Frantz, de François Ozon
Por Pedro Fernandes

A beleza de Frantz não está na impecável fotografia
preto e branco. Não está na narrativa seguramente bem construída e marcada por
um controle extremo do caudal de emoções tão variado quanto pesado. Nem no
drama dos sentimentos que carregam suas personagens. Está na terrível
atualidade dos sentimentos aí evocados. Terrível porque sendo um filme que
trata das cicatrizes da Primeira Guerra Mundial era de esperarmos que boa parte
delas já tivesse sido superada de um todo tantos anos depois. Mas, tantos anos
depois e ainda passado outra guerra de maior proporção, a intolerância entre
povos, raças e culturas — para citar o principal dos sentimentos presentes
nesta obra — parece ainda ser a mesma; ou ainda pior, se considerarmos que mesmo
o passado de proporções catastróficas não parece ter servido de lição.
Frantz é o
nome de um jovem alemão que seduzido pelo discurso patriótico e heroico
premente no seu tempo — incutido em parte pela propaganda militar e em parte pelo incentivo do
pai — vai para o front. Como muitos jovens soldados que vão à guerra, deixa, ou adia, todo um projeto de vida e sonhos e, também como muitos, esse projeto e esses sonhos são interrompidos. É o caso de Frantz, que morre em um dos combates em território francês. Sua morte e
a de muitos outros combatentes funciona como contínuo alimento ao ódio entre
nações, o combustível, portanto, para a manutenção da matança de ambos os lados
do conflito e para o cultivo de uma sorte diversa de intolerâncias.
Assim, todo
pós-guerra se sustenta por pelo menos duas questões: o que faz um país quando
não está em guerra, isto é, como recompor as feições sociais de antes de
instaurada a preocupação contínua com o básico capaz de garantir a sobrevivência; e como desfazer as
intolerâncias que são sempre pequenos focos de resistência capazes de perdurar
as raízes do confronto noutra esfera mas curtidas pelo mesmo ódio que sustinha
a guerra pode mesmo, como focos de um incêndio, se transformar em fator favorável a novos desenlaces de
mesma proporção dramática.
É o solo
minado do pós-guerra onde pisa a narrativa do filme de François Ozon. A chegada
do ex-combatente francês Adrien ao vilarejo onde viveu o amigo morto no front é
o mote a partir do qual a história se apoia. Na clara homenagem que o cineasta francês
presta ao filme estadunidense de Ernst Lubitsch, Não matarás, é a mesma linha dessa narrativa que aí se preserva,
isto é, a da peça francesa escrita por Maurice Rostand, texto primeiro que antecede
as leituras cinematográficas. A partir da descoberta do jovem, no túmulo de
Frantz, uma série de segredos serão paulatinamente revelados, sendo que um dos
primeiros (e principal) enfrentamentos que ele precisará vencer são os magoados
e endurecidos sentimentos da família do alemão.
Vale sublinhar a maneira como essas barreiras individuais da
intolerância são cedidas: Adrien, do inimigo que sobreviveu a morte, aos poucos se torna uma possibilidade de retorno à vida passada, de quando
o alemão estava vivo. Assim, os da família de Frantz são convencidos de que o
francês se não substitui o filho morto é uma projeção daquilo que seria se vivo
estivesse. Agora, essa ilusão restauradora é dada através de um corte ficcional,
porque o francês tem consigo todos os motivos para que o ódio mortal dos
alemães pelos franceses tenha sentido.
Aqui, Ozon
segue a máxima de que, em condições de frágeis linhas de restabelecimento da
paz, a ilusão (não a mentira) é uma necessidade. Não apenas isso — nenhuma relação se mantém se não adoçada pelo colorido da ficção. E esta vida
possível é mostrada dessa maneira em Frantz: em cores, um contraste marcante com o preto e branco. A produção trabalha com dois estilos no intuito de deixar clara essa percepção, assim como usa da variável de
enquadramentos.
François Ozon se mostra, dessa maneira, interessado em compreender como a
narrativa, o conteúdo, influencia no funcionamento entre estrutura e forma — um tratamento que reafirma a
posição de um cineasta atento ao processo criativo e as implicâncias dos
efeitos suscitados pelo que conta para o espectador. Frantz propõe que as verdades são sempre muito caras e ressalta a
importância da ficção no alisamento das ásperas fronteiras.
O tema da
guerra, apesar de não ser o assunto direto da narrativa, está em toda parte: no
luto da família de Frantz, no espírito perturbado de Adrien, nas discussões entre
os membros do grupo patriótico do qual faz parte o pai de Frantz — um forte
adendo das fagulhas que resistiram dentro e fora da Alemanha pós-Primeira
Guerra e mais tarde se tornaram favoráveis ao levante dos nacionalismos
desbragados, dos fascismos e da era sombria e de aguda intolerância que daria
na Segunda Guerra Mundial e no nazismo, este mal do qual não foi possível ser expurgado
de um todo depois de 1945. Eis mais tons de como Frantz, apesar de se referir a um contexto específico, é
assustadoramente próximo ao nosso tempo.
E a mensagem
— se o espectador buscar, encontrará muitas mais que esta — é a de que a
intolerância e o ódio gratuito não levam a lugar algum. Se o confronto pode
servir de um divertimento para os que estão no comando da situação, essa brincadeira
de mau-gosto se constrói da dor irreparável dos que perdem seus entes queridos
e da miséria de uma gente comum — os civis em todo caso nada têm com os interesses de poder de uns poucos.
Frantz é uma linha a mais no extenso discurso
antibelicista cujo fim não pode chegar porque o conflito é uma das fatalidades
autoimpostas na ordem da raça humana. Ozon se utiliza das implicâncias individuais do conflito que varreu o Europa na primeira metade do século XX reafirmando, assim, o poder avassalador e o vazio das guerras e o perigo dos ódios
gratuitos.
Nesse
sentido, a narrativa de Frantz nos
ensina a necessidade de superar (ou supurar) as chagas mais vergonhosas que nos iguala por
baixo à mesma selvageria do bárbaro que tanto o espírito da razão soube criticar,
debochar e recusar. Se não formos capazes de fazer isso pelos vivos, ao
menos façamos pelos mortos, estes que, tal como Frantz, movem todas as
existências dos vivos porque nos cobram a necessidade de não morrerem outra vez
quando nos acusamos das mesmas intolerâncias e nos matamos pelas mesmas barbaridades.
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