Escrever livros é o pior negócio do mundo

Por Cristian Vázquez




 
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Do ponto de vista capitalista, escrever livros é um dos piores negócios do mundo. Talvez o pior de tudo. Muitos desses artigos cheios de palavras como sucesso, coaching, liderança, atitude, empreendedores e outras do mesmo campo semântico explicam isso. Melhor representar graficamente com um tuíte do escritor Jorge Carrión: “O autor recebe 10% do preço do livro. Se custar 10 euros, 1; se vender 1.000 exemplares, 1.000; se você vender 10.000, 10.000. Se trabalhou três horas por dia durante um ano e vendeu 1.000, ganha 1 euro/hora; se 10.000, 10. Pense nisso na próxima vez que baixar um livro ou disser que ele é caro.”
 
Por isso, a maioria de nós que escrevemos (e também procuramos que o que escrevemos termine publicado em forma de livro) não ganhamos a vida com isso. Sabemos que temos que ganhar a vida de outra forma. O que tira nosso tempo e energia para escrever. Ou seja: escrevemos no momento que, em tese, deveria ser de descanso ou recreação. E não apenas escrevemos. Uma vez publicados os livros, nós também os “movemos”: organizamos apresentações, assistimos a leituras e palestras, levamos os livros a esta ou aquela pessoa... Sabemos que são as regras do jogo, aceitamo-las, assumimo-las.
 
Um poeta que vai participar de um recital de poesia me disse há poucos dias: “Eu passaria muito tempo fazendo isso. Mas é uma atividade fora do mercado. Isto é, do mundo real.” Costumamos usar essa expressão: dizemos “o mundo real” para nos referirmos ao mercado, à necessidade de vender a nossa força de trabalho (o tempo das nossas vidas) para pagar as contas. Vale a pena perguntar: esse é o mundo real? Roland Barthes escreveu que “não há biografia senão da vida improdutiva”: é o que nos diferencia, o que nos torna únicos. Essa “vida improdutiva” — algo como “aquilo que acontece com você enquanto está ocupado fazendo outras coisas” — não é muito mais real do que a “vida produtiva”?
 
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Aqueles de nós que escrevem e aceitam essas regras do jogo aprendem a não se sentir culpados (como o mercado quer que nos sintamos) pelas nossas horas improdutivas: aquelas que passamos escrevendo ou lendo ou em atividades como recitais de poesia. De vez em quando, porém, nos deparamos com a visão de pessoas de fora da literatura, a visão capitalista dominante, que nos surpreende.
 
Quando alguns dos meus livros foram publicados no ano passado, alguém me perguntou se eram os primeiros. Respondi-lhe que não, que já tinha publicado outros dois, mas que tinham pouca circulação e quase ninguém os tinha lido. Aí essa pessoa me disse: “Que bom que você não desistiu”. No começo isso me deixou perplexo. Não só porque nunca me teria ocorrido “desistir”, mas porque não poderia conceber que alguém que escreve deixasse de fazê-lo porque os seus livros raramente são lidos (o que é, por outro lado, o que acontece com a grande maioria dos livros). Mas, claro, essa pessoa me falava pela lógica do mercado: se você faz alguma coisa e não vende, por que continuar fazendo?
 
Outras pessoas, também no ano passado, me desejaram com muito carinho: “Que você venda muitos livros”. Isso também me chamou a atenção. Pareceu estranho para mim. Quando pensei nos meus livros, o que eu queria acima de tudo era que acontecesse com eles algo que não tivesse acontecido com os anteriores: que fossem lidos, que circulassem, que fossem apreciados, que recebessem boas críticas, até para que me abram portas e novas possibilidades para o futuro. Mas não pensei sobre eles serem vendidos. Como se falar de dinheiro fosse errado, como se fosse algo sujo, algo que contaminasse minha suposta arte.
 
E é um erro, claramente.
 
Esta é uma experiência de aprendizado pela qual muitos de nós que escrevemos temos que passar. “Praticamente ninguém falou do meu livro nos jornais; no total, devem ter sido vendidos quinhentos ou seiscentos exemplares”, disse o escritor francês Jean Echenoz ao referir-se à sua estreia editorial, no final dos anos setenta. Mas disse para si mesmo: “Não importa, tenho um editor e ele é Jérôme Lindon; o resto não é importante.”
 
No entanto, quando o autor e o editor se encontraram semanas depois, Lindon foi sombrio: “Bem, os jornalistas não se apressam em falar sobre o seu livro”. Echenoz permaneceu convencido de que isto não tinha grande significado, o essencial era que a obra “existia”. Levará tempo para aprender (recorda no livro Jérôme Lindon, meu editor, escrito de uma só vez na noite de 2001, quando o editor morreu) “que um livro também é feito para ser vendido.” Pelo menos para que, quando você escrever outro, o editor esteja disposto a publicá-lo novamente.
 
Essa aprendizagem consiste em atravessar a selva de preconceitos segundo os quais você não só não deve se preocupar com as vendas de seus livros, mas também não precisa espalhar os elogios que eles têm recebido. Cito outro tuíte de Jorge Carrión: “Não entendo por que alguém que pesquisa durante um ano, escreve seu romance ou ensaio durante dois e demorar outro tempo para publicar seu livro, pelo qual ganha uma quantia simbólica, deveria me perdoar por postar uma crítica favorável de seu livro no Twitter. Não existe palavra mais tola do que ‘auto-engrandecimento'.”
 
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É aí, no meio de todas essas tensões e contradições, que nós que escrevemos nos movemos. Dentro de um mundo literário onde às vezes parece que só deveríamos nos dedicar à arte pela arte, onde qualquer coisa que cheire a desejo comercial (até mesmo “auto-engrandecimento”) recebe má publicidade, mas também dentro de uma sociedade que só valoriza o que deixa retorno econômico, o que é vendido, o que é produtivo.
 
Há quinze anos entrevistei o escritor argentino já falecido Leopoldo Brizuela, que pouco antes havia ganhado o prêmio Clarín de romance. A lembrança que mais ficou comigo daquela conversa foi sua resposta quando lhe perguntei como aquela distinção havia mudado sua vida: “Antes me ligavam e eu dizia que estava escrevendo e eles continuavam conversando comigo. Agora eles me ligam e falam: ‘Ah, você estava escrevendo, te ligo outra hora’”. O prêmio legitimou seu trabalho: para quem estava fora da literatura, a escrita de Brizuela deixou de ser um mero hobby, passou a ser um trabalho. O prêmio confere certo prestígio, é claro, mas o prestígio de um prêmio não é diretamente proporcional ao dinheiro que ele concede?
 
Martin Eden, o protagonista do romance de Jack London, não pode deixar de se perguntar por que as pessoas que a princípio desprezavam os textos que ele escrevia e lhe diziam para conseguir um emprego, mais tarde começaram a elogiar esses mesmos textos. O que aconteceu entre o antes e o depois ficou claro: os textos foram publicados e venderam muito bem e renderam muito dinheiro ao autor.
 
Vivemos nesse mundo. Invertendo o nosso tempo de descanso ou recreação em escrita de textos que, com um pouco de sorte, serão livros que quase ninguém lerá e que em termos de dinheiro não nos farão ganhar quase nada. Aprendendo a deixar de lado o pudor para divulgar a resenha em que Fulano afirma que, apesar de tudo, o livro é bom. Por tentar, apesar de tudo, fazer o livro vender. Sem sequer nos ocorrer, ainda que como possibilidade, “baixar os braços”. Mesmo sendo o pior negócio do mundo. 


* Este texto é a tradução livre de “Escribir libros es el peor negocio del mundo”, publicado aqui, em Letras Libres.

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