José Saramago, ler para mover-se


Por Pedro Fernandes


José Saramago, 1990. Foto: Juan Guamy.



Alguém dado a ler a obra de José Saramago logo perceberá a viagem como um topus recorrente. Cito para a ocasião dois momentos dos mais significativos: o primeiro, de A jangada de pedra e o segundo de Todos os nomes. Esses dois romances estão inseridos em ocasiões distintas da sua criação literária. No primeiro, o tema é também a forma do romance: por obra de um acaso geográfico, a Península Ibérica parte-se da Europa e inicia um itinerário à procura de um ponto ideal no mapa. Tal itinerário será responsável pelo encontro de personagens vindas de lugares distintos da Península; são elas também acometidas por acasos, e uma vez juntas seguirão sobre a extensa barca de terra um itinerário muito particular. No outro romance, um funcionário público com o nome de Sr. José (qualquer semelhança com o do poema de Carlos Drummond de Andrade não é inocente), escriturário na Conservatória Geral do Registo Civil, uma instituição onde são registrados nascimentos e mortes, e fiel copista dos dados sobre gente famosa, dá, por acaso, com a ficha de uma mulher desconhecida e, tomado por saber quais razões estão incluídas nesse encontro, inicia uma atividade investigativa a título de buscar saber quem é a tal figura.

Fora da ficção também encontraremos um escritor em itinerância. Embora tenha iniciado ao acaso como disse reiteradas vezes em entrevistas e o leitor atento poderá perceber claramente isso no romance que inaugura o estilo muito próprio de narrar (Levantado do chão) e ter feito uso dessa escrita durante toda sua obra seguinte , os itinerários de Saramago não estiveram concentrados numa constante renovação estilística, mas formal e em torno de temas caros à comunidade humana. Esse exercício de fazer discutir pela literatura o que não é discutido nem aqui e mesmo fora, porque parece que vimos sendo tomado por um excesso de silenciamentos sobre determinadas pautas urgentes, foi um dos motivos para a atribuição do primeiro Nobel de Literatura a um escritor de língua portuguesa feito alcançado em 1998. Depois da honraria, a obra permaneceu concentrada nesses temas e terá sido motivo até o último instante de sua vida: as páginas do que seria o último romance, aquele no qual se dedicava antes da morte em junho de 2010: Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas são um bom exemplo: nelas, lê-se que o objetivo de Saramago era escrever uma obra-libelo sobre o fim das armas.

Em conversa com Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago e companheira do escritor durante largo tempo de sua vida, soube que esta obra em poucas cinquenta páginas com o título a partir de versos de Gil Vicente começou a ser pensada desde quando o escritor tomou conhecimento da história de um soldado que, na Segunda Guerra Mundial, se recusou pegar em armas e teve depois a vida roubada pelos de sua tropa. Novamente, estamos diante de um trabalho de movência. Mover-se para dizer não num tempo afeito a sempre usar o sim como modo de fazer jus ao comum e de fazer valer sua individualidade frente a uma coletividade. Sim, parece que o coletivo, está em algures, mas a literatura e nem o autor terão se rendido ao seu desaparecimento. É bem verdade que o indivíduo sempre alcança outra condição, mas em parte, se mantém em relação com um grupo. Dentro e fora da ficção. No primeiro caso, basta um contato com as crônicas, os primeiros textos de Saramago e os lugares onde a voz que ganha mais força à medida que a imagem do escritor se projeta mundialmente se estabelece.

A ocasião pós-Nobel propôs a Saramago, fosse uma figura comum, a possibilidade de gozar da experiência de ser visto e lucrar os louros da fama. Mas não. Preferiu se utilizar desse espaço para inquirir os rumos de nossa comunidade. Quando questiona o mundo e suas imposturas, o escritor fala em nome daqueles que mesmo tendo voz não são escutados. Esse é o grande vazio que nos deixou ainda que vez ou outra alguma voz nos interceda não deixamos de reparar o silêncio que se faz em torno dos temas urgentes. Os últimos anos de sua vida também estão aí como registro desse desassossego. Na sua literatura, os exemplos dessa relação sujeito-sociedade são diversos.

Tudo começou com um livro que passou totalmente despercebido aos olhos da crítica literária da época Terra do pecado, editado em 1947 e renegado pelo escritor até tardiamente. Como situa o Professor Carlos Reis em Diálogos com José Saramago (Edufpa, 2018), naquela ocasião, Saramago não estava vinculado a nenhum dos nomes em voga e não ingressava nenhum grupo literário vigente Alves Redol havia publicado Porto Manso, Fernando Namora, Minas de S. Francisco, Vergílio Ferreira, Vagão J, além da presença de uma leva de nomes conceituados pela crítica como Miguel Torga, José Régio, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro; era essa a época ainda a de formação do Grupo Surrealista de Lisboa, com Mário Cesariny, Alexandre O’Neill, António Pedro e José-Augusto França. E Saramago nada mais que “um rapaz de vinte e quatro anos, calado, metido consigo, que ganha a vida como praticante de escrita nos serviços administrativos dos Hospitais Civis de Lisboa, depois de ter estado a trabalhar durante mais de um ano como aprendiz de serralheria mecânica nas oficinas dos ditos hospitais” conforme atesta uma nota escrita depois, quando da reedição da obra que primeiramente foi publicada sem quaisquer contrato financeiro que não a ansiedade juvenil de ser escritor.

Se pela fria recepção à obra ou não  que, aliás, deveria se chamar A viúva, mas por decisão do editor assim o livro não saiu , o fato é que depois Saramago não publicou mais nenhum romance durante quase vinte anos, embora não tenha deixado de escrever e produzir algum material literário. Além das traduções, aqui-acolá algum conto em edições de periódicos portugueses; as crônicas, gênero que praticou até os últimos anos de vida, as coletâneas de poemas, uma leva de romances iniciados e falhados e um outro que veio a lume postumamente, Claraboia. Parte significativa dessa obra, até agora, dez anos depois da sua morte e com a recepção sempre em alta entre os leitores brasileiros, ainda é inédita no Brasil: Os poemas possíveis, Provavelmente alegria (poesia), Deste mundo e do outro, As opiniões que o DL teve e Os apontamentos (crônica) são alguns desses textos. Chamo atenção para isso, a título de registrar três coisas: é falsa a afirmação recorrente de que Saramago levou mais de vinte anos sem escrever; a recepção fria não durou apenas nos anos iniciais de sua carreira, ela também se perpetua em algumas situações como meio desinteresse pelos textos, para usar os termos do Professor Horácio Costa, de seu período formativo. Esse intervalo entre o primeiro romance e Manual de pintura e caligrafia, assinala não apenas o desenvolvimento de uma obra, mas de uma intensa vida que, ao contrário do que sugere alguma crítica desinformada, não se apresenta apenas quando escritor português recebeu o Nobel os jornais da época foram o espaço onde se construiu o escritor e o crítico atuante; reside aí a nascente de seu itinerário de movências, de um cidadão compromissado com os outros.

Isto é, em vida, Saramago teve o mesmo fôlego de não desistir da humanidade, como as suas personagens: ao dizer isso, penso no pintor H. de Manual de pintura e caligrafia, a família Mau-Tempo de Levantado do chão, em Blimunda e seus companheiros de empreitada de Memorial do convento, em Raimundo Silva, o revisor da história em História do cerco de Lisboa, na mulher do médico nos Ensaio sobre a cegueira e Ensaio sobre a lucidez, e em tantos outros que nunca estiveram muito à vontade nesse mundo. E, justo por isso, são seres de ação, aqueles que questionam a si no mundo e saem de seus universos particulares para questionar o mundo exterior; são signos de revisão, outra instância, portanto, de utilização do olhar, recuperando em citação a já clássica epígrafe do Ensaio sobre a cegueira, “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Mover-se é uma possibilidade de dizer não consigo apenas deter meu olhar no mundo para idealizá-lo ou nomeá-lo é preciso mais que isso, é preciso reinventá-lo.

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Tem largo tempo que a crítica apontou uma relação formal entre a obra romanesca de José Saramago e o teatro épico (a primeira vez que li sobre foi num texto do Professor António José Saraiva no didático Iniciação à literatura portuguesa, depois, a observação aparece endossada pelo Professor Massaud Moisés que filia o escritor entre os herdeiros do neorrealismo português). Proposto pelo diretor russo Vsevolod Meyerhold e o alemão Erwin Piscator, essa forma de expressão do teatro teve forte desenvolvimento na Rússia após a Revolução de 1917 e consistia em oferecer situações comuns revestidas de grandiosidade a fim de despertar o espectador como um ser social; para tanto, o palco assume-se como o lugar de relato da ação, a cena propõe transformar o espectador em observador capaz de tomar decisões sobre as situações ficcionadas, sendo estas nem sempre favoráveis aos seus interesses. Para Bertolt Brecht, talvez o principal criador a explorar de maneira diversa os recursos do teatro épico e conceituá-los, aqui o homem é o principal objeto de investigação do dramaturgo, seu mundo é mostrado tal como se transforma, isto é, político e social, logo, determinado pelas próprias ações de seus sujeitos.

Até que nos primeiros romances, penso, sobretudo, em Levantado do chão e Memorial do convento, se reproduz claramente esse modelo: há uma voz que conta uma história e desenvolve à parte comentários sobre o narrado de modo impessoal e intemporal, tomado pela natureza da oralidade popular num claro interesse de levar o leitor a uma reflexão sobre as situações narradas. Isso não se restringe a esses romances; no desenvolvimento da obra, é um método que se aperfeiçoa. Mas nesses dois romances ainda mais se parecem com o tom brechtiano porque estão embebidos de narrativas muito preocupadas com uma condição histórica do homem; aqui, os que foram colocados longamente à margem social são trazidos para o centro da ribalta e ganham projeções grandiosas. Opera-se nesse primeiro momento da literatura saramaguiana uma moral do indivíduo, que não é idealizado, mas se confunde com certo ideal aristotélico de formação do caráter ou do pensamento do bom cidadão o que designaríamos facilmente como militante, considerando aqui a raiz desse termo fixada no entusiasmo da imagem do militar. Talvez por isso logo tenham considerado o nome do escritor ao lado daqueles do neorrealismo.

José Saramago em visita a Mafra.


Permita-me citar, primeiro esse tom grandioso a partir de um episódio singular de Memorial do convento: para a construção de um convento de franciscanos em Mafra, obra produto da megalomania de um rei, um numeroso grupo de homens e bois se sacrificarão em arrastar uma pedra, designada a mãe de todas as pedras, numa longa e penosa travessia desde Pêro Pinheiro trajeto que nos dias atuais, seria de 3h30. Nos terrenos acidentados ou nas curvas do caminho, o transporte é feito por uma engenharia que combina a força dos animais e atividade repetitiva dos trabalhadores em nivelar o íngreme a fim de conduzir intacta a pedra ao seu destino final. Ouçamos o narrador, num momento dos mais dramáticos da viagem

“Um dos homens que trabalham aos calços é Francisco Marques. Provou já a sua destreza, uma curva má, duas péssimas, três piores que todas, quatro só se fôssemos doidos e por cada uma delas vinte movimentos, tem consciência de que está a fazer bem o trabalho, por acaso agora nem pensa na mulher, a cada coisa seu tempo, toda a atenção se fixa na roda que vai começar a mover-se, que será preciso travar, não tão cedo torne inútil o esforço que lá atrás estão fazendo os companheiros, não tão tarde que ganhe o carro velocidade e se escape ao calço. Como agora aconteceu. Distraiu-se talvez Francisco Marques, ou enxugou com o antebraço o suor da testa, ou olhou cá do alto a sua vila de Cheleiros, enfim se lembrando da mulher, fugiu-lhe o calço da mão no preciso momento em que a plataforma deslizava, não se sabe como isto foi, apenas que o corpo está debaixo do carro, esmagado, passou-lhe a primeira roda por cima, mais de duas mil arrobas só a pedra, se ainda estamos lembrados. Diz-se que uma desgraça nunca vem só, e costuma ser verdade, diga-o qualquer de nós, porém desta vez, o mandador delas achou que era bastante ter morto um homem. O carro, que bem poderia ter-se precipitado, aos cambulhões, pela encosta abaixo, parou logo adiante, presa a roda numa cova da calçada. Nem sempre as salvações estão onde deveriam estar. (p. 250, grifos meus);

e agora um dos apartes, embora possam ser vistos, pelos destaques, ainda no primeiro excerto:

Ao outro dia, que foi domingo, houve missa e sermão. Para ser ouvido com mais proveito, pregou o frade de cima do carro, tão airoso como se estivesse de púlpito, e não dava conta o imprudente de que cometia a maior das profanações, com as sandálias ofendendo esta pedra de ara, que o é por lhe ter sido sacrificado sangue inocente, o sangue do homem de Cheleiros, que tinha filhos e mulher, o que ficou sem o pé em Pêro Pinheiro, ainda o préstito não saíra, e os bois, não devemos esquecer os bois, pelo menos não vão esquecê-los tão cedo os moradores que foram à carniça e que hoje mesmo, domingo, fazer refeição melhorada. Pregou o frade e disse, como dizem todos, Amados filhos, dos altos céus nos vê Nossa Senhora e seu Divino Filho...” (p. 253, grifos meus).  

Como no teatro épico de Brecht, o que se apresenta, através desse método, é uma necessidade não apenas de apresentar um episódio pelo tom grandiloquente, marcado por qualquer coisa da tragédia grega, como ensinar o leitor e levá-lo a elaborar uma compreensão própria sobre o que lê conjugando uma relação para com os saberes fundamentais oriundos de seu lugar no mundo; estabelece-se assim com quem lê uma cumplicidade de pensamento, colocando-o, por vezes, na mesma esfera de importância das figuras recuperadas pela narrativa e a voz que as designa. Saramago rompe com a ideia do leitor receptor e com o modo de leitura de entretenimento; explora os limites entre este e a noção de narratário, confundindo-os como instâncias a serem instruídas pela narração.

Mas, o tom épico é tão somente uma nuance desse universo literário, não um designativo. Essa constatação, uma dentre várias outras citáveis, demonstra que a obra saramaguiana, como toda grande literatura, não se enquadra confortavelmente em muitos conceitos estabelecidos como constitutivos do fenômeno e da criação literária. Diria que sua literatura se constitui paradigma. Os indícios disso são demonstrados pela sua obra e por algumas provocações oferecidas pelo escritor, quem ensaiou algumas reflexões teóricas, como sua reiterada leitura acerca das implicações entre o autor e o narrador; enquanto a Teoria da Literatura designa-os enquanto instâncias distintas, uma mantenedora da obra e outra da narrativa,  para José Saramago essas distinções são, em alguns casos, no seu especificamente, improcedentes: isto é, existe tão somente o autor e o narrador seria, noutros casos, desdobramentos daquele. Facilmente questionável essa posição, não deixa de oferecer, entretanto, algumas inquietações interessantes, principalmente pelo esforço de reconduzir o autor para fora da sepultura a que foi lançada em seu tempo pelos modernos estudos da narratologia.

Mas, se as implicações de um pensamento sobre o literário guardam suas limitações, fora dessas linhas, quando o escritor aponta para as questões históricas, políticas e discursivas alcançam uma lucidez vigorosa. Quer dizer, sua literatura é paradigmática ainda quando o assunto excede às fronteiras da criação, esta que se apresenta enquanto alternativa ao pensamento, logo, subversão de alguns modelos e discursos definidores da civilização ocidental, como se constata no questionamento sobre a religião judaico-cristã e isso não apenas pela escrita de romances como O evangelho segundo Jesus Cristo e Caim, mas de uma obra que integralmente desconstrói os dogmas religiosos definidores do Ocidente; e a razão greco-romana, ao propor uma desconstrução do mito por uma voz cética e irônica desobrigando-se a verdade da noção impositiva da condição definitiva.

Anuncia, com isso, também outra forma de civilização, em parte porque crê na ruína e no fim dessa que insistimos em mantê-la nos moldes que vimos mantendo, mesmo sabedores que o modelo vigente já não responde pelas demandas da existência, em parte porque crê que apenas dessa maneira se é possível pensar, de fato, no que designaríamos por uma revolução profunda da sociedade. Esse anúncio se oferece no progressivo interesse dedicado ao indivíduo, principiado com Manual de pintura e caligrafia, retomado em O ano da morte de Ricardo Reis e aperfeiçoado nos romances que sucedem O evangelho.

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Bom, ao chegar aqui, parece importante esclarecer que a obra de José Saramago se manifesta enquanto uma transição do pensamento, é a passagem de uma compreensão acerca da moral de um indivíduo idealizado para um indivíduo que é força. Ao não simpatizar com qualquer ideal ascético ou aristocrático, o escritor deposita sua crença no potencial do cidadão mais anônimo. Sua reivindicação e isso ficará mais claro em romances como Ensaio sobre a cegueira e Ensaio sobre a lucidez é uma defesa de corte kantiano de um governo que não exige virtudes particulares porque é governo para os seres humanos como são, não como deveriam ser.

José Saramago, 1990. Foto: Jean Gaumy.


Se avançamos pela obra saramaguiana de sua origem aos últimos romances conseguimos compreender um pensamento que varia da ideia de querer moldar o caráter do sujeito à medida de uma estrutura para tratar sobre as condições nas quais podemos começar nossa pequena mas épica batalha contra os sistemas constituídos pela verdade de uns poucos. E isso se repara na substituição dos heróis da dissidência, como se nota vivamente em Manual de pintura e caligrafia e Levantado do chão, pelas pessoas comuns que não são extraordinárias de alguma forma, mas sensatas o suficiente para pensar o que estão fazendo e como estão fazendo. Tudo isso é produto de um pensamento que foi capaz de observar que nos tempos vigentes, que Milan Kundera conceituou precisamente como o dos paradoxos terminais, já não há distinções entre as dicotomias que tanto definiu como levou a civilização ao seu entardecer. Nesse tempo, nada mais parece o que superficialmente se mostra; por isso o que se mostra está sempre encoberto pelo olhar abstrato dos altos ideais de justiça ou legalidade. No final do Ensaio sobre a lucidez, quando o Estado condena a mulher do médico ao papel de bode expiatório para o cataclismo político instaurado a partir do surto de votos em branco, é singular, depois do seu assassinato, a morte do cão das lágrimas. A ressaltar a crueldade e abjeção como cotidiana e trivial, o romance nos oferece não apenas uma negação sobre a metafísica do mal, mas possibilidade de que o mal está em toda parte e as alternativas frente à degradação política e moral provavelmente residem, não em outra instância como na utopia de uma coletividade, mas apenas nas vontades da gente comum, esta com quem cruzamos diariamente nas ruas. 

Resta voltar aos dois romances com os quais abri essas notas e logo compreenderemos que o estágio de movência visa o nascimento de outra comunidade humana, menos racionalista e mais integrada aos valores sagrados da primeira idade dos homens. Ao estacionar em algures no Atlântico a sociedade proposta pel’A jangada de pedra não visa ser uma Atlântida perdida, nem uma Europa reformada, nem um Portugal recuperado para ser o Portugal do futuro, tampouco a face de uma América moderna, mas uma sociedade ativa, viva, fundada em outros princípios que não o das oposições fechadas da razão ou do idealismo fanático. Numa sociedade pensada na humanidade e para a humanidade. Para isso, é necessário que seus habitantes devem levar-se mais pelo seu poder intuitivo como sucede ao Sr. José e se questionar sobre a ordem das coisas. Não se pode mudar se não se sabe o que mudar. Por conseguinte, o romance como representação do que aqui chamo de novo modus vivendi também se deixa tomar por uma forma outra: se escreve, por exemplo, sob outra gramática, distancia-se dos dogmas normativos da escrita e aproxima-se da oralidade; guia-se por um estilo que é uma fusão de estilos e por um conjunto de temas de muito maior abrangência que os que foram aqui enumerados. O romance é um modo de pensar o homem, a sociedade e a história.

Se assim o fez, nas entrevistas pós-Nobel dizia sempre querer falar o menos possível sobre Literatura. E falou sobre tudo. Sobre aquilo que o constitui a pessoa que era: a vida, seu país, as pessoas com quem cruzou e, de uma maneira ou outra, lhe marcou. Sobre aquilo que o constitui cidadão: o compromisso, meio ambiente, política, economia, educação, sociedade, religião... A intervenção pública foi um dos traços centrais do perfil intelectual de José Saramago acentuou Fernando Gómez Aguilera certa vez. O escritor nunca se desfez do exercício de ser um incansável lutador pelas causas humanas e fez isso até o último instante de sua existência. Provam algumas atitudes tomadas nos últimos três anos de vida: a carta escrita para Academia Sueca propondo Baltasar Gárzon como Prêmio Nobel da Paz pela sua luta em memória dos desaparecidos nos regimes ditatoriais; a visita de apoio à luta de Aminetu Haidar em defesa do povo saharaui; o pedido pela lembrança dos desaparecidos na Ditadura na Argentina; a edição exclusiva de A jangada de pedra para arrecadar fundos aos desabrigados com a tragédia no Haiti; entre tantas outras causas. O leitor também não poderá descuidar-se desse tom saramaguiano quando estiver diante de sua obra assim como não poderá reduzi-la a apenas ao motivo do que era o cidadão. Entre uma e outra esfera há um movimento dialético e esta mobilidade se pode definir como o compromisso com a criação literária.

Autor de falas polêmicas, muitas delas, mas Saramago não foi um polemista, tampouco um agitador de massas, como chegou a ser tristemente definido pelo L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano; foi antes, um desassossegador, no bom sentido do heterônimo de Fernando Pessoa. O tempo inteiro foi um incontido com a realidade e um sonhador, não um utopista, que a utopia, dizia, coloca o homem em estado permanente de espera por alguma coisa que está além: quis um mundo de justiça e de ação. De pessoas não acomodadas. Estão lá essas pessoas, dentro dos romances, como se cobrassem do leitor também essa posição, primeiro de saber o porquê as coisas são como são, depois, o que convém para tornar este tempo de horror em tempo de convivência. E foi único ao pôr em xeque os discursos tortos, cerceadores, difíceis de digerir, difíceis mais ainda de conviver com eles; na sua incontinência e no seu sonho residia o interesse de colocar em órbita uma liberdade de pensamento até chegar ao ponto de afirmar numa das suas últimas entrevistas quando do lançamento de seu último romance, Caim, que a Declaração os Direitos Humanos devia reservar ao homem o direito a heresia e a dissidência.

Sua literatura cria, sensivelmente, paradigmas e outras possibilidades de ser e estar no mundo; rompe com a linearidade do pensamento e prima pela reflexão contínua sobre a sutilidade dos poderes e da redução da humanidade à qualidade de coisa pelo capital. E não quer ser um mero observador que repete a imagem do homem desprovido de imagem, quer ser um problematizador. Entendo que para ler sua obra é necessário se colocar em alerta ante todos os dogmas e das limitações que nos são impostas; conseguido isso, compreenderemos o nível abjeto a que formos reduzidos. Como disse Doris Lessing: “Esta é uma época em que é assustador estar vivo, quando é difícil pensar nos seres humanos como criaturas racionais. Onde quer que alguém olhe só vê brutalidade e estupidez [...] Mas eu acredito que, se é verdade que em linhas gerais estamos pior é pelo fato de as coisas serem tão aterradoras que fazem com que fiquemos como hipnotizados ao ponto de não notarmos ou, se notarmos, depreciarmos as forças igualmente poderosas no sentido contrário: as forças da razão, da cordialidade e da civilização.” A voz de José Saramago está entre essas forças, sempre a nos alertar para o destino a que estamos submetidos. Mas, para não sermos resignados e sim movência.

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* Este texto é parte de uma intervenção no projeto Encontro com Autores de 25 de outubro de 2019 registrado pela TV UERN / Canal Futura.

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