A síndrome Paul Auster

Por Malcolm Otero Barral

Paul Auster Foto: Andrews Liechtenstein


 
Se entendermos a ficção como uma convenção entre o criador e o leitor ou espectador, a verossimilhança não é, em si, um valor. Enquanto existe uma espécie de acordo tácito entre ambos, o grau de semelhança com a realidade é irrelevante se o destinatário aceita o engano, se ele se deixa levar. É, portanto, tolerável, deste ponto de vista, que Paul Auster faça com que o menino protagonista de seu romance Mr. Vertigo tenha a capacidade de voar. No entanto, há uma característica que os seus críticos sublinham como meramente definidora e que é, ao meu ver, o ponto fraco de quase toda a sua obra e um vício que se revela contagioso: o abuso do acaso. Não há nada mais complicado do que juntar acontecimentos casuais. Essa concatenação de eventos aleatórios supõe quebrar esse contrato implícito com o leitor e negligenciar a mínima decência narrativa.
 
Ele mesmo se defende dessa acusação no Dossiê de Paul Auster (Gérard de Cortanze) contrapondo o acaso à linearidade e nos alertando para o que todos já sabíamos: que a vida é cheia de momentos aleatórios que marcam o curso de nossas vidas. Mas sua desculpa se aproveita da ambiguidade dos termos. Todos nós entendemos que as histórias, como a vida, são cheias de contingências e que o fato de um personagem ser morto por um carro ou ser salvo de um acidente por um atraso circunstancial é perfeitamente razoável. O que não é admissível é que a narrativa avance e se resolva por eventos fortuitos que alteram grosseiramente seus elementos fundamentais. Se, além disso, o autor transforma a história em uma hipérbole do “efeito borboleta” pelo qual tudo se relaciona, o que obtemos é um texto em que não é necessário aprofundar os efeitos causais extremamente complexos, que são substituídos pelos casuais.
 
Quase todas as suas obras são exemplos dessas deficiências, desde Palácio da lua, de mais de trinta anos atrás, onde uma coincidência leva o órfão Marco Stanley a descobrir que o velho que ele contrata é na verdade seu avô, da maneira como que as peças se juntam em Sunset Park.
 
Agora, é verdade que ele não é o único. Guillermo Arriaga, o novo roteirista de três filmes de Alejandro González Iñárritu e mesmo o diretor, é considerado um dos talentos mais deslumbrantes do cinema latino-americano. E, se existe algo que demonstrou certa genialidade ao unir histórias desconexas por detalhes aleatórios (novamente o “efeito borboleta”), é em uma de suas produções mais famosas, Três enterros, onde vemos mais claramente a síndrome de Paul Auster. Um resumo sucinto de alguns trechos da trama serve de amostra: um policial de fronteira atira em um estranho e, feliz coincidência, esse estranho acaba sendo o homem com quem sua esposa o traía. Esse mesmo policial espanca severamente um imigrante ilegal que tenta atravessar a fronteira para os Estados Unidos. Numa viagem posterior ao deserto mexicano, o policial é picado por uma cascavel e, então, mais coincidências, a mulher que o cura é a mesma migrante cujo nariz ele quebrou.
 
Mas há muitos outros autores que fazem truques com o acaso. E ao abordar brevemente a crescente infantilização da literatura e a simplificação dos filmes de sucesso, já se vê que é uma fórmula de sucesso.
 
Paul Haggis, em 2004, impressionou o público e a crítica com seu filme Crash. O filme era um compêndio de todos os conflitos possíveis na cidade de Los Angeles: racismo, raiva, falta de comunicação... Um daqueles filmes que nascem de vez em quando e que fingem ser uma radiografia de todos os nossos males. Agora, para tantos sentimentos diferentes caberem em duas horas de filmagens, ele teve que abusar do aleatório. Em uma área metropolitana de mais de quinze milhões de habitantes, os personagens, de todas as esferas da vida, se reúnem sem parar com o único propósito de levar a ação adiante. O espectador, banhado em lágrimas pela morte a tiros de uma menina ou pelo resgate de uma mulher ferida do incêndio, não percebe o quão exageradas são as conexões entre os personagens.
 
Os defensores do “efeito borboleta” e desse uso excessivo do casual costumam argumentar que o mundo é muito pequeno e usam teorias como a do café e dos seis graus de separação com outro ser humano na terra. E sim, a teoria funciona quando a pessoa escolhida é Barack Obama ou Bill Gates, mas falha miseravelmente se procurarmos nossa relação com um camponês da Estremadura ou de uma aldeia de Lugo.

A vida é infinita e confusa e a ficção tem, entre outras missões, a de encapsular, ordenar e interpretar a realidade em poucas páginas ou em alguns centímetros de celuloide. Explicar o que acontece com os personagens sem mais vínculos do que o acaso torna as coisas mais fáceis para o autor, mas viola a regra do devido porquê das coisas ao leitor ou espectador.
 
* Este texto é a tradução livre de “El síndrome Paul Auster”, publicado aqui, em Letras Libres.

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