Nasci sem um caminho de volta, de Raimundo Neto

Por Sérgio Linard

Raimundo Neto. Foto: Editora Moinhos.


 
Uma crítica comum a livros de literatura contemporânea é a de certo excesso com o uso dos materiais ou das temáticas sobre as quais os autores desejam discorrer em sua prosa ou poesia. Ainda que façamos considerável ponderação sobre a potencial resistência que por vezes atinge parte da crítica literária, há de se considerar que esse apontamento não é de todo infundado, posto que não são raros os casos em que a demanda por pautas específicas ou por formas momentaneamente elogiadas acabam fazendo com que o compromisso com a literatura seja deixado de lado em resposta a um compromisso social e/ou acadêmico. Sim, acadêmico, afinal, não é novidade o fato de um ou outro escritor, conhecendo os principais elogios da crítica especializada — porque em largo exemplo de casos faz parte dela —, recorrer a textos vazios de sentido em nome de pura e simples hermeticidade, a fim de reclamar autoridade técnica sobre seus escritos. O engodo do “bom porque difícil”.
 
Nessa esteira de produção, tem-se com mais ênfase a recorrência, por exemplo, a construção de personagens — pensando em obras em prosa — que demonstra considerável aprofundamento e que permite, desde a superfície textual, a percepção de alguns enfrentamentos de ordem psicológica, posto ter sido essa uma temática que ganhou mais presença nas reflexões humanas nos últimos anos. Os traumas vividos, as alegrias, as dores, as rupturas, as saudades, os encontros etc. passam a ganhar maior destaque não somente como eventos dentro da narrativa; contrário a isso, o leitor é convidado a refletir sobre como pequenos e, aparentemente, insignificantes acontecimentos podem ter desencadeado comportamentos no tempo presente. Essa construção faz com que, ocupando o lugar de leitores, sejamos convidados a agir como possíveis terapeutas daqueles personagens a fim de entendermos de forma mais verticalizada o porquê de suas atitudes. Isso gera, de forma natural, um sem-número de figuras que se encaixariam dentro de uma perspectiva melancólico-depressiva porque voltam-se para problemas do Eu de uma forma até mesmo obsessiva.
 
No entanto, o narrador-personagem de Nasci sem um caminho de volta está mais próximo de alguém que vive a confusão de uma liberdade externa ao passo que narra, de forma bastante melancólica, suas prisões internas. Assim como em um poema, em que a figura do escritor precisa ter cuidado com o manejo da linguagem para apresentar uma tônica adequada que atenda às demandas de seu projeto estético, na obra romanesca é de extrema importância que o autor saiba da necessidade de se preocupar com a tônica e o ritmo da história que se propõe a apresentar. Iniciar com um ponto alto da narrativa é uma forma interessante de manter o leitor atento àquele material, mas isso pode acabar se mostrando um equivocado caminho porque aumenta a expectativa, enquanto o principal já foi entregue. Um daqueles casos em que a ordem dos fatores pode alterar o resultado. Pois bem, é isso o que ocorre com este romance do autor piauiense Raimundo Neto.
 
Com foco narrativo em primeira pessoa, o protagonista inicia sua história com a apresentação de vários abusos por ele sofrido, com destaque para a violência sexual de um estupro coletivo. A narração é construída com uma certa riqueza de detalhes que faz com que a ojeriza seja quase palpável; um ponto muito positivo para o escritor. Esse abuso sexual não teve uma limitação temporal e única, pois aconteceu mais de uma vez, em tempos e momentos diversos, o que faz com que a história deste protagonista seja perpassada por esse trauma — e por outros que serão acrescidos à medida que avançamos na leitura. É um bom começo, destacadamente porque deixa claro que as escolhas formais do autor não estão ali aleatoriamente e que fazem parte de uma consciente opção por construir interrupções e gerar alguma poeticidade por meio de curtos períodos muito parecidos com versos brancos e livres de um poema moderno. Aqui o convite é para contemplação do horror que acomete o homem, diferente do que comumente se faz nas escolhas contemplativas em que a ideia é a de observação de alguma beleza.
 
Então, como que envolto eu uma “racional misticidade”, o narrador passa a comparar sua vida com a casa em que mora com familiares: avô, avó, mãe e tias. Aquilo que acontece na residência parece acontecer igualmente com ele e vice-versa, traçando um paralelo com a ideia da cristandade de corpo-templo, porém, com a divergência de que, aqui, a violação de ambos tem livre passagem. É como se ela, a violação, fosse uma simples visita:
 
“Eles avançavam sobre o que eu guardava, comida, bondade, certeza e confiança, arrastando os pés pesados, ciscando a sujeira acumulada nas beiradas do meu corpo. Ao terminar a visita, eles cuspiram e jogaram minha carcaça esvaziada no chão, limparam os pés no pano de chão imundo, corpo e esperança, e saíram. Antes de seguir, sem olhar para trás, um deles atirou algumas palavras afiadas na escuridão que começava a impregnar os vazios abertos da casa de paredes fendidas, portas abertas, teto capenga: Se você contar pra alguém, já sabe o que acontece, bicha. É assim que se ama: sangue, cuspe, uma casa vazia, aberta em vazamentos?”¹
           
É facilmente observável, a partir do excerto acima, que há em Nasci sem um caminho de volta uma escolha por adjetivação dos atos e dos objetos envoltos na narrativa que fazem com que todos estes tenham ares e importâncias de um personagem vivo. A casa metamorfoseada em corpo é figura incontornável que, por sua vez, entranha-se na vida do jovem rapaz de modo a se tornar o seu próprio casulo. Naquela casa, onde ele deveria ter recebido as primeiras experiências de amor, recebeu abusos que o fizeram questionar o que seria amor, imaginando que seria um vazamento de uma casa vazia. Acompanhamos, assim, a formação de cada detalhe destes traumas, considerando, claro, que chega à tela do texto somente aquilo que o narrador em primeira pessoa permite que chegue.
 
A escolha desse excerto, aqui, ocorre exatamente porque ele pode servir como uma pequena maquete daquilo que o leitor potencialmente encontrará no romance. Detenhamo-nos nele mais um pouco. Além de elencar o estupro como uma visita à sua casa-corpo, chama atenção o uso da ideia de vazios. São vazios de uma parede rachada, em uma casa vazia, aberta a vazamentos. Tudo isso cortado por palavras afiadas na escuridão. Ora, aqueles que por algum motivo não possuem caminho de volta é porque não possuem uma terra-natal, um suporte, um apoio um mapa de regresso. O destino é sempre à frente, porque voltar não é uma opção. Reorganizar, refazer, repensar, replanejar são verbos que não constituem o vocabulário de pessoas assim. O caminho de volta é tão vazio que nem mesmo o ato de olhar para trás é possível, na perspectiva do narrador, por aquele que o abusa.
 
As paredes da casa vazia, importa destacar, já fendidas e já rachadas — logo com um espaço vazio entre elas —, são preenchidas novamente por vazios abertos.  E é esta a história do romance em tela: alguém prenhe de vazios, preenchendo tais vazios com mais exemplares deles. E, então, o romance começa a se esvaziar.
 
Na busca por demonstrar as múltiplas violações que o homem pode sofrer na vida, desde tenra idade até a fase adulta, a narrativa não se organiza de um modo temporal dentro dos padrões cronológicos que habitualmente concebemos. É até mesmo dificultoso estabelecer uma idade para o protagonista, mas sabemos que em certos momentos ele é adulto e em outros é criança (ou um adulto a rememorar a infância). Isso não é ponto de complicação que impeça o entendimento do texto, contudo, nesta esteira, o autor opta por construir imagens e mais imagens com adjetivações em demasia que carregam o texto de excessiva melancolia e/ou de construções que poderiam ser melhor aproveitadas em um poema narrativo. Não se tem aqui, registre-se, aquelas grandes descrições dos romances do início do século XIX em que cada detalhe era amplamente esmiuçado. Em ampla escala, tudo parece carecer de uma necessidade de explicitação ou especificação que impedem a contemplação do objeto final por focar em detalhes. Esses, por sua vez, por mais que importantes tentem ser, não contribuem significativamente para a apreciação integral do quadro. É como estar diante de uma pintura em um museu em que o guia lhe convide a olhar para os detalhes da moldura em detrimento das escolhas de traços, das cores, das pinceladas etc. Faz parte da obra, mas em alguns casos, convenhamos, em nada influencia. A título de exemplo, cabe ver como é narrado o simples ato de se pegar uma agulha:
 
“Eu catava uma agulha que a morte da Avó, a minha, escondia numa das gavetas da cômoda, o quarto, ruína dos sonhos, que ainda era habitado pelo seu ressonar piado e frágil.”




Além dessas questões de medos pessoais, o narrador, nas quase 200 páginas do romance, dilui, ainda, a conturbada relação com sua mãe, uma professora em estado depressivo que já tentara cometer suicídio algumas vezes. A relação dele é complexa porque, além do típico choque de gerações, envolve uma situação de dependência por parte daquela mulher que já fora abandonada por diversos homens, incluindo, logicamente, o pai de seu filho. Ele, o narrador-protagonista, intenta desvencilhar-se um pouco daquele teto traumático sobre o qual aparentemente viveu toda sua vida, mas não consegue porque sua genitora faz ameaças para que ele não a deixe, posto que não aguentaria mais um abandono, especialmente daquele homem que seria, aos olhos dela, sua salvação.
 
O filho, por seu turno, continua em sua tentativa. Ele quer ir embora porque é aquilo o que parece certo: o movimento de abandonar o ninho para que, com suas próprias asas, persiga seu voo. A professora não vê motivos para que o filho a deixe, mesmo o estupro que ela o viu sofrer naquele rio que cercava a casa não era motivo para que aquele espaço deixasse de ser residência do homem. Na contramão do papel que se espera de mãe, ela simplesmente opta por silenciar-se diante disso exatamente porque, descobrimos mais adiante, possui a visão de uma vida que precisa ser marcada pelo sofrimento para ser vivida. Amor só é amor, para ela, se desembocar em dor e poesia. O mesmo sentimento que o filho enraíza: “É assim que se ama: sangue, cuspe, uma casa vazia, aberta em vazamentos?”
 
Além disso, não se pode passar por este texto sem a observação do minucioso uso de pronomes possessivos por parte de mãe e de filho. “Sua bicha. Sua bicha. Meu filho, sua bicha.” É assim que a mãe vê o filho que deveria ser o Homem da sua salvação, o Narciso que é chegado, mas é, na verdade uma “bicha”. Metodicamente, aquela professora usa os pronomes “Sua”, para distanciar de si aquela “aberração” que seria a orientação sexual do rapaz, e “meu” para deixar claro a quem pertence a existência daquele rapaz no papel de filho. Ele, porém, conduzindo a história que se lê, recorre aos possessivos para sempre clarificar de quem são os avós, a mãe e a tia, estabelecendo um sentimento de pertença entre eles. Uma afeição excessiva.
 
De certo modo, como o ponto de vista de quem narra é de alguém traumatizado por tudo aquilo que se passou consigo, a excessividade de adjetivações é uma escolha que acaba preenchendo os espaços em branco que todo o processo de rememoração possui. Na falta de um detalhe concreto sobre a circunstância, adentra-se no vazio da palavra sem ligação a preencher essas lacunas esvaziadas. Em Nasci sem um caminho de volta, essa ausência de possibilidade de retorno é preenchida pela palavra valorativa e qualificadora e isso garante excelentes momentos, como ditos acima, especialmente quando o protagonista consegue se ocupar um pouco mais de seus vazios internos, posto que são mais próximos de sua vivência corpórea e, portanto, com menos necessidades de vazios vocabulares. Ao se partir, porém, para uma relação mais exterior, com o Outro, o caminho de volta permanece inexistente e aquela casa que “não termina tão cedo dentro da gente” começa a desmoronar em uma torre vazia de palavras.
 
Há, ainda, outros detalhes como a não divisão de capítulos e o uso em momentos específicos de itálicos que poderiam, a título de exemplo, ser alvos de um estudo aprofundando para investigar o porquê de tais escolhas por parte do autor. Algo que não faz parte de minha proposta aqui, mas registro a possibilidade.²
 
O leitor que decidir adentrar neste caminho sem volta fará, então, uma boa leitura e sem dúvidas ganhará riqueza de detalhes; pode enfadar-se um pouco, porém, com a incontornável e constante melancolia das descrições. Mas é somente uma pedra no meio do caminho, não um muro intransponível.
 
**
Nasci sem um caminho de volta
Raimundo Neto
Editora Moinhos, 2021, 208p.
Você pode comprar o livro aqui


Notas

1 Todas as citações da obra foram retiradas de: NETO, Raimundo. Nasci sem um caminho de volta. Belo Horizonte: Moinhos, 2021.
 
2 A edição do romance a que tive acesso foi adquirida em formato de E-book. Infelizmente, o texto apresentava problemas de formatação que poderiam prejudicar quaisquer tentativas de análises desses detalhes mencionados e, por isso, preferi não o fazer aqui. A editora Moinhos foi informada do problema e prontamente respondeu avisando que o analisaria para, em seguida, prosseguir aos ajustes; porém, até o fechamento desta resenha, não recebi novas atualizações.
 

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