Ismail Kadaré


Ismail Kadaré. Foto: Leonardo Cendamo



Durante a década de 1990 a presença da obra de Ismail Kadaré foi pródiga entre os leitores brasileiros. Muito dos seus livros, incluindo alguns dos mais conhecidos, chegaram nessa época abrindo entre nós o projeto de revelação da literatura albanesa. Assim é que algumas das expressões utilizadas por Bajram Begaj, presidente da Albânia, no comunicado por ocasião da morte de Kadaré em 1º de julho de 2024 não são gratuitas. O autor foi o “emancipador espiritual” dos albaneses, o “poeta dos mitos balcânicos” e um dos renomados nomes da literatura moderna.
 
 A obra de Ismail Kadaré, no entanto, começa muito antes dos anos do seu boom entre nós. Mesmo o marco que o projetou internacionalmente, por exemplo, data ainda de 1963, com a publicação de O general do exército morto, quando a Albânia se encontrava sob domínio de Enver Hoxha. Este livro e com outros dos escritos do albanês logo o fez integrar as listas negras do governo comunista, forçando-o ao exílio na França, país onde viveu até poucos anos antes da sua morte. Mais: a estreia de Kadaré na literatura — especialmente aquela que se coloca marcada pelo seu contato mais íntimo com a cultura ocidental — coincide com o alcance e a centralidade da própria literatura em seu país.
 
A grande noite dos impérios do Leste europeu, como a crítica qualificou o tempo percorrido pela obra do escritor albanês, foi uma das obsessões. As demais são as relações entre a tradição, aqui marcada pelos mitos gregos e orientais, as lendas do seu país natal e a épica oral dos Bálcãs; as implicações modernas, ocidentalizantes; e a história, atentando para o fenômeno do poder a partir de derivas diversas, sociais, políticas, ideológicas e totalitaristas, e registros variados, especialmente os das guerras, como se observa no livro de 1963 ou em Crônica na pedra (1971).
 
“Tratei em meus livros de fazer uma radiografia alegórica das dimensões do espanto bélico e das sequelas dos regimes totalitários”, revelou, certa feita, em entrevista. Os acontecimentos do romance de 1971, por exemplo, estão ambientados em Gjirokastër, cidade onde Kadaré nasceu em 28 de janeiro de 1936; a narrativa é contada sob o ponto de vista de um menino e captura entre o medo e a confusão os tempos difíceis durante a Segunda Guerra Mundial. Uma mirada que alcança, mesmo indiretamente, outras de suas obras.
 
No romance que mereceu uma leitura cinematográfica brasileira pelas Walter Salles, Abril despedaçado (1980), alegoricamente. Situada nas remotas montanhas do norte da Albânia, neste romance o escritor explora os arcaicos códigos familiares e seu impacto entre os seus seguidores, resultando em coerções atávicas, em lutas sangrentas, condenando-os à impossibilidade de moldarem uma existência autônoma. Aqui, as bases são as tensões entre tradição e modernidade, mas os seus desenvolvimentos se pautam na revelação daqueles elementos que podem estar nos modelos de domínio e ideologias caras ao convívio civilizatório dos povos.
 
É este também o caso do que ficou sendo o último livro que Ismail Kadaré viu publicar: Um ditador na linha. Sobre o mistério do telefonema entre Stálin e Pasternak (tradução livre, 2022). O livro reimagina o dia 23 de junho de 1934, quando Boris Pasternak recebe em seu apartamento um telefonema do ditador, interessado em discutir o destino do poeta Óssip Mandesltam, preso depois de ser acusado de zombar do tirano através da sua obra. Este exercício criativo corrobora com outra das ricas observações de Kadaré acerca de sua obra e da literatura: “Não alcancei a literatura a partir da liberdade, mas a liberdade a partir da literatura”.
 
Parte da projeção mundial de Ismail Kadaré se deveu a repercussão alcançada na (e partir da) França com O general do exército morto, mas a esta época, ele já escrevera parte importante de sua obra que começa com a poesia editada uma década antes e com obras mais obscuras ainda dominadas por certa alegação do regime comunista e logo em seguida algum questionamento a esse respeito; nesta segunda direção, é o caso de A cidade sem anúncios. O livro data de quando ainda era um estudante do Instituto Górki, em Moscou, e foi com este romance que se converteu no fundador do romance moderno em seu país ao fundir a língua unificada e o dialeto albanês. Daqui, abre-se uma geração que, com Dritëro Agolli, Fatos Arapi e Drago Siliqi, rompe com os critérios literários soviéticos; que prefere ao realismo pedagógico a ficção enraizada na história, no mito e na alegoria. Tal cisão coincide com outra: a das relações entre a então União Soviética e a Albânia.
 
Um fragmento de A cidade sem anúncios — e não o romance, por recomendação dos amigos — resultou em Ditë kafenesh, publicado tão logo regressa a Albânia e banido como uma obra decadente. Mas, é já no ano seguinte, 1963, que sairá o romance que o projeta internacionalmente e é depois do prestígio internacional alcançado com O general do exército morto que aparece alguns dos mais importantes trabalhos de Kadaré. São livros como Os tambores da chuva (1969), testemunha da tomada da Albânia pelos otomanos e parte da alegoria sobre as rotinas opressivas vividas por este país; Concerto no fim do inverno (1977), onde outra vez testemunhamos uma rebelde Albânia que se levanta contra a China em nome da pureza socialista; ou O palácio dos sonhos (1981), o desvelamento do sofisticado arquétipo das polícias da consciência encarregadas da perpetuação das tiranias.
 
Nota-se também que outra das obsessões do romance de Kadaré está na Albânia. O país refundado pela ficção mantém-se como via comum para o restante do mundo comunista da época e ao mesmo tempo é também um elemento simbólico de resistência.  
 
A obra de Ismail Kadaré prolonga-se por mais de quatro dezenas de títulos. Além daqueles citados nestas notas, estão, entre os publicados no Brasil, O dossiê H. (1981), A pirâmide (1992), Vida, jogo e morte de Lul Mazrek (2002), Uma questão de loucura (2005), O jantar errado (2008) e O acidente (2010). Embora estes e outros dos seus livros estejam marcados pelo complexo histórico do seu país, a obra de Kadaré sempre almejou a literatura, como queria o escritor, enquanto diferença: “A literatura não tem nada a ver com a verdade, nem com os testemunhos, nem com a história. Possui um valor independente. A literatura é, antes de tudo, estranhamento.”
 
Além da poesia e do romance, escreveu ensaios sobre poesia e contos populares e o que chamou de tragédia. Também traduziu para o seu idioma vários dos autores que significaram no desenvolvimento da sua literatura, entre clássicos e modernos, como Ésquilo, Hemingway, Púchkin, Gógol e Kaváfis. Uma trajetória reconhecida em parte diversa dentro e fora da Europa: em 2005, recebeu o Man Booker; em 2009, o Príncipe de Astúrias das Letras; em 2015, o Prêmio Jerusalém; em 2018, o Nonino; e em 2020, o Prêmio Neustadt.
 
Ismail Kadaré refundou uma literatura. Sua obra alargou as fronteiras da literatura do século XX.   

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