“Uma nova mulher e a moral sexual”, de Alexandra Kollontai, e o desenvolvimento da produção literária de Hilda Hilst


Por Beatriz Martins

Hilda Hilst. Foto: Renata Falzoni



“Durante 40 anos, Hilda Hilst foi uma moça muito bem comportada. Ela produziu muito: mais de 28 livros de poesia, prosa, textos belíssimos de teatro que continuam inéditos. De repente, Hilda Hilst se rebelou”. Esta é a introdução da entrevista concedida a TV Cultura, quando do lançamento d’O caderno rosa de Lori Lamby. No que Hilda responde considerando-o um ato de agressão (para além de transgressão, donde há de se ver o caráter radicalizado da obra), uma necessária banana ao mercado editorial delimitado a partir dos ideais patriarcais. (Vídeo disponível aqui)

A nova mulher contemporânea emerge duma ressignificação de valores e necessidades, a qual é posta num movimento verticalizado, de cima para baixo, a todas as mulheres. Esta diferenciação passado-presente é desenhada continuamente na obra de Alexandra Kollontai, teórica feminista e marxista e, sobretudo, revolucionária. Em sua obra A nova mulher e a moral sexual, Kollontai põe em xeque o surgimento do novo tipo fundamental da mulher, que luta para se adaptar às condições de sua própria existência. Tomada esta consciência de necessidade de sobrevivência por si mesma, a nova mulher depara-se com a inutilidade do equipamento moral que lhe é inculcado desde o seio familiar – o cultivo das virtudes da pureza, da verdade, da passividade e da submissão já não encontra mais utilidade na realidade posta às mulheres.

Este fenômeno produz uma verdadeira transformação da estrutura psíquica da mulher e exige, necessariamente, a codificação de uma nova moral que atenda aos seus anseios de nova compreensão de mundo, bem como o rompimento de dogmas até então cristalizados e, muitas vezes, institucionalizados. De uma mulher “eco do homem”, passa a se conceber a “mulher-individualidade” – uma membra ativa, com personalidade, desejos e ideais próprios, que se afastam cada vez mais do Outro e encontram a si mesma. Ainda que se possa pensar numa consolidação de novas ideias, deve-se ter em mente a continuidade deste processo de transformação de valores, muitas vezes abafado pela força da tradição, a qual exerce um grande peso sobre as mulheres, tendo em vista a superestrutura onde é consolidada.

Para além destas considerações iniciais e necessárias, Kollontai vai mais além: considera que “a moral sexual contemporânea não passa de uma vã ficção”. Neste entendimento, traça os dois objetivos cotidianamente fracassados da moral sexual humana, quais sejam a consolidação de uma descendência sã e o enriquecimento da psiquê humana. Afirma, pois: “A delicada flor da moral sexual é uma felicidade adquirida à custa da escravidão da mulher à sociedade”. De tal forma o é que a crise sexual se sustenta sob a ausência do potencial de amor, tendo em vista os laços sociais esparsos e a psicologia humana tendenciosa aos sentimentos de intolerância, ódio e desigualdade – pilares do machismo e patriarcado sociais.

Nesta superação da mulher do tipo antigo, busca-se, primordialmente, a satisfação da necessidade erótica sem a priorização da preocupação ulterior, a liberdade da alma feminina e do seu futuro, sem a necessidade de se colocar aos pés de um ser interiormente alheio ao seu. Hilda Hilst insere esta mulher-fêmea contemporânea no mundo literário, dona dos seus desejos e do seu prazer, consolidando a um só tempo A Autora, A Personagem e A Leitora enquanto Novas Mulheres. Veja-se o seguinte trecho de “Do desejo”, uma série de poemas da escritora:

“[...] Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.”

Repensar a sexualidade para além da satisfação do Outro, do “ganir diante do Nada”; em verdade, passar a pensar a própria sexualidade a partir de si e da satisfação do próprio Eu, reconhecer a vivacidade e contornos do seu próprio desejo, da consolidação da mulher-individualidade e, sobretudo, da mulher-fêmea, é um dos desafios para a superação da aguda crise sexual e ressignificação da nova moral sexual para a mulher. 

Neste processo de superação e transformação de valores, invoco aqui uma frase dita por Hilda na mesma entrevista acima supracitada: “A verdadeira vontade do obsceno é a vontade de converter”, relacionando-a ao processo de transformação de uma mulher do tipo antigo para uma nova mulher do tipo fundamental que emerge na atualidade.

A relação entre desejo e cintilância, para além de bela, evidencia o autoconhecimento feminino a partir dos pilares do desejo: a beleza de querer, saber o que quer e, sobretudo, ter voz para dizer o que quer. Sem os julgamentos limitantes da moral burguesa.

Ao adentrar nesta compreensão do sexual, é necessário alertar para o fato de que, a concepção de desigualdade entre os sexos, ainda que no campo psicológico, obriga a aplicação de medidas e consequências diversas para atos idênticos, segundo o sexo que os tenha realizado. Esta dupla moral sexual relega as mulheres a uma zona de penumbra onde a sua própria e plena satisfação pode parecer imperdoável socialmente.

É nesta superação de modelos antigos e inutilizáveis que a eroticidade literária de Hilda se apresenta como uma porta para as mulheres de um novo tempo. É a pornografia em seu melhor sentido: literária, dita por uma mulher, reconhecida em outras muitas mulheres, transgressora; é, enfim, uma pornografia que agride e grita contra o silenciamento sexual feminino propagado por uma vida humana.

Neste caminho do descobrir sexual, muitos questionamentos lhes são impostos. Tanto na mulher que se descobre com voz num cotidiano que a silencia bem como na produção literária de uma artista que dá voz a todas estas mulheres e sexualidades vivas, vê-se inúmeros obstáculos postos socialmente para limitá-las a uma mesma zona de penumbra – do tabu, do não dito, do silenciado. Hilda transcende estes limites, que vão desde o questionamento da qualidade de sua produção literária a, até mesmo, insegurança quanto a sua sanidade mental. Sem papas na língua, afirma: “Eu espero me tornar uma excelente pornógrafa”. É um escândalo. Sobretudo porque não é masculino. É necessário.
Neste anseio de codificar uma nova moral sexual e, sobretudo, de inserir esta mulher contemporânea na literatura, Hilda Hilst é peça fundamental. Leia-se o seguinte trecho de Contos D’Escárnio:

“As surpresas sempre me acompanharam a vida. Otávia por exemplo gostava de apanhar. A primeira vez que ‘a fodi’ (ou que ‘fodi-a’ ou que ‘fui fodê-la’, é melhor?) enganei-me na tradução do seu breve texto. Ela me disse: me dá uma surra. Entendi que era uma surra de pau. E fui metendo, me aumentando longamente para não esporrar, pensando na mãe morta, no pai morto, na missa de sétimo dia do tio Vlad [...]. Aí ela me interrompe a meditação ativa, dura e disciplina: surra, amor, eu disse. Surra, meu bem.”

A construção de um tipo como Otávia implica no reconhecimento de uma sexualidade de mulher-fêmea viva, a qual resulta em descrições pormenorizadas, ao longo da obra, do ato sexual através de uma ótica feminina, essencial à consolidação da mulher contemporânea na literatura, de modo a escrachar os maiores tabus que ainda a cercam e, de certa forma, escravizam, tendo em vista que a moral sexual burguesa por muito foi um instrumento de opressão às mulheres.

Chega a ser tenebrosa a forma como a mídia, por muito tempo, tratou esta evolução e desenvolvimento literário em Hilst como uma ausência de sanidade mental ou de estilo literário. Até mesmo pelo desenrolar da referida entrevista, depreende-se que a forma como a qual a escritora é tratada evidencia uma trajetória linear involutiva em vida: alguém bem-comportada que, por alguma razão desconhecida, rebela-se. Algo parecido com o “perder o fio da meada”, como muitos críticos definiram.

Quando, na verdade, Hilda acha o fio da meada e escancara o que há por atrás de uma cortina cuidadosamente zelada: uma nova sexualidade feminina e literária (mesmo não sendo, necessariamente, feminista; mesmo não sendo, necessariamente, uma involução ou evolução; mesmo sendo, em bem verdade, um necessário desenvolvimento da produção pornógrafa erotizada e feminina no Brasil e no mundo).

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