Boletim Letras 360º #321



Como temos feito desde a primeira semana de abril, semana a semana apresentamos dois novos colunistas que a partir de 2019 passam a integrar o blog Letras in.verso e re.verso. Ainda guardamos estreias. E nesta semana chegou-nos Marina Rufo Spada. Aguardemos novidades – que sempre virão. E, aproveitando a ocasião dos recadinhos lembramos soube outras duas coisinhas: até o dia 11 de maio recebemos inscrições no nosso Instagram para a promoção que sorteia o segundo exemplar da nova edição de Grande sertão: veredas (João Guimarães Rosa / Companhia das Letras); queremos logo chegar a 74K amigos em nossa página no Facebook – isso para realizarmos outro sorteio – por isso, até o dia 11 de maio o leitor pode participar de uma enquete que abrimos por lá interessada em saber sua opinião sobre o conteúdo que vinculamos naquele espaço. Os participantes nesta enquete interessados podem concorrer a um sorteio com livro-surpresa. Estamos carentes; queremos interação. Bom, recados apresentados deleitem-se com as notícias da semana, as dicas de leitura e outras novidades que este boletim reúne semanalmente.

Reedições colocam obra de Amós Oz em evidência no Brasil. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Foto: Daniel Mordzinski.


Segunda-feira, 29 de abril

As livrarias portuguesas recebem a reedição de um importante ensaio de Sophia de Mello Breyner Andresen há muito fora de catálogo

Em 2019, como sublinhamos outras várias vezes nesta página, se comemora o centenário do nascimento da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Entre as diversas iniciativas que marcam esta efeméride, está a reedição, pela Assírio & Alvim, de "O nu na antiguidade clássica". O célebre ensaio de Sophia integra uma obra que reúne ainda uma antologia de poemas sobre a Grécia e Roma; a reedição é constituída, portanto, pelo que, de principal, a poeta escreveu sobre a Antiguidade Clássica. A edição é coordenada e organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares, responsável também pela seleção dos poemas e respectivas notas e tem um prefácio de José Pedro Serra. A apresentação da obra é motivo para a inauguração da exposição Olhares Mútuos, que procura evidenciar as afinidades e o diálogo poético entre Vieira da Silva e Sophia.

Uma visita ao universo poético de Ana Martins Marques

As edições artesanais são sempre de alto charme. E eis uma. A Editora Quelônio publica O livro dos jardins com capa em papel artesanal feito com resíduos de folhas de bambu; o livro reúne poemas de Ana Martins Marques de safra diversa. Ao todo são 21 textos: há alguns quase contemporâneos ao seu primeiro livro da poeta; e textos que foram publicados em jornais, revistas e na antologia dedicada a Orides Fontela O nervo do poema (Relicário Edições). O que os une são o tema das plantas, das flores e outros vegetais; o tempo e sobre a própria poesia nas composições em homenagem a algumas das poetas de predileção da autora: além de Orides, Sylvia Plath, Wislawa Szymborska e Alejandra Pizarnik, entre outras.

Terça-feira, 30 de abril

Mais poemas inéditos e dispersos, de Charles Bukowski

Charles Bukowski escreveu prolifica­mente durante toda a sua vida – centenas de contos, romances e, principalmente, poesia. A maioria desses poemas eram publicados em revistas marginais, de pe­quena circulação, e muitos permanece­ram não publicados até hoje. Em Tempes­tade para os vivos e para os mortos, Abel Debritto, especialista e biógrafo do autor, vem preencher essa lacuna. Aqui estão reunidos os melhores desses poemas iné­ditos – que ficaram na gaveta – e outros que jamais foram compilados em livro. Encontramos poemas do início da carreira, nos quais é possível ver o autor em busca de sua verve, e também poe­mas da velhice, no auge da maturidade como escritor. Reunidos e ordenados cronologica­mente, os versos compõem como que uma autobiografia acidental de Buko­wski. Não faltam a abrasão, a autocomi­seração e a franqueza característica, que revelam em toda sua glória a sordidez que faz parte do ser humano. Também está incluído aquele que é considerado o último poema escrito por Bukowski, “#1”, semanas antes de sua morte. Nunca o assombro diante da exis­tência foi retratado em versos ao mes­mo tempo tão cotidianos e tão geniais. Nunca um poeta conseguiu expressar de forma tão marcante e tão simples o fato irrefutável de que, por dentro, todo ser humano é um perdedor. A tradução de Rodrigo Breunig sai pela L&PM Editores.

As repercussões sobre Eça de Queirós no Brasil e em Portugal 

As Edições Sesc SP apresentam edição revista e ampliada da coletânea organizada pelo professor Benjamin Abdala Junior; Ecos do Brasil: Eça de Queirós, leituras brasileiras e portuguesas reúne nove artigos de estudiosos brasileiros e portugueses sobre a obra do autor de Os Maias. Os artigos buscam refletir sobre as características pelas quais a obra eciana é mais comumente conhecida: o naturalismo, o realismo, sua elegante mordacidade, a visão crítica e a composição minuciosa de tipos, comportamentos, grupos sociais e da atmosfera burguesa de Portugal. Na segunda parte, apresenta uma antologia de textos não ficcionais do autor organizada pelo professor Carlos Reis, especialista na obra de Eça; a nova edição conta, ainda, com uma breve cronologia e caricaturas do escritor.

Quarta-feira, 1º de maio

Machado de Assis real. A Faculdade Zumbi dos Palmares lança neste mês o movimento cujo interesse é apresentar a imagem mais fiel do escritor brasileiro

A partir de dados históricos e fotografias antigas, o movimento busca reparar a imagem de Machado respeitando seus traços, sua origem e o tom da sua pele. O objetivo é fazer a primeira errata para reparar a injustiça racial na literatura do país e inspirar jovens artistas negros do Brasil inteiro a se expressarem para superarem o preconceito racial. O projeto conta, dentre diversas atividades, com este site, em que público pode retirar a imagem de Machado recriada em substituição ao modelo branqueado que o fez reconhecido. Essa foto corrigida e emoldurada será entregue à Academia Brasileira de Letras, instituição fundada e presidida pelo escritor.

Encontrado retrato inédito de Leonardo Da Vinci

A obra, que segundo estimativas teria sido realizada entre 1517 e 1518, é um dos dois únicos retratos de Leonardo da Vinci feitos durante sua vida que sobreviveram através dos séculos. O outro, mais famoso, é o trabalho de Francesco Melzi, seu mais fiel discípulo. Ambos serão apresentados ao público em uma grande exposição em Londres dedicada a Da Vinci no Palácio de Buckingham, de 24 de maio a 13 de outubro, informou em comunicado a Royal Collection Trust, organização responsável pela conservação da herança real. Foi precisamente durante a realização de uma investigação para preparar esta exposição, que Martin Clayton, diretor de pinturas e desenhos da Royal Collection Trust, identificou o retrato inédito entre as inúmeras obras da coleção. O esboço foi "provavelmente" feito por "um assistente não identificado de Leonardo" em uma folha de papel de estudo, na qual também há esboços de pernas de cavalo feitas por Da Vinci, explica o comunicado. A exposição apresentará outra surpresa: os estudos de mãos feitos por Da Vinci para "A Adoração dos Magos", uma pintura inacabada. Esses esboços, que desapareceram com o tempo, serão visíveis usando a tecnologia ultravioleta. O brilhante pintor e cientista, nascido na cidade italiana de Vinci em 15 abril de 1452 de uma relação ilegítima entre um homem rico e uma camponesa adolescente, morreu no dia 2 de maio de 1519 na França.

Quinta-feira, 2 de maio

Depois de A caixa preta, a Companhia das Letras recorda Amós Oz com a reedição de outros seis livros do escritor que há muito estavam fora de catálogo no Brasil. São obras revistas e como novo projeto editorial. 

1. Conhecer uma mulher, um olhar atento e sensível sobre os mistérios que, escondidos em cada um de nós, unem e separam as pessoas. Depois de trabalhar para o serviço de informações por 23 anos, o agente secreto Yoel Ravid passa em revista sua vida profissional e familiar. Afastado do serviço, ao tentar entender a nova ordem de enigmas surgida de seu convívio com o cotidiano da vida familiar, Yoel vê desmoronar suas táticas profissionais. Diante da trágica morte da esposa, procura compreender a mulher que, apesar de amar, ele nunca conheceu completamente; com ela travou durante anos uma batalha subterrânea cujos motivos também lhe escapam. A história de Yoel, assim como a daqueles que o rodeiam – a filha epiléptica, a sensual vizinha americana e seu irmão voyeur, o corretor de imóveis Krantz, a moça de Bancoc –, está repleta de enigmas, de pontos em suspenso que, como uma linguagem em código, exigem decifração. Numa prosa marcada pelo equilíbrio entre concisão e expressividade, Amós Oz traça as linhas que fazem do passado e do presente matéria de uma contínua reflexão e ponto de partida para a descoberta de novas possibilidades de conduta. A trajetória de Yoel Ravid, que tem aproximadamente a mesma idade do Estado de Israel, pode ser lida como uma sutil alegoria da situação política israelense, que, convivendo com ameaças constantes, deve encontrar em meio aos conflitos as interpretações e respostas mais adequadas para instaurar uma nova ordem regional. Este é um romance arquitetado com rara versatilidade: história de detetive entrelaçada a uma aventura doméstica e existencialista, que põe o conhecimento de si mesmo e do outro como a mais premente missão.

2. Fima. Com graça, agudeza e conhecimento profundo da alma humana, Amós Oz traça o retrato de um homem e de uma geração que teve sonhos nobres e generosos, mas é incapaz de fazer alguma coisa. Fima vive em Jerusalém, mas acha que deveria estar em outro lugar. Ao longo de sua vida, teve diversos amores, foi um jovem poeta promissor, meditou acerca do sentido do universo, polemizou sobre os descaminhos de Israel, elaborou uma fantasia detalhada sobre a criação de um novo movimento político e sentiu a ânsia constante de abrir um novo capítulo em sua vida. E ei-lo agora, aos 54 anos, em seu apartamento imundo, numa manhã cinzenta e úmida, travando uma batalha humilhante para soltar a ponta de sua camisa presa no zíper da calça.

3. O mesmo mar,  o mais alto grau de elaboração literária de Amós Oz. Neste romance introspectivo e poético, as guerras existem, mas são guerras da intimidade – como a do próprio Oz, que no livro aparece no papel de um escritor e faz referência a uma tragédia pessoal: o suicídio de sua mãe, quando ele tinha doze anos. A certa altura da narrativa, uma mulher jovem vai lhe dizer que há algo de ridículo num homem que há 45 anos está de luto pela mãe. O autor, entretanto, é uma personagem a mais, e o vigor do romance evidentemente não se vincula a essa exposição autobiográfica direta. O enredo vai se revelando numa seqüência de seções curtas, compostas às vezes no tom casual e ameno das conversas de todo dia, às vezes como parábola bíblica, fábula, sonho ou poema. O mundo em que vivem as personagens de Amós Oz é barulhento, mas o romance, paradoxalmente, cria um intimismo que convida os leitores a se concentrar no que elas estão dizendo.

4. Meu Michel, o romance que projetou Amós Oz no cenário literário do Ocidente. Em 1998, quando o escritor recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de Israel, uma ala da direita israelense apresentou queixa num tribunal, alegando que os textos escritos por ele provocavam dor. O que se pode fazer contra a dor que um texto é capaz de provocar? À parte as implicações políticas locais, esse episódio que comporta algo de grotesco apenas confirmou a força da literatura de Oz. Lançado em Israel em 1968 e reeditado agora no Brasil com nova tradução, este é o retrato magistral de uma mulher que desliza lentamente para a névoa do delírio esquizofrênico, na Jerusalém da década de 1960. A protagonista, Hana Gonen, trinta anos, é casada com um geólogo calmo, trabalhador, sensível – o "meu Michel" –, um bom cidadão que, ao contrário da mulher, se recusa a estender seus sonhos para além da linha do despertar. Para Michel, o tempo presente é a matéria dócil com a qual se deve moldar o futuro. Já Hana se apega à memória e às palavras como quem se agarra a um parapeito num lugar muito alto. Com o passar do tempo, como uma ravina no deserto – tema da tese de doutorado de Michel –, a fenda entre os dois se alarga. Abandonada aos próprios pensamentos, girando em volta de si mesma, Hana deixa de ter o mundo exterior como referência. Os contornos se borram. Schízo – em grego, "cisão", "separação" – é o termo para esse desgarrar-se da realidade, para o delírio que aos poucos cresce dentro dela como uma planta exuberante, feita do desencontro assustador e doloroso entre atos, desejos, memória e palavra.

5. Não diga noite, a aparente banalidade de uma crise conjugal revelada com lirismo e ironia, dosados com a sutileza própria desse mestre da narrativa contemporânea. Entre meias palavras e palavras não ditas, Teo e Noa conversam sobre o dia-a-dia, num diálogo pontuado pelo cansaço dos anos de convivência. Ao procurar o sentido que se esconde e se revela em cada frase, o casal tenta se decifrar num curioso jogo em que uma palavra pode significar seu oposto. Passando do cômico ao trágico sem qualquer reviravolta dramática, Amós Oz transforma a relação entre os dois amantes numa narrativa sutil que surpreende pelo modo como são vistos os acontecimentos mais banais.

6. Pantera no porão, misto de autobiografia e romance de formação, este livro investiga com humor e poesia a tênue fronteira entre o real e a ficção, entre a infância e a idade adulta, no conturbado alvorecer do Estado de Israel. Aqui o leitor é conduzido à Jerusalém de 1947, às vésperas do fim da ocupação britânica e da criação do Estado de Israel. O protagonista é um garoto judeu de doze anos, filho de imigrantes poloneses, chamado de Prófi (diminutivo de professor) devido a sua obsessão pelas palavras. Uma noite, surpreendido na rua após o toque de recolher, Prófi conhece o sargento britânico Dunlop, um amante das tradições judaicas que fala um hebraico comicamente arcaico. Os dois ficam amigos: Dunlop ensina inglês a Prófi, este lhe ensina hebraico moderno. Membro fundador da organização secreta LOM (Liberdade ou Morte), Prófi acredita poder extrair do amigo/inimigo importantes segredos estratégicos. Mas os dois outros membros da organização, Ben Hur e Tchita Reznik, vêem a coisa de outro modo: picham a frase "Prófi é um traidor infame" na parede de sua casa e submetem-no a um julgamento sumário. Ao mesmo tempo que fantasia inúmeros meios de limpar sua honra e ajudar Israel a vencer seus inimigos (os ingleses e os árabes, antes de tudo), Prófi se vê às voltas com sentimentos confusos pela irmã mais velha de Ben Hur, Yardena, que um dia ele viu nua pela janela, sem querer. Narrado retrospectivamente pelo protagonista já adulto, Pantera no porão não apenas reconstitui a vida cotidiana em Jerusalém num momento crucial da história de Israel, como também capta o delicado e inefável momento da passagem da infância à idade adulta, no qual a fronteira entre a fantasia e a realidade ainda não está totalmente delineada. Numa prosa leve, envolvente e bem-humorada, Amós Oz põe em discussão conceitos como traição e lealdade e exalta a compreensão humana acima dos conflitos étnicos, nacionais e religiosos.

Já encontram novo livro de Buchi Emecheta no Brasil

Adah, a mesma protagonista de Cidadã de segunda-classe, tem que criar e sustentar sozinha os cinco filhos, vivendo no subúrbio de Londres, em um lugar que ela chama de "o fundo do poço". Tentando manter seu trabalho diário e suas aulas noturnas em busca de um diploma, ela se vê às voltas com o serviço de assistência social, que lhes classifica como "família problema". É onde Adah encontra uma causa comum com seus vizinhos brancos da classe trabalhadora e sua luta contra um sistema social que parece destinado a oprimir todas as mulheres. A tradução de No fundo do poço é Julia Dantas e sai pela Dublinense.

Sexta-feira, 3 de maio

Livro de destaque na carreira de Audre Lorde é o novo título na coleção éFe da Autêntica Editora

Audre Lorde é muitas e única. Mulher negra, poeta, lésbica e guerreira. Mãe e professora. Ativista e pensadora. Todas essas facetas coexistem nos ensaios de Irmã outsider, em harmonia. O pensamento de Lorde é profundamente enraizado na experiência de estar fora do que chamou de "norma mítica" – branca, heterossexual, magra. O olhar da outsider, deslocado, estrangeiro, é capaz de análises certeiras sobre a necessidade de agirmos para transformar a sociedade. Tal como sublinha Stephanie Borges, tradutora dos textos agora publicados pela primeira vez no Brasil, "carinhosamente, Lorde nos convida a enfrentar nossos medos e a quebrar silêncios. Descolonizar nossas mentes e encontrar outras formas de sentir e pensar. Ler Irmã outsider é um modo de começar." Este é o livro mais célebre de Lorde e os 15 escritos aí reunidos datal de entre 1975 e 1983. São ensaios e conferências que costuram temas recorrentes em seus nove livros de poesia e cinco de prosa: sexualidade, autocuidado, racismo, amor, sexismo, classe, LGBTfobia.

Nova edição para as fábulas de Esopo

Fábulas são pequenas histórias que terminam com um breve ensinamento e em geral são representadas por animais que pensam como gente. Aqui estão presentes 67 histórias que a tradição atribui a Esopo, um dos maiores contadores de fábulas de todos os tempos, que viveu há mais de três mil anos na Grécia. Com adaptação de Guilherme Figueiredo, esta edição conta com as belas ilustrações de Alexandre Camanho, além de um glossário que ajuda os leitores a aproveitarem melhor cada fábula. A edição é da Editora Nova Fronteira.

A Editora Aleph anunciou o lançamento de uma nova versão de um clássico romance de Philip K. Dick

A edição tem design de Giovanna Cianelli e capa de Rafael Coutinho, fortemente inspirada no estilo de Norman Rockwell, artista conhecido por retratar o estilo de vida estadunidense no início do século XX. O Homem do Castelo Alto foi publicado originalmente em 1962 e se passa em uma versão alternativa da Segunda Guerra Mundial. No livro de K. Dick, os exércitos do Eixo teriam ganhado a guerra, depois do assassinato de Franklin D. Roosevelt em 1933 – quando o presidente dos Estados Unidos sofreu um atentado à sua vida, mas que acabou vitimando Anton Cermak, então prefeito de Chicago. O livro inspirou a série The Man in the High Castle, que chega ao fim em sua quarta temporada.

DICAS DE LEITURA

1. As odes de um poeta àquelas criaturas que nascem com o gostoso e fatal veneno da lascívia. Falávamos sobre edições artesanais, eis uma: Odes a Maximin, pelo coletivo Garupa. Este livro nasceu, como de praxe no trabalho do poeta Ricardo Domeneck, de uma obsessão varonil. Era o verão berlinense de 2011 quando o poeta chegou à casa de amigos gays que conversavam alto e animadamente sobre um rapaz que aparecera em uma festa dias atrás. Aos dezenove anos e com cachos pendentes sobre o rosto, o rapaz deixara os rapazes em polvorosa. "Exibia-se!", diziam. Uma mera semana depois, o poeta o conheceria por acaso em outra festa. Corte na ilha de edição da memória para este verão brasileiro de 2018, sete anos mais tarde, após um caso tórrido, muitas noites em claro nos inferninhos berlinenses, muitas conversas e brigas, e eis que chega às mãos do leitor este Odes a Maximin – que não é o nome do rapaz, pois o poeta esconde embaixo deste codinome aquele que antes se escondia sob cachos, como as sujeiras debaixo de um tapete, assim como Adélia Prado escondeu o seu Jonathan e Cazuza escondeu seu Beija-Flor. Se na obra anterior do poeta, o homoerotismo erguia sua cabeça e outras extremidades em vários poemas, este é certamente sua mais desbragada e honesta declaração de paixão homoerótica. Influenciado pela poesia homoerótica grega e latina, o livro tem como pano de fundo histórico o culto a Antínoo e também o culto a Maximin no chamado Círculo de George, do poeta alemão Stefan George. Pois existiu deveras um Maximin histórico, o jovem poeta berlinense Maximilian Kronberger (1888-1908), que seria praticamente divinizado em poemas por Stefan George após sua morte precoce. O livro une-se a tantos outros relatos em prosa ou verso dedicados por autores a paixões, como os poemas de Frank O’Hara para o dançarino Vincent Warren na década de 1950, ou, já que falamos em um Vincent, também o diário da relação conturbada do francês Hervé Guibert com um rapaz parisiense em Fou de Vincent (1989). A tonalidade por vezes clássica do livro está também no seu projeto gráfico, que segue tendências da edição de livros tradicional, como a capa dura e a tipografia serifada. Cada exemplar traz uma de doze cartas escritas pelo poeta, como quando encontramos uma carta esquecida em algum livro no sebo. Já a temática homoerótica do livro aparece nas ilustrações do artista alemão David Schiesser, que intercalam os poemas.

2. Novo livro de Ian McEwan. Lá fora lido já como um trabalho que apesar não estar situado entre os primeiros, nem entre os dez, do escritor, não deve ser nunca uma obra menor. É que o escritor britânico é tão magistral em sua prosa e um pensador provocativo que até mesmo seus romances menores deixam marcas – palavras de Jeff Giles no The New York Times sobre Máquinas como eu, editado por aqui pela Companhia das Letras. A narrativa deste romance é situada em Londres, 1982. A Grã-Bretanha perdeu a Guerra das Malvinas. A primeira-ministra Margareth Thatcher tem seu poder desestabilizado ao ser desafiada pelo esquerdista Tony Benn. O matemático Alan Turing vive sua homossexualidade plenamente e suas contribuições para o avanço da tecnologia permitiram não só a disseminação da internet e dos smartphones como a criação dos primeiros humanos sintéticos, com aparência e inteligência altamente fidedignas. É nesse mundo que Charlie, Miranda e Adão ― o robô que divide a vida com o casal ― devem encontrar saída para seus sonhos e ambições, seus dramas morais e amorosos. O novo romance de Ian McEwan desafia nosso entendimento sobre humanos e não humanos e trata do perigo de criar coisas que estão além de nosso controle.

3. Os diários de Piglia. Pontualmente a Todavia Livros já nos trouxe o segundo volume desta obra de uma vida; tomara o fôlego prevaleça até o fim da longa jornada. Sai agora Os anos felizes. Neste livro o alter ego de Ricardo Piglia, oferece uma jornada inteligente e cheia de anedotas sobre a literatura latino-americana das décadas de 1960 e 1970. Se no volume anterior, Anos de formação (que também recomendamos), assistimos aos primeiros e decisivos passos do escritor iniciante, aqui sua carreira já se desenvolve a pleno vapor no mundo da literatura argentina, com a direção de uma revista, trabalhos editoriais, artigos, cursos e conferências. Renzi torna-se Piglia, dublê de intelectual que passa a ganhar cada vez mais importância. Nestas páginas envolventes, repletas de insights e muito brilho, a obsessão de Piglia pela literatura materializa-se em ideias e esboços de histórias e romances, leituras, encontros com escritores consagrados ― Borges, Puig, Roa Bastos e muitos outros ― e colegas de geração. Também são especiais as inúmeras reflexões sobre a escrita e a respeito do trabalho de autores clássicos e romancistas. E ainda aparecem as viagens, a vida íntima e amorosa, a Argentina daqueles anos convulsivos: a morte de Perón, o surgimento dos grupos guerrilheiros, o golpe militar que esfacelaria o mundo intelectual de Buenos Aires. 

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

A estreia de Maiakóvski como ator aconteceu num pequeno papel no filme Drama no Cabaré dos Futuristas N° 13, de Vladímir Kassiânov, em 1914. Ao todo foram três filmes em que poeta russo atua como protagonista; Não nascido para o dinheiro, baseado no livro Martin Eden, de Jack London; A senhorita e o baderneiro, um sucesso de bilheteria que ficou em cartaz por muitos anos e foi também dirigido do começo ao fim pelo próprio Maiakóvski. Neste filme, a personagem é baseada parcialmente no próprio poeta e também inspirado pelo livro escritor italiano Edmondo de Amicis A professora do trabalhador. Há uma versão online aqui. E o terceiro filme foi Algemado pelo filme, de Nikandr Turkin, do qual foi conservado algumas passagens como esta em que se mostra a personagem de Maiakóvski, o Artista, sendo apresentada à Bailarina. A narrativa é uma adaptação do mito grego de Pigmalião, que se apaixonou por sua própria escultura. O Artista se apaixona pela imagem que vê em um filme, a Bailarina (interpretada pela musa de Maiakóvski na vida real, Lilia Brik) e tem um caso amoroso imaginário com ela.

BAÚ DE LETRAS

A semana no blog começou com um texto de nosso colunista Pedro Belo Clara. Graças a ele, Eugénio de Andrade deve ser o escritor português, depois de José Saramago, António Lobo Antunes e Fernando Pessoa, mais comentado por aqui. Daí recordamos a primeira post apresentada no Letras que traz alguns traços biobibliográficos sobre o poeta. 

.........................
Sigam o Letras no FacebookTwitterTumblrGoogle+InstagramFlipboard 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os segredos da Senhora Wilde

Os mistérios de "Impressão, nascer do sol", de Claude Monet

Os melhores de 2018: poesia

Treze obras da literatura que têm gatos como protagonistas

Andorinha, andorinha, de Manuel Bandeira

Em busca da adolescente que abriu caminho a Virginia Woolf e Sylvia Plath

Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela, de Ignácio de Loyola Brandão