Uma novo rosto para Emily Dickinson?

Por Pedro Fernandes

A necessidade da novidade, do furo, do inédito, às vezes até bestial, da mídia interessada na curiosidade, no ti-ti-ti sobre escritores parece ter ganhado um centro no âmbito do jornalismo cultural interessado em falar sobre literatura. Se por um lado isso é desvantajoso, por outro pode até servir de iniciativa para o incentivo à leitura ou ao acesso a determinado escritor ou obra literária. Quer dizer, o interesse pela descoberta de um tipo muitas vezes tem suas vantagens para outros interesses. Isso daria um bom debate, mas deixemos, é coisa para se tratar noutra ocasião.



Toquei no assunto porque foi apresentado recentemente o que ser um novo rosto de Emily Dickinson. Até então só a conhecíamos através da reprodução de um daguerreótipo que continua sendo o único registro fotográfico da poeta. O original pertence ao arquivo do Amherst College e chegou à instituição em 1956 com a doação de material de arquivo dos Todd. 

David Todd deve ter mantido algum contato com Emily Dickinson através de algumas figuras da família da poeta que estiveram intimamente ligadas com o Amherst College, uma relação que começa ainda com o avô, que foi um dos seus fundadores e alcança duas gerações adiante: o sobrinho, Edward (Ned) Dickinson fez cursos em Amherst e atuou mais tarde na faculdade como bibliotecário assistente. 

Mabel Todd editou três volumes da poesia de Dickinson e dois volumes de suas cartas durante a década de 1890. O registro que mostra a poeta por volta dos 16 anos de idade, uma vez que a data atribuída ao daguerreótipo é 1845. A filha de David e Mabel, doadora do arquivo de família com incluía ainda cartas e manuscritos de Emily registrou que a efígie foi adquirida de Wallace Keep e o irmão deste a recebeu diretamente de Lavinia Dickinson, em algum momento da década de 1890. Pouco conhecida, mas não reclusa, Lavinia era a irmã mais nova de Emily e também se dedicou à poesia.




O possível novo rosto para Emily Dickinson foi revelado através do jornal The Guardian numa matéria assinada por Alison Flood e publicada ontem. O registro aparece na cidade natal da poeta, Amherst e mostra uma jovem de sorriso tímido com mão estendida para a companhia de imagem, a viúva Kate Scott Turner. A matéria informa que o departamento de arquivos e coleções especiais do Amherst logo se interessa por este novo daguerreótipo estimado de 1859. 

Até agora, os indícios são positivos: um exame do globo ocular e outras marcas de rosto são assemelhados ao registro de 1845; na coleção de tecidos do Museu Emily Dickinson também foi encontrada uma amostra de tecido xadrez azul que se equipara ao vestido trajado pela figura na imagem. A publicação da fotografia visa encontrar o paradeiro de outros informantes capazes de expandir as provas de análise do material.



A descoberta vem se juntar ao feito também recente da descoberta de uma imagem de Jane Austen aos 13 anos (imagem à esquerda). Até então só conhecíamos um esboço desenhado por sua irmã Cassandra (imagem à direita).



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