O. Henry: um escritor de pena branca

Por José M. Ramos


O. Henry, pseudônimo de William Sydney Potter, foi um escritor estadunidense na transição do século XIX para XX que cultivou o gênero do conto com final surpreendente e inesperado. Como não chegou a escrever uma obra de amplo alcance narrativo que o incluísse no panteão dos escritores mais reputados, a crítica literária o relegou a um segundo plano, apesar da aceitação unânime do público.

Como a maioria dos escritores de seu tempo, O. Henry se deu a conhecer nas páginas dos jornais, exercendo a profissão que seria um trampolim para muitos deles: o jornalismo. A imprensa, veículo de transmissão da narrativa curta e inclusive não tão breve como o folhetim ou a publicação em fascículos, lhe permitiu, posteriormente, a viver de seu trabalho como criador de fantasias ao gosto de um público que começava a forjar os destinos de uma grande nação.

Original de Greenboro, um povoado da Carolina do Norte, passou os últimos anos de sua vida em Nova York, depois de uma tormentosa juventude e haver estado preso por um suposto desfalque ao banco onde trabalhava.  Sua atividade no âmbito bancário se deixa entrever em muitas de suas narrativas, onde se observa seu conhecimento em primeira mão de jargões e situações comuns a essa atividade.

Aliás, foi na prisão onde começou a escrever seus textos e enviá-los para publicação. Começou escrevendo contos cuja trama se desenvolve no Oeste, criando personagens um tanto estereotipadas, tais como foragidos, vaqueiros, vagabundos, situando suas aventuras nas áridas paisagens do Texas ou Novo México.

Nos dez últimos anos de sua vida, trocou o marco rural pela agitação da grande cidade, esse conglomerado urbano que determinará o destino das personagens que aí pululam, pondo em descoberto seus anseios, suas alegrias, suas tristezas, seus sucessos e suas misérias. O. Henry utiliza toda uma diversidade de personagens – mendigos, mulheres solteiras, casadas, aristocratas, burgueses, policiais – e as move à sua vontade com um realismo um tanto forçado, pois chega a atar demasiadamente as intrigas para conduzi-las a um desenlace que impacte pelo insólito, e, logo, pouco verossímil. 

O escritor propositalmente infringe a realidade, convertendo fenômenos aleatórios em deterministas, e privando-a de sua principal característica: o acaso. Porque este, o acaso, sempre está a favor da correnteza engendrada pelo autor; ele o dirige por um caminho cujo final foi determinado a priori, que, de toda maneira, o interesse maior é o de surpreender ao leitor com uma conclusão que quase nunca o deixa indiferente. Deste modo, a imaginação e a criatividade em O. Henry supera esse requinte falso realista, patrimônio exclusivo dos autores europeus, e cuja carência ele reprova. Não se pode dizer que a idiossincrasia de seus protagonistas não seja autêntica; são suas ações e consequências o que se questiona nesse afã de nos oferecer uma explosão de fogos artificiais nas últimas linhas de seus contos.

Para manipular os destinos de suas personagens e para subverter uma realidade cotidiana, que na maioria das vezes seria anódina, o autor recorre ao insólito como técnica literária e, sobretudo ao humor, um humor reforçado com uma prosa singular e um extraordinário domínio do eufemismo. Este estilo, rico em matizes, é muito próprio dos escritores estadunidenses que saem do mundo jornalístico: Ambrose Bierce, Mark Twain, Bret Harte, por exemplo.

Diferentemente de seus colegas europeus, de moral mais relaxada, O. Henry é um escritor que se caracteriza por uma notável elegância. Seguindo as pautas da literatura estadunidense, influenciada pelo puritanismo imperante na sociedade, ele é um autor para todo tipo de público. Nenhuma palavra de insulto, nenhuma personagem sórdida ou moralmente reprovável. Mesmo os malvados e as personagens com alguma carga de negatividade, têm uma alma, uma componente espiritual, uma sensibilidade que atenua e redime seus pecados, minimizando o caráter doloso de seus comportamentos. Talvez, este olhar benevolente para com os delinquentes seja consequência da empatia que o autor chegou a estabelecer com seus companheiros de prisão.

Convém ressaltar que O. Henry bebeu na fonte de outros contistas. Conhecia o mestre da narrativa curta Guy de Maupassant, quem é mencionado num de seus contos, ressaltando sua maestria. E foi também fonte de inspiração para muitos outros e hoje em dia o conto com final surpreendente é uma constante entre muitos dos escritores mais famosos. 

As tramas que desenvolve estão centradas normalmente nas inquietudes de uma personagem, protagonista principal do conto, às vezes de duas, mas que em situações que impelem uma coletividade à ação. As mulheres, por exemplo, desempenham um papel característico em sua obra como seres delicados, frágeis, submissos e desejosos de emancipar-se economicamente. Como muitos autores do fim do século, O. Henry não é alheio às situações de seu tempo, e, numa sociedade extremamente patriarcal, trata a mulher com certo paternalismo não isento de desdém. 

As expressões que as mulheres sugerem mostram às claras uma ligeira atitude machista, sem chegar à misoginia que impera durante todo o século XIX e grande parte do século XX, com as doutrinas e princípios de Schopenhauer ou Nietzsche. Nos contos de O. Henry, a maior ambição da mulher é o casamento. A busca por um companheiro que possa ampará-la de uma sociedade que considera a mulher solteira como sujeito condenado a um destino incerto e miserável, posto que tem sido criada para converter-se em companheira, ou melhor dizendo, em complemento do homem. E, paradoxalmente, uma vez casada, submetida aos caprichos e a autoridade do marido, sua situação torna-se ainda mais penosa, pois é vítima de maus tratos e desconsideração, mas assume essa posição com alegria, como se tudo isso fosse parte de sua própria condição de mulher. Este é o caso do célebre conto “Uma tragédia no Harlem”, cujo título é muito sugestivo porque o leitor nunca chegará a determinar se o termo “tragédia” se refere à violência doméstica explícita na narrativa ou se faz alusão à dor da esposa porque seu marido não a agride, considerando esta inação como um gesto de indiferença e logo de falta de amor.



O. Henry dá um tratamento à violência doméstica que hoje nos pode parecer insultante, pois a mulher desfruta sendo vítima; inclusive considera seu casamento fracassado se seu marido não poder sobre ela. E a própria sociedade tem isso tão enraizado que vê tudo com normalidade. Tanto é assim, que um policial, testemunha de uma briga doméstica, faz-se de omisso com toda naturalidade do incidente, continuando sua ronda noturna (“Entre duas rondas”). Mas, na verdade, o que O. Henry nos apresenta é uma crítica social sobre o casamento e a difícil convivência em quartos de pensão barata, pequenas habitações, onde a falta de espaço e a miséria catalisam e despertam os instintos mais violentos do homem. Todo o interior matizado como uma página de humor que desencadeia no leitor um riso, mais que um sentimento de indagação ou de pena.

Outro tema bastante recorrente em sua obra é o do sujeito insatisfeito com sua condição social, desejando alcançar um status diferente. Isto provoca narrativas onde se produz um travestismo temporal. O pobre se transforma em rico, o rico em pobre. Mas O. Henry manifesta uma especial sensibilidade pelos mais desfavorecidos. Os vagabundos e mendigos que são protagonistas em muitos dos seus contos são tratados com certo paternalismo, mas não focaliza nas suas misérias e sim suas ganas de viver e a satisfação por pagar o preço da miséria em troca de alcançar uma liberdade absoluta (“Dois cavalheiros e o Dia de Ação de Graças”).

Em resumo, hoje poderíamos qualificar a literatura de O. Henry de “branca” em oposição a de outros compatriotas seus como Edgar Allan Poe ou Ambrose Bierce, que chamaríamos de “negra”, sobretudo pelos conteúdos mais obscuros e dramáticos de seus contos. Sua forma de narrar nos recorda mais Mark Twain, embora este faça uso de um humor mais cáustico e sua crítica social resulte muito mais evidente.

Com humor e um sarcasmo carente de malícia, nos mergulha na cidade e nos mostra como segue seu curso, cobiçando essa humanidade fervilhante e gregária, que caminha sem saber muito bem para onde. Talvez seu destino seja um final inesperado do qual O. Henry é um mestre consumado.


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