Lygia Fagundes Telles e sua Ciranda de Pedra

Por Pedro Fernandes

Aproveitando a deixa de que a TV Globo esta semana começou a reexibir a novela Ciranda de Pedra para falar um pouco sobre a autora Lygia Fagundes Telles, bem como sua produção literária. Aproveito também para criticar certa displicência da emissora por somente semanas depois que já propagandeava o nome da nova novela dizer que se baseava na obra da escritora.




De sua escrita, Lygia Fagundes Telles comenta que o que lhe motiva é ir "no âmago do âmago até atingir a semente resguardada no lá fundo como um feto". Ela nasceu em abril de 1923 em São Paulo e em 1938, custeada pelo pai, publicou seu primeiro livro, Porão e Sobrado, uma coletânea de contos recebida com aguada e agudas críticas no seu tempo. Na época, talvez mal soubesse que se destacaria na literatura brasileira pela prosa curta. O que a escritora fez, com certa consciência crítica do seu próprio trabalho, nascida do rigor com o qual ficou reconhecida, foi excluir esse título do conjunto das suas obras completas.

Como todos os escritores brasileiros, a autora também precisou construir um sustento fora da palavra. Matricula-se no curso de Direito em 1941 e é nesse tempo que continua a apostar na escrita, quando passa a freqüentar as rodas literárias onde conhece duas figuras essenciais do modernismo paulista, Mário e Oswald de Andrade. É também por essa época que Lygia colabora com os jornais Arcádia e A Balança, ao mesmo tempo em que trabalha como assistente do Departamento Agrícola do Estado de São Paulo, além de cursar outra faculdade, a de Educação Física, formando-se nessa área no mesmo ano que entra para o Largo São Francisco.

Em 1944, tem editada sua segunda coletânea de contos, Praia Viva, e três anos depois de concluir o curso de Direito publica seu terceiro livro de contos, O Cacto Vermelho. Daqui, nota-se o pendor para a narrativa curta, expressão literária que, conforme dissemos, a fará reconhecida entre os seus contemporâneos e o restante da literatura brasileira. Com o seu terceiro livro recebe o Prêmio Afonso Arinos, o primeiro galardão concedido pela Academia Brasileira de Letras, instituição que a receberá anos mais tarde*.

Bom, mas e Ciranda de Pedra? Este é o seu primeiro romance. Começou a escrevê-lo em 1952, no retorno à capital paulista. Nesse tempo, ela havia se mudado para o Rio de Janeiro devido ao casamento com o jurista Goffredo da Silva Telles, então deputado federal. Diferentemente dos contos, o romance é logo bem recebido pela crítica, destacando-se entre as publicações literárias na época. Antonio Candido, por exemplo, é um dos que assinalam que este livro demonstrava a maturidade criativa da escritora. Por causa disso, dizemos que se refunda o perfil da escrita telliana. 

Ciranda de Pedra
 trata, no amplo interesse pelo mistério, o inefável ou um pequeno detalhe da alma humana, acrescentando-se agora uma corajosa incursão pela complexa situação familiar nos anos da ditadura militar no Brasil. Ao fazer uso preciso da linguagem e bem delinear o psicológico das personagens, a narrativa centra-se na trajetória de Virgínia, uma menina envolvida num mistério que mistura rejeição, crueldade, compaixão e amor pungente. Situada em parte na década anterior a da publicação, o romance examina ainda uma série de elementos da identidade ou da vida íntima das personagens, seja o adultério, a homossexualidade ou o desvio de caráter.

Lygia Fagundes Telles desata a escrever esta obra a partir de uma reflexão que teve numa das suas constantes caminhadas, quando passava em frente a um casario abandonado em processo de demolição, uma cena constante num país em contínuo refazimento de sua paisagem, entregue seja ao contínuo anseio de modernidade, à especulação do capital ou signatário de um interesse pelo apagamento da sua memória histórica. Ao passear pelos cômodos vazios e encantar-se com uma fonte onde se via uns anões de pedra em círculo, a escritora pensou o quanto de histórias não se escondiam naquele jardim abandonado, de alegrias, de tristezas que envolveram os antigos habitantes da casa.

Várias partes desse romance foram escritas na fazenda Santo Antônio, em Araras, São Paulo. Esta fazenda fora na década de 1920 certo lugar da intelectualidade, digamos assim, visto que nela se reuniam os escritores e artistas que fizeram o movimento modernista; além de Mário e Oswald de Andrade, foi frequentada por Tarsila do Amaral, Anita e Heitor Villa-Lobos.

Ciranda de Pedra foi lançado em 1954, no mesmo ano em que nasce seu único filho Goffredo Neto. E já em 1981 ganha a primeira versão como telenovela da TV Globo; a que estreia agora em 2008, entretanto, não é um remake daquela. 

Além desta obra, a escritora paulista também publicou os livros de contos Histórias do Desencontro (1958), O Jardim Selvagem (1965), Antes do Baile Verdade (1970), Seminário de Ratos (de 1977 e talvez o seu mais conhecido devido ao texto de mesmo título), Filhos Pródigos (de 1978, mais tarde revisto e publicado em 1991 sob o título A Estrutura da Bolha de Sabão), A Disciplina do Amor (1980), Mistérios (1981), Venha Ver o Pôr do Sol (1987), A noite Escura e Mais Eu (1995), Invenção e Memória (2000), Durante Aquele Estranho Chá (2002)  e Conspiração de Nuvens (o seu mais recente trabalho, de 2007).

Aos títulos de contos somam-se os romances Verão no AquárioAs Meninas, e As Horas Nuas. Estes com Ciranda de Pedra formam os seus únicos trabalhos no gênero até agora conhecidos. 

Nota:

* Lygia Fagundes Telles foi eleita em 1982 para a Academia Paulista de Letras e em outubro do mesmo ano ocupa cadeira na Academia Brasileira de Letras; é a terceira escritora a integrar a instituição fundada por Machado de Assis.

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