Lêdo Ivo




“Desde a infância eu desejava ser um poeta e escritor. A prosa das primeiras leituras me levava a viver aventuras nos mares do Sul – aos navios-piratas que desfraldavam uma bandeira negra, com uma caveira branca no centro, à busca de tesouros escondidos em ilhas desertas, a tempestades e naufrágios.”
Lêdo Ivo, O vento do mar

Falastrão. Este é o epíteto que colecionamos a partir de uma declaração do próprio Lêdo Ivo dada ao poeta pelo amigo João Cabral de Melo Neto. A história foi contada ao jornalista Geneton Moraes Neto numa entrevista feita há cerca de dez anos e agora publicada no seu blog: “João foi um grande amigo meu, mas tínhamos temperamentos diferentes. Enquanto ele ia para um lugar, eu ia para outro. Dizia que eu falava muito; achava que só a morte é que me reduziria ao silêncio.” Pela ocasião dessa amizade, João Cabral lhe escreveu um epitáfio:

Aqui repousa
Livre de todas as palavras
Lêdo Ivo,
Poeta,
Na paz reencontrada
de antes de falar
E em silêncio, o silêncio
de quando as hélices
param no ar

Aliado ao falastrão também outro epíteto, o de polêmico. Novidade nenhuma do segundo, porque ao que parece, quem muito fala também, em grande parte, incomoda. Sim, porque, o que polemiza é também o que incomoda. Mas, isso, antecipamos, é longe de ser algo negativo, mas adequado e necessário para todo aquele que escolheu a arte o seu lugar no mundo. E quando vozes assim silenciam, já sabemos, o mundo perde um pouco do estágio de lucidez – coisa sempre um tanto escassa, diga-se.

Lêdo Ivo é autor de uma obra monumental. Produziu em todos os gêneros: na prosa (crônica, conto, novela, romance, ensaio, literatura infanto-juvenil) e na poesia, seara na qual mais se destacou, constituindo-se um dos mais importantes nomes da poesia de língua portuguesa do século XX.

Uma prova? A reunião de todos os livros publicados entre 1940 e 2004. A Poesia Completa, editada como uma pequena biblioteca portátil, encerra as junturas que o próprio Lêdo Ivo começara a desenvolver desde Uma Lira dos Vinte Anos, publicação que reunia então os cinco primeiros títulos de poesia. A edição definitiva, em vida do poeta, diga-se, é belíssima. E é um bom começo para se inteirar da sua poesia. 

Dos poetas produzidos no Nordeste do Brasil, e não são poucos, está entre os nomes da chamada Geração de 1945, ajuntamento que ele mesmo ajudou a construir quando se propôs a pensar a poesia dissidente dos resquícios da Semana de Arte Moderna de 1922; Ivan Junqueira, quem trabalhou na organização da obra poética completa do alagoano, assinala que o poeta é o “principal fundador e mais legítimo representante” deste grupo e que os poetas desta geração são reacionários aos desmandos e equívocos do movimento modernista de 1922.

O homem vário, complexo e inquieto, para utilizar dos termos de Junqueira, nasceu em Maceió, em 18 de fevereiro de 1924, depois foi morar no Recife, onde se iniciou no meio literário. A cena literária nessa cidade, recorde-se, estava em plena efervescência: Aníbal Fernandes, Olívio Montenegro, Vicente do Rêgo Monteiro, eram nomes em torno dos quais se organizavam uma leva de jovens criadores em fase de despontamento. 

Obstinado leitor, como revela nas páginas de Confissões de um Poeta e, por isso mesmo, um autêntico autodidata e homem de letras. Talvez por isso tenha levado tempo no trabalho de burilar sua forma literária, para só estrear na literatura em 1944, quando publica uma “poesia desmedida, torrencial e de ritmos quase bíblicos”. As imaginações “já traz, bem ou mal, o timbre personalíssimo da dicção de Lêdo Ivo”, conforme ressalta ainda Ivan Junqueira. Na ocasião deste primeiro livro, havia se mudado para o Rio de Janeiro, cidade onde morou até o fim da sua vida, findada em 23 de dezembro de 2012, num restaurante em Sevilha, na Espanha.

João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira de Lêdo Ivo.  


Formado em Direito, nunca advogou. Num dos textos autobiográficos recolhidos em O vento do mar, organizado por Monique Cordeiro Figueiredo Mendes, revela que mesmo matriculado numa Faculdade de Direito, e decidido a formar-se, não queria ser advogado; “a profissão imaginária destinava-se a agradar a meu pai, antigo guarda-livros que fizera tantos sacrifícios para bacharelar-se, já cheio de filhos, pela Faculdade de Direito do Recife. Eu queria ser poeta”. 

Autodidata nas letras, exerceu também o jornalismo desde quando morava no Recife até quando foi para o Rio de Janeiro, profissionalizando-se no ainda restante mundo dos cadernos culturais e dividindo o trabalho com o da crítica e o da tradução – o escritor verteu para o português obras de escritores como Jane Austen, Maupassant, Rimbaud, Dostoiévski, entre outros.

Depois do livro de estreia, seguiu-se mais de duas dezenas de títulos no gênero, com destaque para Ode e Elegia, Acontecimento do Soneto (forma que praticou renovadamente em boa parte de sua criação lírica), Cântico, livro ilustrado por Emeric Marcier, Finisterra, Calabar (descrito como um poema dramático) e O Rumor da Noite

Como poeta, ganhou vários prêmios, incluindo o Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras para o segundo livro; e o Jabuti para Finisterra.

Como romancista, estreou em 1947, com As Alianças; depois veio Ninho de Cobras (considerado pela crítica seu melhor trabalho nesta forma literária), O Caminho sem Aventura, O Sobrinho do General e A Morte do Brasil. Nos contos, destaca-se por Use a Passagem Subterrânea, O Flautim, Um Domingo Perdido, entre outros, – e nas crônicas – A Cidade e os Dias, O Navio Adormecido no Bosque.

Lêdo Ivo escreveu ensaios sobre Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Raimundo Correia, Raul Pompéia, João do Rio, sobre poesia e o ofício do poeta. Também escreveu duas autobiografias, Confissões de um Poeta e O Aluno Relapso

Na literatura infanto-juvenil publicou O Canário Azul, O Menino da Noite, O Rato e a Sacristia e A História da Tartaruga.

Como se vê, pelo conjunto dos títulos citados e pelos deixados de citar, Lêdo Ivo foi também um falastrão das Letras, coisa rara entre os escritores brasileiros. Mas, como sublinha, Ivan Junqueira, que o define “opulento e às vezes desmedido”, é um autor que merece ser visto também “à luz do excesso e da magia retórica”.

Ligações a esta post
>>> No blog da Revista 7faces, aqui, pode ler poemas de Lêdo Ivo.

* Post atualizado em 28 de dezembro de 2012.

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