria do olhar e da cena que não se iniciou com o cinema, mas encontrou nele um enorme poder na composição do drama como experiência visual. São privilegiados, nessa análise, títulos do Cinema Novo brasileiro e correntes posteriores, entre os anos 1960 e 1980. Publicação das Edições Cosac. Você pode comprar o livro aqui.
Cartas feitas de memórias, gentilezas, faltas e um proposital esquecimento.
Antes de ser uma ativista trans pelos direitos LGBTQIAP+ reconhecida em Nova York, Cecilia Gentili foi uma criança queer na pequena Gálvez, na Argentina dos anos 1970. Caçula de uma família desestruturada, forjou para si uma identidade ― e uma vida ― no bairro pobre em que vivia, vítima de diversos tipos de abuso dos adultos à sua volta. As oito cartas que compõem Faltas são destinadas a pessoas decisivas dessa época ― a mãe, a avó, o melhor amigo, a amante do pai, a filha do homem que a violentava. Em meio às faltas daqueles que deveriam protegê-la, Gentili escreve para todos, exceto para seu algoz. Com uma honestidade que dá espaço ao contraditório, ao atrevimento e ao bom humor, estas memórias ultrapassam a catarse pessoal e revelam uma escritora habilidosa que partiu de maneira precoce, deixando uma única obra literária. O livro é publicado pela editora DBA com tradução de Carolina Kuhn Faccin. Você pode comprar o livro aqui.
REEDIÇÕES
REEDIÇÕES
Uma nova edição da biografia de Gabriel García Márquez escrita pelo jornalista Dasso Saldívar.
Aos 25 anos, Gabriel García Márquez acompanha a mãe em uma viagem a Aracataca para consumar a venda da antiga casa de seus avós maternos. O jovem, que então dava seus hesitantes primeiros passos na literatura, não poderia imaginar que aquela visita se revelaria, anos depois, como um dos momentos mais decisivos de sua vida de escritor. Naquele vilarejo poeirento onde havia passado a infância, Gabo reencontra as imagens, vozes e atmosferas que haviam moldado sua imaginação. Em Gabriel García Márquez: viagem à semente, Dasso Saldívar reconstrói a trajetória desse mesmo jovem, que se tornaria o maior escritor colombiano e uma das figuras centrais da literatura do século XX. A biografia não se inicia com seu nascimento, ela vai além ao recuar no tempo para narrar a história de seus avós maternos ― talvez os personagens mais decisivos em sua formação ― e de seus pais. Ao fazê-lo, ficam para trás os limites do relato individual e se estabelece uma verdadeira saga familiar, marcada por guerras civis, amores censurados, deslocamentos e perdas. É desse legado de conflitos, memórias e afetos que emerge o universo simbólico que, mais tarde, se cristalizaria na ficção de García Márquez. Ao acompanhar os anos de estudo no liceu e a adoção do jornalismo como ofício, Saldívar ilumina os momentos centrais da formação literária, social e política de Gabo. O texto mergulha em suas leituras formativas ― Kafka, Faulkner, Virginia Woolf ―, em sua aproximação com o pensamento de esquerda e em sua inserção nos mais diversos círculos intelectuais e afetivos, que foram verdadeiras redes de convivência e amizade, fundamentais tanto para o amadurecimento estético do escritor como para sua sobrevivência em períodos de instabilidade econômica. Com rigor histórico, sensibilidade crítica e fôlego narrativo, Dasso Saldívar assina uma biografia exemplar. Esta nova edição de Viagem à semente convida o leitor a acompanhar o percurso do menino de Aracataca até sua consolidação como autor de Cem anos de solidão, em uma leitura envolvente e esclarecedora. Longe de pretender esgotar as formas de compreender a vida e a obra de García Márquez, este livro oferece, antes, um caminho de retorno às origens. Como nos ensina Saldívar, só há uma maneira de chegar a Macondo: voltando à semente.
Reedição da editora Record; tradução de Eric Eric Nepomuceno. Você pode comprar o livro aqui.
RAPIDINHAS
Mais Andrei Platônov. A Ars et Vita inicia o ano com a publicação de A vaca. O livro de 1938 sai com tradução de Maria Vragova e ilustrações de Aleksandr Petrov.
Mais nórdicos em português 1. A BEC Editora, que reabilitou a presença de Jens Peter Jacobsen entre os leitores brasileiros, prepara para trazer Um fugitivo percorre seus rastros, de Aksel Sandemose.
Mais nórdicos em português 2. A tradução do livro de Sandemose é de Leonardo Pinto Silva, que trabalha para a mesma casa, para trazer ao português a trilogia Kristin, da escritora Prêmio Nobel de Literatura Sigrid Undset.
DICAS DE LEITURA
1. O toldo vermelho de Bolonha, de John Berger (Trad. Samuel Titan Jr., Editora 34, 112p.) Uma porta de entrada para a ficção deste escritor mais conhecido entre os leitores brasileiros pelo ensaio. Situado entre o subúrbio de Londres e as arcadas de Bolonha, o narrador oferece o relato de viagem e o retrato do tio Edgar que marcou sua juventude. Você pode comprar o livro aqui.
2. O polonês, de J. M. Coetzee (Trad. José Rubens Siqueira, Companhia das Letras, 130p.) Um célebre e controverso pianista reconhecido por suas interpretações de Chopin e o enigma à volta de um conjunto de poemas escritos para uma Beatrice que se confunde com uma mulher de mesmo nome, com quem teve um amor repentino e breve. Você pode comprar o livro aqui.
3. Noite devorada, de Mar Becker (Círculo de poemas, 120p.) Em continuidade ao desenvolvimento de sua voz poética, a poeta gaúcha revisita um dos temas mais caros e versados: o amor. Neste livro, a voz é transferida para o próprio sentimento que sussurra suas variações e reentrâncias. Você pode comprar o livro aqui.
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
Ao chegar aos 80 anos, Julian Barnes decidiu colocar um ponto final na sua carreira de romancista. O autor de obras de destaque na literatura como O papagaio de Flaubert admite que esgotou ou escreveu o que queria escrever em matéria de romance. Sua última incursão nesse gênero já está em português, Partida. Trata de uma história de amor marcada por dois instantes temporais: na juventude e na velhice do par Stephen e Jean. Bom, a nota é para apontar este vídeo com uma conversa entre Barnes e outro nome destacado da sua geração, Ian McEwan. A conversa se desenvolve em torno desse livro, mas avança por diversas outras questões, como arte, memória, o tempo, a morte, o luto etc.
BAÚ DE LETRAS
E no 18 de janeiro de 2026, passaram-se os 100 anos do nascimento de Autran Dourado, efeméride assinalada na abertura dos nossos trabalhos deste ano com um texto de Alfredo Monte (passam-se uma década de quando o crítico esteve conosco numa das primeiras turmas de colunistas deste projeto). É dele também este outro texto, de janeiro de 2015 em que recobra o ciclo de romances designado pelo clã Honório Cota.
DUAS PALAVRINHAS
É absolutamente errado supor que os outros estão em condições de compreender os nossos sentimentos mais profundos.
— Yukio Mishima
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* Todas as informações sobre lançamentos de livros aqui divulgadas são as oferecidas pelas editoras na abertura das pré-vendas e o conteúdo, portanto, de responsabilidade das referidas casas.

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