Você não estava aqui, de Ken Loach

Por Pedro Fernandes



Numa sociedade ideal, sempre que nos apresentassem uma comodidade buscaríamos compreender quantas vidas foram / são sacrificadas para tanto. Mas, se isso não é um efeito coletivo, não é coletiva nossa impossibilidade para a condição do cidadão ideal. Por mais retrocessos que experimentemos (esses nunca deixaram de existir) eles não são um desejo majoritário; nossas tentativas, por malsucedidas que sejam, sempre apostam nessa possibilidade de uma sociedade envolvida o suficiente pelo bom funcionamento da coletividade. É verdade que a acusação repete que o apogeu do individualismo nos afastou do ponto de perdermos de vista qualquer utopia e tem cada vez mais nos afastado de uma compreensão sobre nós e sobre o outro. E é também verdade que essas constatações são cômodas porque produtos de certa desobrigação individual em contribuir para outra possibilidade. O filme de Ken Loach é, em parte, a demonstração de que nem todos estão tomados pela epidemia acachapante desse vírus que se renova desde a aurora dos tempos e que mais tarde passamos a designá-lo de capitalismo.

As novas artimanhas do capital se dirigem em várias frentes: apropria-se em parte de certos discursos do politicamente correto corrompendo-os e transformando-os numa ideologia tão ou mais perigosa que a ideologia dominante; ou se beneficia dos nossos interesses de outra vida, forjados em parte pelos modelos anteriores do capital, para continuar exercendo-se como escravização do homem pelo homem. O que convencionamos como liberdade talvez seja o território mais fértil para a contínua renovação dos mesmos interesses de apropriação e expropriação. O desenvolvimento de toda sorte de parafernálias digitais que reduzem nossa preocupação com o futuro, tornando este num instante possível de se consegui-lo à hora do nosso interesse tem sido um exemplo disso. Desde o alvorecer das redes sociais, modelo de vida centrado no antigo desejo humano segundo o qual a vida está noutra parte (como almejou ou profetizou Rimbaud), vimos se constituir um universo à parte e ao mesmo tempo integrado à nossa vida comum que nos determina, silenciosamente, tudo o que fazemos: da escolha da roupa para uma festa ao tipo de sono que queremos; dos períodos propícios para viajar, incluindo a escolha de lugares onde ficar, o que comer, o que fazer, à maneira como devemos estudar. Enfim, toda nossa vida se resume a um conglomerado de aplicativos, ao perfeccionismo e aos imediatismos.

Num passado não muito remoto esperávamos que os robôs cuidariam de tudo isso, mas, agora, essa possibilidade parece que sucumbiu com as envelhecidas utopias da coletividade; se as máquinas se tornariam nossas escravas perfeitas, por uma razão tão surreal quanto, fomos nós que, paulatinamente, nos tornamos os escravos perfeitos delas. Agora, se esquecemos da sociedade feita de robôs nossos serviçais (é mesmo possível que todo investimento em inteligência artificial ainda torne a levantar essa possibilidade, se ainda estivermos por aqui) juntos esquecemos que os sistemas, quaisquer que sejam, são mantidos por humanos. E é aqui que se situa o filme de Ken Loach: trata-se de um importante registro de uma pequena parte do silencioso mundo que trabalha incansavelmente para o comodismo, o conforto, o perfeccionismo e o imediatismo continuem como os sinônimos de uma sociedade em pleno funcionamento. E produz, com isso, algumas importantes conclusões; a principal talvez seja a de que esse modelo tem seus dias contados: cedo ou tarde, como se deu com os tristes anos da Revolução Industrial, só nos restará a rebeldia contra esses sistemas que lidam com o vilipendio do nosso ideal de humanidade.

Obviamente que ainda é cedo para isso; é preciso vivermos (outra vez) todo o encantamento, para depois (outra vez) a decepção coletiva e só então, possivelmente, aparecer (outra vez) a revolta. Logo, o filme não se apressa em apresentar uma alternativa do fim desse modelo vigente; não é esta uma obra de ficção utópica, muito embora pareça se vestir de certos valores tradicional-burgueses, como a venda do ideal de família como o único suporte fundamental ao não-perecimento do homem. Você não estava aqui é uma narrativa de tese; espécie de análise sobre as crises da engenharia social e das peças que a constituem, radiografa como os tais modelos de vida centrados entre o real e o virtual tem se constituído em perigos para a transformação das pessoas em objetos e como isso afeta profundamente as relações sociais e humanas.

O epicentro da narrativa é a rotina de um pai de família que, afetado pelas idas e vindas no mercado informal, decide investir para trabalhar como entregador autônomo. A esse fio, interpõem-se outros: um volta-se para outros modelos menos atuais dos chamados empregados livres ao acompanhar o dia-a-dia da mulher, mãe de dois filhos, ainda a figura central da ordem da casa e que se desdobra como cuidadora de idosos. Entre duas rotinas complexas e exaustivas, assistimos ponto a ponto o desmoronar da condição físico-psicológica do casal e junto com ela, eis o outro fio, daqueles que estão envolvidos direta e indiretamente. O contraponto aqui se oferece pela força semideusa do empregador que muito lembra um coach, esse profissional criado para impor a ideologia da falsa ilusão de liberdade, e um economista liberal, na linha de certos ministros da economia que, sedentos por satisfazer ao dragão mercado querem impor a todos um regime que ele próprio é incapaz de cumprir. A aparição desse deus ex machina é a peça-chave de Ken Loach no processo de desconstrução dessa vertente do liberal capitalismo; ele funciona como personalização do patrão invisível que lhe obriga por força do hábito a bater metas a fim de se aproximar (ilusoriamente) do sonho de reconhecimento e de liberdade.  

Você não estava aqui se constitui como uma ficção semidocumental, já que os registros embora ficcionais são recuperados em sua inteireza realista. Até mesmo seu princípio é realista; ainda que queira revelar o lado oposto da ideologia ou aquilo que deixamos de ver, às vezes porque sequer ousamos perguntar sobre o avesso das coisas, se trata de uma obra sem quaisquer interesses numa transformação dos costumes. Não é um filme que reafirme modelos, mas que se coloca sempre pelo princípio da inquietação. Eu, Daniel Blake – outro trabalho de Loach – se nos inquietava deixava por nos convencer sobre algumas circunstâncias vividas pelo protagonista, o que parecia, por vezes, estarmos numa narrativa centrada no absurdismo e não na crítica de como sistemas e máquinas apagam as relações humanas – no filme de agora esse efeito, inquietar, é melhor conseguido. Somos convencidos à medida que nos aprofundamos nas vidas desses protagonistas ao ponto de passarmos a enxergar o papel desastroso desse modelo social vigente Sim, é preciso dizer que, por traz de tudo o que se mostra paira uma denúncia de um sistema de consumo pautado exclusivamente no excesso e no acúmulo. A grande lição deixada parece ser um apelo à retomada da vida antes de tudo isso (ou se não uma tentativa de redimensionar as prioridades que sorrateiramente os sistemas nos induzem); poderá parecer certa nesga de saudosismo, mas não é: é a constatação fatalista de que, daqui para adiante, as relações humanas estão fadadas ao total esgarçamento. E contra isso, parece que ainda não há qualquer luz no fim do túnel.


Comentários

Tamy Ghannam disse…
Sensacional o seu texto, Pedro! É impressionante como os filmes do Ken Loach me causam raiva justamente porque retratam sem floreios a realidade injusta e surreal moldada pelo capitalismo como um dos poucos modos de sobreviver. Gosto como esse filme escancara o que alimentamos com a nossa predileção pelo que é mais cômodo (e que nesse sistema insustentável sempre acaba sendo o mais incômodo para outro alguém, um ser invisível do qual nos esquecemos, ou escolhemos esquecer, em prol da nossa comodidade) e você pontuou isso muito bem na sua análise. Obrigada :)

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