A maçã no escuro, de Clarice Lispector

Por Pedro Fernandes



Nas visitas constantes às livrarias neste período de férias tenho visto uma febre chamada Clarice Lispector. Ela está nas prateleiras mais visíveis. Desde a razoável biografia do estadunidense Benjamin Moser passando pela excelente fotobiografia organizada pela brasileira Nádia Gotlib e pela publicação dos primeiros textos da escritora como a reunião de textos Só para mulheres - conselhos, receitas e segredos e Correio feminino até a reedição de sua obra. Clarice Lispector também já deve ocupar ao lado de Machado de Assis a cadeira daqueles escritores mais bisbilhotados pela crítica.

Pois bem, nostalgicamente me volto para uma velhinha edição de 1978 da escritora que recuperei dos escombros do que era uma biblioteca. Na época de meu início de adolescência escrevia versos beberrões que despencavam altas horas da madrugada no meio de meus sonos entrecortados pelas fantasias amorosas. Ainda não conhecia Clarice. Dela, apenas linhas dos livros didáticos que tracejavam alguma sombra de sua biografia. Continuo sem conhecê-la. Se toda a gente que estuda a obra da escritora há muito tempo abre a boca para dizer que a obra de Clarice é uma grande clareira cujo o desvendamento ainda carece de muitos anos de aventura, não posso portar a audácia de afirmar que conheço Clarice.

Mas, como eu contava. Meu primeiro encontro com a obra dessa escritora foi inusitado. Ao contrário de muita gente que a conhece pelo romance A hora da estrela, fiz um caminho meio contraditório. Até agora, nunca li este que foi o último livro que publicou. Talvez por de tanto ouvir falar sobre. Obras que são muito comentadas, deixam a gente com a perigosa sensação de que sempre estarão ao nosso alcance e, por isso, ficam para ler num dia-sei-lá-qual. Isso me tem acontecido também com outras, como Dom Casmurro, do Machado, por exemplo. O fato é que li Clarice pela primeira vez ainda na minha adolescência. Um leitor imberbe. Titubeando. E foi pela Maçã no escuro e não pela A hora da estrela que comecei. E pela curiosidade de saber mais sobre um livro que saíra por uma editora com o conselho editorial formado pelo nome que eu conhecia melhor, o então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Depois, na faculdade de Letras, pus os olhos em alguns contos da escritora. Também fiz um minicurso sobre a obra de Clarice ministrado por um apaixonado e dele me veio a assertiva de que A maçã no escuro é apontado pela crítica o livro menor da romancista. Esculhambação profunda essa da crítica. Esculhambação que me faz de vez ver que sou um total desconhecedor da obra dela. Que me fez voltar a ler este romance. E partir dele, tocar em A paixão segundo G. H.

A maçã no escuro narra a trajetória de um homem, Martim, fugitivo de uma acusação que só na segunda leitura descobri ser a cena de um crime que nem sabe ao certo se foi autor; livro marcado pelo plano existencialista e pela leva de pensamentos - o tão famoso gesto introspectivo de Clarice; fugindo de um crime e nos constantes close de memória de si e do ocorrido, Martim acaba descobrindo-se como homem, como ser-devir, remodelando valores, remodelando-se enquanto sujeito - a busca por uma nova existência, a busca por outra condição de si. Uma fuga que o refunda, que o renasce, que o reopera enquanto humano, uma fuga que é a remontagem da própria gênese do homem e do mundo.

Recorto a epígrafe da obra: "Criando todas as coisas, ele entrou em tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que é informe; tornou-se o que pode ser definido; e o que não pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é sutil. Tornou-se toda espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no o real". Epígrafe que se transmuta na obra, visto ser do encontro de Martim com o estágio mais puro e bruto da natureza, com a qual passa a personagem a conviver quando de sua chegada à fazenda de Vitória, que o leva a essa reoperação de si; é na relação sua com o espaço como ser adâmico no Éden, é na sua relação com o outro, a dona da fazenda, sua prima viúva Ermelinda e a cozinheira mulata, que Martim se envolve numa conjugação homem-natureza, homem-mulher, complementares e simbióticas; e são dessas relações que ele se restitui e restitui sua própria realidade.


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