Boletim Letras 360º #354



Entre os dias 20 de dezembro e 20 de janeiro, o ritmo de atividades do Letras in.verso e re.verso será reduzido; entraremos em modo relax para pensar melhor o ano que termina e o ano que começa. Aproveitamos a ocasião para dizer que nossas listas de Melhores de 2019 sairão online na quinta-feira, 26 de dezembro. Os que acompanham o blog sabem que nossa data ideal para tal feito é sempre o último dia do ano, mas desta vez são as possibilidades que não deixarão isso acontecer. Então, esteja atento! Abaixo, acompanhe as notícias divulgadas durante a semana em nossa página no Facebook. Boas leituras. Boas festas! Vivam muito!

Ingeborg Bachmann. Sua obra poética ganha edição pela Todavia Livros.


Segunda-feira, 16 de dezembro

Nova edição de Escritos de Antonin Artaud

Maldito, marginalizado e incompre­endido enquanto viveu, encarnação máxima do gênio romântico, da ima­gem do artista iluminado e louco, Ar­taud passou a ser reconhecido depois da sua morte como um dos mais mar­cantes e inovadores criadores do nos­so século. Tudo o que, aos olhos dos seus contemporâneos, parecia mero delírio e sintoma de loucura, agora é referência obrigatória para as mais avançadas correntes de pensamen­to crítico e criação artística nas suas várias manifestações: teatro, arte de vanguarda e criações experimentais, manifestações coletivas e espontâneas, poesia, linguística e semiologia, psica­nálise e antipsiquiatria, cultura e con­tracultura. Neste volume da Coleção Rebeldes & Malditos, o poeta Claudio Willer apresenta ao leitor brasileiro um precioso painel da obra de Anto­nin Artaud (1896-1948), na forma de uma antologia que pretende dar uma visão ampla da sua obra e de suas inúmeras manifestações.

Morreu Modesto Carone

Paulista de Sorocaba, Modesto Carone nasceu em 1937. Escritor e ensaísta, ensinou literatura nas universidades de Viena, São Paulo e Campinas. Publicou ensaios, contos e uma novela, entre eles, As marcas do real, Aos pés de Matilda e Dias melhores. Por Resumo de Ana, ganhou, em 1999, o Prêmio Jabuti na categoria romance. Começou a traduzir a obra de Franz Kafka em 1983. Dele, publicou obras fundamentais como Um artista da fome/ A construção, A metamorfose, O veredicto/ Na colônia penal, Carta ao pai, O processo, Um médico rural, Contemplação/ O foguista, O castelo e Narrativas do espólio, todos pela Companhia das Letras. Recebeu o prêmio APCA 2009 de melhor livro de ensaio/ crítica por Lição de Kafka.

Terça-feira, 17 de dezembro

O artista pluridisciplinar Fernando Lemos morreu em São Paulo

Fernando Lemos nasceu em Lisboa a 3 de Maio em 1926. Estudou Arquitetura e Design, deu os seus primeiros passos artísticos no muralismo, tendo depois começado a fotografar na década de 1940. Ficaram para a história das artes portuguesas do século XX, e da sua vanguarda artística dos anos 1950, os seus retratos dos amigos realizados entre 1949 e 1952 — pintores, escritores ou intelectuais como Jorge de Sena, Casais Monteiro, Sophia de Mello Breyner, Alexandre O’Neill, António Pedro e Mário Cesariny — e as suas ligações ao movimento surrealista. Residiu a maior parte da sua vida no Brasil, tendo-se naturalizado brasileiro. Aqui, o trabalho mais conhecido de Fernando Lemos é o ensaio realizado com a poeta Hilda Hilst publicado em livro em 2018 pela SESC-São Paulo. O livro trouxe ainda colagens suas sobre as fotos originais. No Tumblr do Letras, podem encontrar oito dessas fotografias.

Quarta-feira, 18 de dezembro

A trajetória do romance de formação no século de ouro da narrativa europeia.

Neste livro extraordinário, Franco Moretti analisa o surgimento, o auge e a decadência do romance de formação, “forma simbólica” de uma modernidade fascinante e perigosa, na qual os representantes nada heroicos da nova classe média europeia buscam responder a uma questão fundamental: é possível uma vida feliz e com sentido? Sob o impacto da Revolução Francesa, Goethe e Austen buscam o difícil equilíbrio entre a liberdade individual e os constrangimentos da sociedade. As guerras napoleônicas abrem novos rumos para a prosa do mundo, e Moretti nos mostra que os heróis de Stendhal e Púchkin já não se adaptam aos ideais da “normalidade”. A rebelião torna-se um dever, e a juventude deve lutar contra os valores de um mundo “maduro”, porém medíocre. Quando as ilusões são perdidas, os heróis de Balzac aprendem em Paris as duras regras do jogo do mercado. Os personagens de Flaubert buscarão, no caos da guerra civil ou no tédio da vida provinciana, algum sentido para suas vidas vazias. Na Inglaterra a história é outra: nos romances de Fielding a Dickens, a “formação” não é mais o objetivo dessas “pessoas comuns”, que esperam da vida apenas “justiça”, sem transtornos nem revoluções. O gênero ainda respira nos jovens heróis de Musil e Mann, Conrad e Joyce, que lutam para sobreviver a professores sádicos, idealizando a infância e desprezando o inabitável mundo dos adultos. Um mundo que explodirá em 1914, destruindo os pressupostos estéticos e sociais do romance de formação e deixando ao leitor uma pergunta incômoda: é possível buscar ainda algum sentido para a vida, em meio aos traumas e às ruínas do mundo contemporâneo? A tradução de Natasha Belfort Palmeira para O romance de formação sai pela Editora Todavia.

Pela primeira vez no Brasil, a antologia de uma das maiores vozes da língua alemã no século XX.

A austríaca Ingeborg Bachmann teria assistido às tropas nazistas marcharem pela sua cidade quando tinha apenas onze anos. A vulgaridade da linguagem do Reich e a desolação causada pela guerra marcaram sua produção. Neste volume com poemas selecionados e traduzidos por Claudia Cavalcanti (que também assina o posfácio), a obra da autora ressurge com toda sua força. Os poemas assombram pelas imagens inusitadas e por uma dicção que, embora pareça por vezes complexa, busca a pureza na representação tanto do mundo exterior quanto de aspectos da interioridade do ser humano. Escritora que a certa altura abandona as profundas inquirições da poesia para se dedicar à ficção, Bachmann parecia saber que a linguagem ― esse artefato criado pelo ser humano ― pode ser capaz de construir mundos. E também de aniquilá-los. A tradução de Claudia Cavalcanti sai pela Editora Todavia.

Quinta-feira, 19 de dezembro

Obra de Susana Thénon ganha tradução e publicação no Brasil.

Nascida em Buenos Aires no ano de 1935, a poeta Susana Thénon foi contemporânea de Alejandra Pizarnik e Juana Bignozzi, e publicou cinco livros de poemas, sendo Ova completa (1987) o último e o mais diferente de todos. Nos seus primeiros livros, predominou a voz lírica da Thénon leitora e tradutora de Rilke. Neste último, por outro lado, nota-se a presença de uma poética cheia de subversão em relação ao cânone literário, ao machismo, à autoridade, e aos elementos que constituem certa noção de argentinidade – nos seus poemas estão embutidas paródias de famosos tangos argentinos. Quando cursava Letras na Universidade de Buenos Aires, Susana se divertia traduzindo tangos ao latim, adiantando a irreverência da sua poesia, que não hesita em aproximar cultura erudita e popular. É Strauss que vira, em seu jogo de palavras e non sense, o neologismo “estrusse”, passando antes por estresse e strass. É a Valsa lírica e dançante – precisa-se de dois para dançar? e quais dois? – que se transforma em uma crítica ao patriarcado. Pouco se sabe da vida da autora, que preferia não participar de reuniões sociais e literárias. Susana Thénon sempre foi reservada quanto a sua homossexualidade, embora tenha vivido grande parte de sua vida ao lado da coreógrafa e bailarina Iris Scaccheri. Em um dos poemas memoráveis deste livro, entretanto, ela escreve: “Sem seus ocos nos meus ocos / sem suas sombras nas minhas / sem dedos com que batucar / o tambor da agonia // se você dormisse em Ramos Mejía / amada minha / que confusão seria”. Thénon é direta e, talvez por isso, mais claramente política do que outras poetas de sua geração. É alguém que tem algo urgente a nos dizer; mas o faz sempre de forma inesperada. A tradução de Angélica Freitas sai pela Editora Jabuticaba.

Livro de Carla Diacov chega ao Brasil em 2020

A menstruação de Valter Hugo Mãe foi publicado pela primeira vez em 2017, em Portugal, pelo escritor português Valter Hugo Mãe em seu projeto não-comercial Casa Mãe. Neste livro, Carla Diacov retoma o sangue menstrual de suas pinturas e traça uma linhagem de poemas em que o feminino, que aqui não se relaciona necessariamente ao sexo, se torna motor, fogo e papel em constante combustão, em um diálogo intenso e vermelho com os romances de Mãe. Para o crítico Marcelo Reis de Mello, em suas notas sobre o livro no site Escamandro, “o signo do sangue, seja por via das “aquarelas” ou dos versos vermelhos deste livro, devém aqui como estratégia de abertura. Abertura dos significados aos quais gostaríamos de nos agarrar, mas que acabam cedendo, vazam, como se os próprios poemas fossem uma espécie de resíduo fecundante porém não fecundado de um óvulo, como se as palavras fossem de algum modo tão inúteis (frente a uma visão de 'vida útil' e organizada: um 'ciclo reprodutivo') e sobrassem, sanguinolentos, apenas alguns versos torcidos entre discretos coágulos – este vermelho que lava, que leva consigo uma certa ideia de humanidade, este sangue – não o sangue do meu sangue – mas este, o filho possível”. O livro sai pela Editora Macondo.

Sexta-feira, 20 de dezembro

Livro revisita a trajetória de Massao Ohno como editor

A ideia de fazer um levantamento sobre a produção editorial de Massao Ohno veio a José Armando Pereira da Silva depois da homenagem prestada pelo Instituto Moreira Salles pelos seus 45 anos de atividade, em dezembro de 2004. Estima-se que Ohno editou cerca de mil obras e o pesquisador foi à cata peça a peça para pensar a edição agora apresentada e, antes disso, reunir todos os trabalhos do editor através do projeto “Massao Ohno. Arte em todas as páginas”. Massao Ohno, editor é editado pela Ateliê Editorial e privilegia diversas fases criativas do criador: a das edições entre 1960 e 1964, anos em que ele concentrava em sua oficina o inteiro processo de criação, do desenho à impressão, e coincide com o surgimento dos poetas da Geração 60; ao retorno em 1976 na Feira de Poesia e Arte, a associação com a editora Civilização Brasileira e sua reaproximação com autores do Rio de Janeiro até o fim dos anos 1990.

DICAS DE LEITURA

1. Os donos do inverno, de Altair Martins. O escritor gaúcho revisita dois topos literários neste romance: o da relação entre irmãos e do duplo. Elias e Fernando, as duas personagens da narrativa principal são irmãos que se evitam há vinte e quatro anos. Como a vida não é feita, curiosamente, apenas das escolhas que fazemos, o acaso colocará essa distância em crise. Aos temas já evidenciados acima, Martins recupera um modelo narrativo levado ao limite pelos romancistas da geração Beat – se pensarmos em títulos como On the road, de Jack Kerouac – para organização dessa trama: Elias e o taxista Fernando vão correr o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina para realizar o sonho do falecido irmão: levar os ossos do jóquei C. Martins até a grande noite do turfe em Buenos Aires. O livro foi publicado pelo selo Não Editora, da Dublinense.

2. Moedor de carne, de Eduardo Lisboa. Os 64 textos reunidos neste livro percorrem e recontam situações das mais triviais. Propositalmente repetitivo na maneira como nos apresenta suas personagens – um traço distintivo do estilo minimalista – o que se observa é uma tentativa de captar o cotidiano por aquilo que o é: uma complexa integração de situações que são, quando vistas de perto e na sua repetição, completo absurdo. Isto é, estamos diante de um conjunto de observações muito agudas do nosso mundo cujo interesse é sublinhar que as fronteiras entre o que designamos como verdade das coisas se situa entre o fato e imaginação. A saída desse universo nos coloca em choque com o nosso próprio universo e essa uma força formidável que coloca este livro entre os feitos para permanecer em nós porque capazes de refundar nossa visão da grandiosidade das nossas insignificâncias, isto é, do repetível milagre de estarmos vivos. O livro foi publicado pela Humana Letra.

3. As verdadeiras riquezas, de Kaouther Adimi. A escritora franco-argelina chega à primeira vez ao Brasil com este romance descrito como portador de uma narrativa vertiginosa que recria os anos de efervescência cultural de Edmond Charlot. Quem não conhece esta figura sabe já agora que foi fundador da livraria e editora cujo título é desse romance de Adimi. O lugar foi espaço de resistência frente à ascensão nazista e, mais tarde, durante a Guerra de Independência da Argélia. Foi por esta casa editorial que Albert Camus e muitos outros intelectuais desse período de riquezas publicaram seus primeiros trabalhos. Resultado de uma vasta pesquisa que deu à escritora o lastro para a composição de seu romance / crônica biográfica, este é um romance que revisita o existencialismo e o engajamento por ângulos muito próprios. A edição é da Rádio Londres.

VÍDEOS VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. Durante a semana, o leitor que acompanha o blog assiduamente pôde encontrar uma linha de homenagem ao livro O arado. Publicado pela Livraria São José, no Rio de Janeiro, em 1959, este que é um dos trabalhos mais sofisticados da poesia de Zila Mamede celebra seis décadas da sua primeira edição. Em 2019, passou-se o centenário da poeta brasileira. Na nossa galeria de vídeos no Facebook disponibilizamos uma longa entrevista com Zila gravada nos estúdios da TV Universitária do Rio Grande do Norte em 1982. Nela, a poeta repassa temas, lugares da sua memória biográfica e da sua obra. 

2. No blog da Revista 7faces, o leitor encontra quatro poemas de O arado, de Zila Mamede, incluindo os sonetos “Bois dormindo”, lido por Carlos Drummond de Andrade como “duas coisas de grande classe”. A poeta foi homenageada na primeira edição deste periódico. E o número pode ser acessado aqui.

3. No último dia 17 de dezembro passou-se o aniversário de nascimento de Erico Verissimo. Autor de vasta obra desenvolvida sobretudo no campo da prosa com romances que marcaram em definitivo a literatura brasileira como a saga O tempo e o vento (1949-1962), também desenvolveu interesse pela poesia. Nesse gênero, foi hábil praticante do haicai, poema de origem japonesa. No blog da Revista 7faces encontram quatro haicais de Erico Verissimo

BAÚ DE LETRAS

1. Em 2008, o blog copiou o texto de Paulo de Tarso Correia de Melo apresentado na edição de Navegos / A herança, publicado pela Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Dividido em várias sequências, nesse itinerário, o leitor pode ter contato com o trabalho da poeta Zila Mamede.

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