Cisne Negro, de Darren Aronofsky

Por Pedro Fernandes



Os entendedores da dança dizem ser o Lago dos cisnes uma das peças mais difíceis de representá-las. Escrito sob encomenda do Teatro Bolshoi, em 1876 por Tchaikovsky e  libreto de Begitchev, a peça - que na sua estreia, em 1877, foi um fracasso pelas limitações dos dançarinos em não conseguirem captar o real drama do texto - e sua fama de dificuldade são como que intertextos para o filme de Darren Aronofsky. Está aí um nome da nova safra de diretores que ainda põe o cinema no seu status de arte. O exercício bem rabiscado em O lutador - outro filme importante na carreira do diretor - é levado à sua quase perfeição nesse Cisne Negro que, ironicamente ou não, é também um filme sobre os limites para se alcançar a perfeição. Parece-me que Aronofsky vem lendo a cartilha de Carl Theodor Dreyer, diretor famoso por explorar ao extremo seus atores na incorporação de seus papeis - famoso dele é o caso de O martírio de Joana D'Arc. A afirmação para esta comparação se dá pelo trabalho com que os protagonistas de O lutador e agora Cisne Negro são moldados; são eles tomados por uma avalanche de dramas psicológicos que os fazem personas densas, obsessivas e complexas, logo, personagens que devem exigir os limites de seus interprétepes.

Tomado pela ideia de inovação, Thomas Leroy, diretor de uma companhia de dança resolve encenar o drama de Tchaikovsky, pondo em cena uma mesma bailarina para representar as duas forças opostas d'O Lago - a princesa Odette e a feiticeira Odile. No papel, Nina, uma obstinada bailarina que foi modelada pelo sonho frustado da mãe e é presa a uma face ideal para a princesa e não para uma feiticeira. O filme é o trajeto da dedicação incondicional de Nina para incorporar a face negra do drama tchaikovskyano. Nina é levada ao extremo de sua personalidade para incorporar esse papel que passará a ser-lhe uma vida paralela à sua. A obsessão pelo papel conduzirá a personagem a desenvolver um alter-ego fazendo-lhe sujeito preso a uma malha de real-ficção, isto é, ensaiando um complexo jogo de espelhos entre um eu real e o eu ficcional. A chegada de uma nova bailarina na companhia em que Nina faz parte é a gota d'água. Tomada pela obstinação e pelo "medo" de perder o papel para a novata - que incorpora perfeitamente o cisne negro (Odile) - Nina faz dela a projeção do drama ficcional a ponto de ultrapassar todas as limitações impostas, as da sua mãe e as que ela desenvolveu ao longo de sua formação pessoal. Nina é tomada por um outro eu que lhe impulsiona a cumprir ações que vão soterrando sua inocência, meiguice e vulnerabilidade.

Marcado por um constante ir-e-vir da personagem, Cisne Negro não perde-se no roteiro. Faz-se coeso e disperso, coerente e incoerente na hora e medidas exatas. Outro elemento é sua fotografia. A transição de cores marcada pela iluminação forte no espaço da dança - campo de libertação da protagonista - e seu contraste nos espaços de privação, como nas cenas em que Nina está em casa ou na casa de Thomas, os jogos de espelhos, a mirada naquilo que sustém a bailarina, as sapatilhas, são elementos que contribuem para o amálgama do roteiro. Destaco ainda a trilha sonora. Esta consegue captar todos os movimentos psicológicos da protagonista e recupera desde logo uma ligação com o próprio balé, cujos movimentos da bailarina e a música são expressões unificadas. Também não dá para esquecer da atriz Natalie Portman, que consegue por na tela as duas dimensões da protagonista.

No mais, devo dizer que este filme é atravessado por uma sensibilidade poética que põe em cena dois lados de uma personalidade inerente a todo ser humano. É um filme sobre a capacidade humana de saber lidar ou equilibrar essas duas forças para alcançar a perfeição ou a ilusão dela naquilo que faz. Por tudo isso, é este sim um brilhante e impecável filme.



Comentários

Anônimo disse…
O filme é mesmo lindo e a protagonista nos prende a atenção. Me pegou de jeito desde a cena inicial e eu também gostei muito dos elementos psicodélicos, ela se transformando no próprio cisne negro, o lado obscuro da peça. Genial.

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