O fiasco, de Imre Kertész

Por Darío Villaneuva



Sem destino e Kaddish por uma criação não nascida são a primeira e a terceira partes da trilogia de Imre Kertész sobre o Holocausto. O fiasco é a segunda e a mais complexa das três; é uma obra de difícil leitura, mas imprescindível para compreender a singularidade de seu autor porque representa por si só toda uma condição contrária à rapidez do romanesco pós-moderno, tanto no que se refere à forma narrativa propriamente dita como a sustância de seu conteúdo. O fiasco é, neste sentido, não apenas o relato de um sobrevivente de Auschwitz, de Buchenwald e da ditadura kadarista – muito menos terrível esta, na consciência do autor, que o Holocausto –, mas também o romance de um romancista que a nós se apresenta, por suposto, muito mais próximo de nomes como Unamuno que de Ramón Gómez de la Serna.

Em sua qualidade de elaborada metaficção, O fiasco não presta, porém a questão não se refere ao como se faz um romance mas é muito mais transcendente, por que se escreve. E isso desde a particular perspectiva que proporcionava a Kertész criar em plena ditadura quando o escreveu e, ainda mais, quando publicou, em 1975, sua primeira obra, Sem destino, que constitui a base autobiográfica e o argumento do qual agora parte. Mas àquela pergunta se dão várias respostas, cobra novos matizes no contexto do eco que Kertész obteve graças à decisão da Academia sueca de lhe fazer Prêmio Nobel da Literatura.

Em sua conferência de Estocolmo pronunciada em dezembro de 2002, destacou precisamente esta dimensão de O fiasco, a de buscar o porquê da escrita. E sua resposta foi inquietante: confessou haver escrito exclusivamente para si, como uma libertação pessoal puramente subjetiva, uma atitude de discreta mas radical rebeldia contra a opressão política sem pretender o sucesso de influência alguma, nem sequer encontrar um leitor. O Holocausto, essa “ferida aberta” que reconhece como seu único tema, o fez retrair a subjetividade de seu eu sobrevivente e considerar a História como o monstruoso Moloch da objetividade. Pergunta-se, ainda assim, se pudesse fazer literatura tal e qual é numa sociedade livre. Insinua, inclusive, que a densidade metafísica que a caracteriza provavelmente sucumbisse ante as infinitas possibilidades de uma forma narrativa mais brilhante que a que nos oferece.

Bem-vinda sejam tanto aquela transcendência como esta dificuldade, e oxalá nossos leitores surpreendam também Imre Kertész dando corpo a uma interlocução em que o que não pensava quando escrevia O fiasco. Um romance especular que repete três vezes uma mesma obsessão: o de um autor em busca de sua obra. No centro desta myse en abîme está, precisamente, Giörgy Köves, o protagonista dos outros dois romances da trilogia. Mas ele é personagem de um velho romancista e primeiro destinatário de outro texto menor escrito por seu amigo Berg que se intitula “Eu, o carrasco...” onde não só se esboça, em clave memorialística, um assunto de envergadura: como apenas sem se dar conta uma pessoa pode converter-se num tirano. Semelhante argumento resulta uma variante a mais daquela terrível pergunta que Kertész se fez em Estocolmo: como a natureza humana pode-se revoltar contra a vida humana.

As duas referências mais úteis para reconstruir o horizonte literário de onde olha Kertész escreve são Franz Kafka e George Orwell e muitas páginas de O fiasco dão cumprida mostra de tão fecundas influências. Por uma vez o Nobel vem contradizer o que o título deste romance significa: o fracasso do escritor cujo romance é considerado impublicável por seus leitores da editora porque “a formulação artística da matéria de sua experiência não é a certa, embora o tema seja terrível e estarrecedor”.


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