A malvada, de Joseph L. Mankiewicz


cena de A malvada. Bette Daves (centro), Marilyn Monroe (em uma ponta para o filme) e George Sands.
Visão irônica dos bastidores do mundo do espetáculo traz a estrela Bette Davis em um de seus maiores papéis

"Apertem os cintos; esta será uma noite turbulenta!" A célebre frase de Margo Channing dá o tom de A malvada, uma visão irônica, corrosiva e - por que não? - turbulenta do mundo dos bastidores do showbiz. Channing (Bette Davis), a estrela número um da Broadway, sofre com o envelhecimento e a perda de prestígio. Após um espetáculo, aparece em seu camarim uma fã aspirante a atriz, Eve (Anne Baxter), que se torna sua secretária particular e passa a conviver com as principais estrelas da época. Logo a admiradora ingênua e humilde mostra-se manipuladora e calculista, e sonha apenas em tomar o lugar de sua musa. Espreitando o confronto da dupla está Addison de Witt (George Sanders), cínico crítico teatral que não demora para descobrir as artimanhas de Eve.

Bette Davis vivia na época uma situação parecida com a de sua personagem. Vinha de várias atuações em filmes fracos e sem expressão. Claudette Colbert, a primeira escolha do diretor e roteirista Joseph L. Mankiewicz (irmão de Herman J. Mankiewicz, coautor do roteiro de Cidadão Kane, de 1941), machucou as costas nas vésperas das gravações, o cineasta enviou o roteiro a Davis, que o leu de uma sentada e ainda afirmou que era o melhor em que já tinha posta as mãos. Ficou com o papel, que hoje é considerado pela crítica um dos maiores de sua produtiva carreira. As filmagens foram tempestuosas, por culpa de problemas de relacionamento entre quase todos os atores. A exceção foi Davis, que se apaixonou por um ator do filme, Gary Merrill, com quem se casou dias depois do fim das filmagens. Quem também faz rápida, mas memorável ponta, é Marilyn Monroe, também como uma aspirante a atriz, em sua primeira aparição importante.

A malvada foi indicado a 14 estatuetas no Oscar de 1951 - um recorde igualado por Titanic, em 1998. Ganhou seis: Filme, Direção, Roteiro, Ator Coadjuvante (Sanders), Figurino em Preto e Branco e Gravações de Som. O excelente roteiro, sustentado por diálogos ágeis e mordazes, foi baseado em um conto publicado na revista Cosmopolitan intitulado "The Wisdom of Eve". A história deu origem a um musical da Broadway na década de 1970 em que, curiosamente, Anne Baxter interpretou Margo Channing.

* Revista Bravo!, 2007, p.81.

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