Voltar a Caim (II)

Por Pedro Fernandes

José Saramago durante conferência de apresentação de Caim, Casa de las Américas, Madri, 2009. Foto: Eduardo Parra.



Há no rol das opiniões dos leitores de Caim, último romance do escritor português José Saramago, uma lista não tão curta de comentários depreciativos - seja sobre o plano temático, seja  sobre o plano estético do romance. Volto a essa querela por entender que muita das opiniões são vazias e algumas de tão vazias chegam a ser uma ofensa para com o escritor e o romance em questão.

Todo romance, esse é meu entendimento, é aquilo que ele é. Seu escritor é meramente um sujeito que, inquieto perante os relativismos do mundo, escreve. E na sua escrita vai junto modos seu de pensar e de ver o mundo. O grande propósito de Saramago, já dito por ele próprio em muitas entrevistas, está em desassossegar quem o lê. Entendo esse desassossegar como sendo o interesse do escritor e da sua literatura em chamar atenção para o valor de determinados discursos e ver que nem tudo aquilo que diz "é" é, mas que aquilo que "é", "poderia ser". Reside aí uma das grandes características da literatura. 

Do plano temático, o Caim de Saramago é uma proposta de releitura acerca das diversas incongruências do Antigo Testamento. Ao entender as falhas de um livro que se diz divino imprime-se  uma visão sobre um discurso que não é ou tem nada de divino (já que Deus não erra nunca) e não é, como qualquer, uma verdade absoluta, mas sim relativa, escrita por mão humana e impregnada do material histórico de seu tempo.

Isso não quer dizer que seja Caim uma leitura literal do texto bíblico, como muitos julgam, mas uma leitura literária que se faz a partir de outra literatura. A esta se permite, inclusive, a tal leitura simbólica, que os teólogos dizem fazer das Escrituras. O que está em jogo aqui nesse rol de críticas a uma falsa leitura do texto bíblico por Saramago é o medo de desmantelamento do discurso cristão construído todo ele sob uma base cujo o questionamento não deve nunca fazer parte. 

Aos que leem o plano temático de Caim como um mero grito pessoal do escritor português hão que ler o Antigo Testamento. Esse é um romance dialoga, por emendas, acréscimos, revisões, com os textos dessa primeira parte da Bíblia. Não quer o escritor superá-los. Nem apenas imprimir os seus sentidos de leitor questionador das verdades sagradas. Seu trabalho é o de favorecer uma interrogação, começada pelo texto e chegada às bases ideológicas que o sustentam. 

Do plano estético Caim integra o rol daqueles romances cuja a construção em muito se assemelha às narrativas virtuais, pelos jogos de encaixe e desencaixe do tempo-espaço e das ações. Portanto, não a repetição desleixada de séculos e séculos das narrativas do Antigo Testamento.

No mais, fica o convite a ler e reler Caim. Este é um livro de pura humanidade, sobre nossos dilemas nunca superados com o Criador, esse diálogo infinito. Valerá sempre a pena.


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