Olavo de Carvalho e uma curiosa análise do banditismo literário


Por Rafael Kafka

© Matt Mullican


O guru da direita conservadora brasileira possui posições bem curiosas em seu livro O imbecil coletivo. Algumas delas estão ligadas à questão da segurança pública, como não poderia deixar de ser diferente. Lendo o que pude ler desse livro, ficou evidente para mim o motivo de tantas pessoas defenderem a ideia de a esquerda sentir empatia por crimes e por isso defender tanto aqueles que os cometem, como se fosse a mesma coisa defender uma sociedade pautada em direitos humanos e que as pessoas saiam por aí de forma impune cometendo barbáries.

Antes que me perguntem se ando com tempo excessivo para gastar lendo textos de Olavo, respondo ser importante nos permitirmos dentro de nossos tempos apertados esse exercício de crítica para fugirmos um pouco de uma maldição que um personagem de Bertolluci fala: a de que só conseguimos falar com quem pensa igual a nós. Após as eleições eu criei a ideia de me permitir ler textos de pensadores que fogem pouco ou muito de meu espectro de pensamento. Até então, eu só fizera isso com Albert Camus e Milan Kundera, os quais, pelo existencialismo, não fogem tanto assim de minhas reflexões. Não coloco também Mario Vargas Llosa, pois tirando o recém lido A civilização do espetáculo, os livros dele lidos por mim, todos, ainda fazem parte de uma visão marxista sua com profunda capacidade de análise de fatos sociais.

Portanto, havia em mim um compromisso leitor no tocante a entender o que levou o discurso reacionário a tomar conta do cenário político brasileiro e decidi-me a ler esse autor. Confesso que minha resistência intelectual durou 200 páginas, pois há um excesso de sofismo no pensamento de Olavo irritante e que gerou em mim uma profunda dúvida: alguém é estúpido desse jeito ou é uma desonestidade intelectual sem escrúpulos a um nível absurdo? Pergunto isso, pois dentre as teses defendidas nos artigos compilados em O imbecil coletivo há a curiosa visão de que a esquerda colaborou com os perigos sociais de nossos tempos ao escrever sobre eles em tom apologético, exaltador. Isso ajuda a entender o ódio que muitos estão sentindo com o nem estreado ainda Marighella, de Wagner Moura, vendo no longa uma pura e clara exaltação do líder guerrilheiro, numa extensão bizarra do discurso da escola sem partido para o âmbito das artes.

O mais curioso desse discurso olavista é o fato de que ele consegue colocar no mesmo bolo gente como Jorge Amado e Nelson Rodrigues, o primeiro um comunista contemporâneo a Marighella, também com mandato eletivo cassado; o segundo, o mais típico reacionário de nossa literatura. Mas a lógica de Olavo é bem tortuosa mesmo para nós meros mortais.

Jorge Amado e Nelson Rodrigues escrevem sobre crimes com propósitos diferentes. Amado tinha uma preocupação social em suas obras e por isso mesmo seu foco era nos marginais. Prostitutas, batedores de carteira, menores infratores se tornam figuras humanizadas ao mesmo tempo em que um cenário de opressão social marcado pelo latifúndio e outras formas de exploração tipicamente brasileiras servem de pano de fundo. Não há em Jorge Amado uma heroificação do crime e sim uma reflexão em forma de romance dos aspectos sociais envolvidos nas práticas criminosas.  Todavia, leitores como Olavo parecem ignorar os preceitos postos sobre o romance por Kundera em seus Testamentos traídos e em sua Arte do romance, conjuntos de ensaios pouco comentados, mas muito interessantes para entendermos o amor do escritor tcheco por esse gênero de literatura – ele que tenho descoberto ser um grande contista também com seus Risíveis amores.

Kundera em seus textos mostra o romance como uma forma de reflexão que transcende os ensaios e tratados filosóficos, pois o romance está além e aquém daquilo que o autor quer nele colocar. Isso significa ser o romance um tipo de escrito inviável para a pura apologia ou para o puro insulto. Nele temos diversas camadas de discurso, de significados, de formas de ser convergentes em enredos mais ou menos ricos, mas sempre com algum grau de abertura ou polifonia para falarmos como Bakhtin e Umberto Eco. Nesse sentido, por mais que um escritor queira fazer de sua obra um discurso panfletário ele não consegue e o engajamento do texto se dá mais pelo modo como o escritor escreve e mostra a realidade, como diria Sartre, mas sem esquecer, como o mesmo Sartre disse, que o escritor sempre conta com o empréstimo do leitor de seu mundo subjetivo para preenchimento do vazio da obra.

A literatura, mesmo que usando uma mídia diferente, incluir-se-ia dentro daquilo que Scott McLoud chama de “arte invisível” quando fala dos quadrinhos. A leitura das HQs se dá nos espaços vazios entre um quadro e outro, com o leitor fazendo da conclusão, ou inferência no linguajar da linguística aplicada, o texto se tornar algo vivo com os fechamentos mais simples de ações e dos mais complexos que exigem olhar mais acurado do quadro. Sabendo disso, podemos dizer que nenhuma obra consegue passar plenamente sua visão para o leitor e poderíamos inclusive dizer que somente o escritor saberia dizer qual era afinal a visão que ele queria passar.

Os bons geralmente dizem que só queriam contar uma história, uma provocação literária mesmo. Nelson provavelmente conta histórias de crime para explorar em seu existencialismo mais reacionário os matizes envolvendo crimes os quais todos os dias estão nas páginas de nossos jornais, e ele era um sujeito apaixonado pelo modo de contar histórias de modo mais sensacionalista, mexendo com a imaginação dos leitores. Nesse sentido, Nelson, além de ter o reacionarismo a seu lado em sua defesa da crítica absurda de Olavo, é apenas um indivíduo preocupado em expor as visões que em sua mente afetam os crimes testemunhados. Claramente precisamos debater alguns aspectos chauvinistas de seus textos, mas a riqueza de detalhes e a dimensão poética colocadas por ele em peças, contos e romances, em sua tentativa de mostrar a vida “como ela é” nada tem a ver com o aumento da ocorrência de crimes nas grandes cidades brasileiras nas últimas décadas.

Nelson e Jorge são colocados em um mesmo bolo por Olavo, pois esse é um leitor conservador de filosofia. Em algumas páginas de O imbecil coletivo, ele tece louvores a Hurssel e diz que Sartre é uma versão piorada do mestre. Rejeição similar sempre vi ao ver Heidegger, mesmo com seu envolvimento com o nazismo sendo muito citado na academia e Sartre sendo ignorado e o motivo sempre me soou o engajamento político e cultural maior do companheiro de Simone de Beauvoir, enquanto os outros dois pensadores possuem uma filosofia que do alto da minha ignorância eu poderia considerar mais “metafísica”.

Olavo tem uma leitura conservadora similar em alguns pontos ao mundo acadêmico esquerdista por ele criticado. Parece ter em sua crítica a Sartre, não formulada nos textos lidos por mim mas sempre ali nas citações com adjetivos pejorativos, um sintoma de reacionarismo a todo tipo de filosofia prática. Cita autores da literatura e da filosofia clássicas que abordam temas tidos como universais e a todo instante critica a cultura de massa ou oriunda dos povos pretos como inferior, admitindo sem pudor um imenso tesão única e exclusivamente pelos produtos culturais com afetado da Europa.

Por mais amor que haja por mim em relação à nona sinfonia de Beethoven, essa visão rasteira e envelhecida da arte, como produto de mentes brilhantes ocupadas demais com os tais temas universais despreocupadas da militância política tola de nossos tempos, é patética ao extremo. Mesmo criticando os iluministas, Olavo possui um tipo de argumento usado por mim em meus processos iniciais de letramento mais aprofundado quando eu lia Nietzsche e Schiller e acreditava que a arte por si só bastava, salvando-nos de nossa miséria cotidiana. A estupidez desse argumento se revela em juízos de valor aos quais subjaz uma noção a-histórica dos produtos culturais.

O modo “contemplativo” que idolatramos dentro da cultura europeia é produto do humanismo, corrente de pensamento do Renascentismo cultural, a qual valorizava as obras produzidas pelo sujeito homem europeu. Com esse ideal, os povos da Europa invadiram outros territórios e enquanto pilhavam as populações dessas regiões passaram a infundir suas crenças e visões como as humanistas, as corretas, as racionais, afetando profundamente até hoje o modo como tratamos as religiões africanas, por exemplo. Olavo e seus seguidores super valorizam uma arte “universal” que na verdade é historicamente localizada.

Ao lado desse ideal conservador, há a falta de leitura acerca de temas sérios como a desigualdade social e suas causas e consequências. Se há essas leituras, elas são deturpadas por ignorância ou desonestidade e falar da pobreza e suas mazelas vira automaticamente defender a criminalidade, fazendo do banditismo uma bandeira de esquerda, mais uma, mesmo que nesse argumento absurdo estejam unidos figuras de pólos opostos como Nelson Rodrigues e Jorge Amado.

Penso que os textos de Olavo de hoje em dia poderiam facilmente focar em séries como Fargo, Peaky Blinders, Breaking Bad / Better Call Saul e clássicos do cinema como Era uma vez na América e O Poderoso Chefão para dizer que tais obras são uma exaltação de tudo o que há de mais podre e brutal em nossa sociedade e não reflexões audiovisuais sobre aspectos importantes de nossa existência os quais mostra que a fronteira binária e maniqueísta entre bem e mal é falha demais para entendermos a gama de fatos de nosso meio social. Pelo nível de amor por uma visão “humanista e universal” e a falta de vontade de estudar a sério temas políticos que soam “militância partidária” fica muito lógico em minha mente esse caminho.

(Por sinal, esse texto seria sobre a maravilhosa Peaky Blinders, mas o que seria um parêntese sobre o guru da direita reacionária acabou virando um texto por si só. Descaminhos interessantes esses da escrita dentro de uma mente inquieta, que me fazem pensar que ganhei mais dois temas para as próximas semanas: a boa série estrelada por Cillian Murph e esses descaminhos que muitas vezes revelam serem as estradas vida, e da escrita, pequenas e poucas demais para o nosso desejo de falar do mundo e seus encantos e mistérios.)

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