Boletim Letras 360º #327


Aos poucos leitores que demonstraram preocupação com nosso futuro no Facebook, depois que revelamos sobre os ataques de censura ao conteúdo sofridos por nossa página nesta rede social, deixamos registrados por aqui nosso agradecimento. Os apoios, por breves que sejam, não é demais repetir, sempre nos dão alguma força sobre a necessidade de seguir e, por vezes, tal estímulo findam por nos oferecer algumas saídas. Nesta semana, sofremos outros dois ataques, devidamente denunciados, enquanto seguimos à espera de alguma satisfação por parte da rede. Agora, diferentemente, das outras posts censuradas, revidamos oferecendo de alguma maneira a garantia da postagem e sua veiculação noutras páginas do blog. É possível, como já buscamos experimentar, que utilizemos mais o Twitter; embora o público nessa rede seja minúsculo, variável, incapaz de crescer, além das limitações com as possibilidades do que trabalhamos, é uma alternativa interessante frente à gulodice dos algoritmos do Sr. Zuck. Mesmo assim, o aquecimento propiciado pelas notícias, sobretudo dos lançamentos de livros serviram para uma semana intensa por lá. Abaixo tem o registro de tudo, além das dicas de leituras e nossas recomendações de novos caminhos em nosso círculo de literaturas.

Aparece um registro da possível voz de Frida Kahlo. Mais notícias sobre ao longo deste Boletim.


Segunda-feira, 10 de junho

Os anos, de Annie Ernaux

Uma das principais escritoras francesas da atualidade, Annie Ernaux empreende neste livro a ambiciosa e bem-sucedida tarefa de escrever uma autobiografia impessoal. Com ousadia e precisão estilística, ela lança mão de um sujeito coletivo e indeterminado, que ocupa o lugar do eu para dar luz a um novo gênero literário, no qual o registro pessoal se mescla à grande História, numa singular evocação do tempo. Consciente do caráter fugidio e maleável da memória, Ernaux abraça a incerteza e faz dela um trunfo: “Assim como o desejo sexual, a memória nunca se interrompe. Ela equipara mortos e vivos, pessoas reais e imaginárias, sonho e história”. Dotada de uma profunda sensibilidade social, Ernaux, cuja obra é permeada pela temática de sua origem humilde, revoluciona o conceito de autobiografia ao situá-lo dentro do campo da sociologia, transitando entre a subjetividade e o coletivo, entre a experiência íntima e o peso das grandes narrativas sobre os indivíduos. Para isso, a autora se debruça sobre fotos de família, entradas de diário, notícias de jornal e recordações variadas de um tempo cujas transformações ela própria vivenciou. Por ter nascido em 1940, em uma pequena cidade no interior da França, Annie Ernaux pertence a uma geração que veio ao mundo tarde demais para se lembrar da guerra, mas que foi portadora das recordações e mitologias familiares daquele tempo. Uma geração que nasceu cedo demais para estar à frente de Maio de 68, mas que ainda assim viu nas manifestações a possibilidade para os mais jovens de uma liberdade que por pouco não pôde gozar. Finalista do International Booker Prize e vencedor dos prêmios Renaudot na França e Strega na Itália, Os anos é uma meditação filosófica poderosa e uma saborosa crônica de seu tempo. Pela prosa original de Ernaux, vemos passar seis décadas de acontecimentos, entre eles a Guerra da Argélia, a revolução dos costumes, o nascimento da sociedade de consumo, a virada do milênio, o 11 de Setembro e as inovações tecnológicas, signo sob o qual vivemos até hoje. das principais escritoras francesas da atualidade, Annie Ernaux empreende neste livro a ambiciosa e sucedida tarefa de escrever uma autobiografia impessoal. Com ousadia precisão estilística, ela lança mão de sujeito coletivo e indeterminado, ocupa o lugar do eu para dar luz a novo gênero literário, no qual o registro pessoal se mescla à grande História, numa evocação do tempo Consciente do caráter fugidio e maleável da memória, Ernaux abraça a incerteza e faz dela um trunfo: “Assim o desejo sexual, a memória se interrompe. Ela equipara e vivos, pessoas reais e imaginárias, sonho e história”. Dotada de uma profunda sensibilidade social, Ernaux, cuja obra é perpassada pela temática de sua origem humilde, revoluciona o conceito de autobiografia ao situá-lo dentro do da sociologia, transitando entre a subjetividade e o coletivo, entre a experiência íntima e o peso das grandes narrativas sobre os indivíduos. A autora se debruça sobre de família, entradas de diário, notícias de jornal e recordações variadas de um tempo cujas transformações ela própria vivenciou. Por ter nascido em 1940, em uma pequena cidade no interior da França, Ernaux pertence a uma geração que veio ao mundo tarde demais para lembrar da guerra, mas foi portadora das recordações e mitologias familiares daquele tempo.

A poesia de Hannah Arendt

Os leitores mais assíduos sabem que obra de Hannah Arendt integra o âmbito das reflexões mais importantes do pensamento filosófico do século XX. Em breve, outra face da autora de obras fundamentais como Origens do Totalitarismo ganhará projeção entre nós: a da poeta. Informações da coluna Babel, do jornal Estadão, confirmam que a poesia nunca publicada em vida e que veio a público em 2016 na Alemanha chegará ao Brasil. A coletânea alemã trouxe 71 poemas e, aqui, terão a tradução por Daniel Arelli. A antologia sai pela Relicário Edições possivelmente em 2020. São poemas escritos entre 1942 e 1961 e que contemplam diferentes etapas de sua vida – dos anos de formação ao exílio nos EEUU.

Terça-feira, 11 de junho

O poeta de Pondichéry, segundo título da obra de Adília Lopes pela Editora Moinhos.

Foi também o segundo livro da poeta portuguesa, publicado em 1986 pela Editora Frenesi e em 1998 pela Angelus Novos – é um conjunto de doze poemas que narra a história de “um jovem que escreve versos. O jovem poeta é recebido por Diderot, que se preocupa “com a fortuna do mau poeta” e “aconselha-o a partir para Pondichéry e a enriquecer lá”, como lemos na nota de introdução. Na opinião de “Diderot”, os versos são maus. E esse argumento, a má qualidade dos versos, dá a poeta ironista uma base para criar sua história própria. Estratégia à Adília, como vemos com a personagem Mariana Alcoforado, por exemplo, personagem em tantos poemas. A edição tem apresentação de Raquel Menezes.

Ainda em 2019, leitores poderão receber inéditos de Agustina Bessa-Luís.

Até ao final do ano, um volume com a correspondência da autora com o jornalista e escritor britânico Juan Rodolfo Wilcock deverá vir a público. Em declarações à Agência Lusa, Francisco Vale, editor da Relógio d’Água, colocou também a hipótese de se publicar, ainda em 2019, um volume de contos inéditos. A editora começou a republicar a extensa obra de Agustina — que inclui romances, peças de teatro, contos infantis e ensaios biográficos — em 2017. Nesse ano, saíram alguns dos livros mais famosos de Agustina, como A Sibila e Fanny Owen, acompanhados por novos prefácios. A edição das obras completas da autora pela Relógio d’Água vai continuar nos próximos anos. Desde 2017, já saíram 15 títulos.

Clube de leitura Rádio Londres

A editora Rádio Londres apresentou uma ideia sensacional, não porque o clube de leitura seja uma novidade cá entre nós; do contrário, tem se multiplicado vertiginosamente entre nós. Mas, é dada a qualidade das obras e dos autores revelados que um clube capaz de oferecer facilidades de acesso a esse universo — sim, este é o valor do sensacional da ideia. No novo site da casa, podem tirar todas as dúvidas sobre os planos de assinatura oferecidos e como aderir. Junto com a apresentação do clube, saíram também os títulos que começam a ser publicados a partir de junho e seguem mês a mês até outubro de 2019, e são:

1. Meu pequeno país, de Gaël Faye, a publicação de junho

Um romance de passagem à idade adulta sobre a infância, a guerra, o exílio e a questão da identidade, que conta os tormentos e as inquietações de um menino preso no mecanismo inexorável da História, tentando lidar com eventos que o obrigam a amadurecer mais cedo do que o previsto.

2. Canto da tarde planície, de Kent Haruf, o primeiro título de uma trilogia é a publicação de julho

Ambientado numa natureza desoladora e ainda intacta, caraterizado por uma mescla de consolo e ameaça, este romance desperta uma sensação de trama sutil e consegue extrair do anseio silencioso de uma mulher momentos fugazes de profunda beleza e compaixão. É um livro de grande profundidade que explora a condição humana em toda a sua complexidade.

3. Em agosto, O desvio, de Gerbrand Bakker

Ambientado numa natureza desoladora e ainda intacta, caraterizado por uma mescla de consolo e ameaça, este romance desperta uma sensação de trama sutil e consegue extrair do anseio silencioso de uma mulher momentos fugazes de profunda beleza e compaixão. É um livro de grande profundidade que explora a condição humana em toda a sua complexidade.

4. No final da tarde, o segundo título da trilogia de Ken Haruf, sai em setembro

O final da tarde desvela as verdades atemporais sobre o ser humano: sua fragilidade e resiliência, seu egoísmo e sua bondade, além de sua capacidade de encontrar uma família nos outros. É um livro intensamente melancólico, cheio de compaixão e esperança.

5. Em busca do Barão Corvo, de A J A Symons, é o livro de outubro

Um retrato hilário e, ao mesmo tempo, pungente de uma personagem estranha, aspirante frustrado a sacerdote, homem com um talento infinito para a autodestruição. É uma das biografias mais importantes de todos os tempos, uma obra duradoura da literatura inglesa do século XX.

6. E, em novembro, O imitador de homens, de Walter Tevis

Uma distopia moderna acerca das inquietações da raça humana, em que a tecnologia desenfreada se transforma de recurso em perigo. Um romance poderoso, assombroso e repleto de aflição, mas também capaz de celebrar o amor e a magia de um sonho.

Quarta-feira, 12 de junho

Romance inédito do escritor português Bruno Vieira Amaral chega ao Brasil.

Um romance singular sobre o poder da linguagem, das histórias e das artimanhas da memória. Segundo colocado no Prêmio Oceanos 2018. Neste poderoso romance autobiográfico, Bruno Vieira Amaral apaga a fronteira entre realidade e ficção e faz da literatura o instrumento para reconstituir um episódio de sua infância: o assassinato de seu primo João Jorge, em 1985, num bairro de uma periferia de Portugal. Ao rememorar o vilarejo em que cresceu, a relação com o pai ausente e o peso de nossa herança familiar, ele destrincha não apenas os acontecimentos relacionados ao crime, mas também os elementos que constituem sua própria história. Um verdadeiro elogio ao poder da linguagem, este livro ultrapassa a investigação factual ao trazer à tona um narrador observador e inquieto, sempre desconfiado das artimanhas da memória. Editado pela Companhia das Letras, Hoje estarás comigo no paraíso chega às livrarias a partir da primeira semana de agosto.

Reedição de um texto importante na literatura de Elias Canetti.

Vencedor do prêmio Nobel de literatura, Elias Canetti conjuga antropologia, psicanálise, economia política, história das religiões, ciência política e sociologia da cultura nesta obra-prima do ensaísmo contemporâneo. Assustado e pesaroso diante do espetáculo de adesão crescente das massas populares às organizações nazistas, na Alemanha e na Áustria dos anos 1930, o então jovem escritor Elias Canetti passou as três décadas seguintes tentando decifrar os segredos profundos da humanidade em suas manifestações mais corriqueiras e terríveis: mandar e obedecer; matar e sobreviver; medo e voracidade; paranoia e poder. O resultado dessa obsessão é esta obra-prima do ensaísmo, que une descrição narrativa a diversas áreas do saber ― entre elas, a antropologia, a psicanálise, a história das religiões e a ciência política ― e destrincha de modo singular a propagação do mal na contemporaneidade. Há muito fora de catálogo no Brasil, Massa e poder volta pela Coleção de Bolso da Companhia das Letras agora em julho.

Autora vencedora do Jabuti na categoria contos, Natalia Borges Polesso estreia no romance com um livro sobre o amor e a amizade entre duas mulheres.

Conhecida por sua escrita ritmada, informal e envolvente, Natalia Borges Polesso apresenta, em Controle, uma narrativa impactante sobre relações homoafetivas entre mulheres, o poder do desafio e, acima de tudo, as escolhas que precisam ser feitas para que as pessoas se tornem quem elas querem ser. Mesclando citações de letras da banda New Order em seu texto, a autora escreve um romance geracional que permanecerá na mente do leitor. A protagonista, Nanda, é epilética. Descobriu o transtorno ainda na infância, depois de uma queda de bicicleta, e sua vida nunca mais foi a mesma. Cercada de cuidado pelos pais, com medo de crescer e sair da casca protetora fornecida por sua condição, ela evita ao máximo o contato humano ― exceto pela amiga, Joana. Mas compartilhar o que acontece na vida de outra pessoa não é como viver junto dela. Nanda se pergunta até quando conseguirá manter a rotina morna que leva. Porém, seu dia a dia será posto em xeque quando ela finalmente se der conta de que não viveu. “Raros escritores transitam com a mesma desenvoltura entre o conto e o romance. Natalia Borges Polesso é um desses casos. Autora do premiado Amora, ela faz em Controle a sua primeira incursão pelo romance, e o resultado é uma narrativa bela, potente e transformadora”, sublinha Carola Saavedra. O livro sai pela Companhia das Letras na segunda semana de julho.

A autobiografia de Pablo Neruda em edição atualizada com textos inéditos.

Em sua obra autobiográfica, o poeta chileno Pablo Neruda narra desde as memórias de sua longínqua infância até o duro golpe que derrubou Salvador Allende do governo chileno. Através do apaixonante relato dos fatos mais interessantes de sua jornada, Neruda afirma que sua vida foi feita de todas as vidas: as vidas do poeta. Ele confessa: “Do que deixei escrito nestas páginas se desprenderão sempre ― como nos arvoredos de outono e como no tempo das vinhas ― as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado.” Seja na prosa, seja na poesia, a intensidade lírica do poeta contagia e nos arrebata com sua habilidade literária. A edição é da Bertrand Brasil.

Entre a Barra da Tijuca e o balneário mexicano de Cancún, um comovente romance de formação, mergulho de rara sinceridade em temas como religião e paternidade.

Às portas da adolescência, Joel sente-se deslocado entre os amigos da escola e do prédio onde mora. O ano é 1998 e o mundo parece cada vez mais um lugar ameaçador. Ao mesmo tempo em que busca acolhimento num grupo de jovens de uma igreja evangélica, entra em colisão com o modo de vida do pai, que acaba de regressar ao Brasil após quatro misteriosos anos na cidade de Cancún. Décadas depois, com a morte do pai, longe da religião e prestes a ter um filho, Joel decide voltar, sozinho, ao balneário mexicano. Ao tentar repetir os passos paternos, uma viagem simples se torna complexa, e o que se evidencia são os caminhos que levaram Joel a ser quem é. Com uma prosa clara e irretocável, Miguel Del Castillo faz o retrato de uma classe forjada em condomínios fechados e paraísos fiscais, em colégios onde a violência é a regra e no brilho plástico dos fast-foods. Um dos romances mais surpreendentes da nova geração de autores brasileiros. “Miguel Del Castillo conduz o leitor com firme serenidade por um relato impecavelmente estruturado, no qual a família é a expressão imperfeita e acolhedora dos mistérios da vida”, destaca Daniel Galera. Para Noemi Jaffe, “Nesta jornada sutil de reconhecimento do pai, o que está em jogo, ao fim, são as zonas de sombra de todos nós”. Cancún sai na primeira semana de julho pela Companhia das Letras.

No dia em que se passam os 90 anos de Anne Frank, uma novidade: o Grupo Editorial Record publicará a edição que reúne inéditos e a versão mais autoral dos diários.

Antes mesmo de ser presenteada com um diário em seu 13º aniversário, no dia 12 de junho de 1942, Anne Frank já gostava de escrever. Ela rabiscava versinhos, às vezes nos cadernos de suas colegas de escola, e se correspondia com sua avó desde 1936. Nas cartas, Anne comentava de assuntos adolescentes — meninos, visitas ao dentista, a bicicleta, a mochila e o vestido que ganhou dos pais — às carências trazidas pela guerra. Anne também escrevia contos, anotava suas citações favoritas em num caderno e esboçou um romance, A vida de Cady. Todos esses escritos — os versinhos, as cartas, o romance inacabado, os contos — e outros, como as três versões do diário e punhado de anotações sobre faraós e o Antigo Egito que ela redigiu para um trabalho escolar, compõem sua Obra reunida que a Record publica por aqui em novembro. Os Contos do esconderijo apareceram em português em 1984, mas boa parte das cartas, das fotografias, dos textos críticos inclusos na Obra reunida são inéditos para o público brasileiro — tudo traduzido direto do holandês por Cristiano Zwiesele do Amaral. Os textos da Obra reunida, mesmo os inéditos, não pintam uma nova Anne Frank, mas revelam algumas coisas sobre o contexto em que ela viveu.

Quinta-feira, 13 de junho

Alguns caminhos para chegar a'Os sertões, de Euclides da Cunha

Com sua escrita poética e ampla interpretação do país, Os sertões é uma das mais importantes obras da cultura brasileira. Lançado em 1902, o relato da guerra de Canudos foi um sucesso imediato e instalou-se em definitivo no cânone nacional, tornando-se referência incontornável a todos que desejam entender a história do Brasil. Escrito por um dos maiores pesquisadores de Euclides da Cunha, A terra, o homem, a luta é a leitura perfeita para quem deseja se iniciar neste clássico nacional. Enriqueci­do com imagens e um novo prefácio assinado por Milton Hatoum, o livro abre caminhos para a leitura não só da obra, mas também dos pioneiros ensaios euclidianos sobre a Amazônia, além de abordar aspectos da vida do escritor. Originalmente publicado dentro da coleção “Folha explica”, o livro ganha uma nova edição no ano em que Euclides da Cunha é o autor homenageado da Flip. Roberto Ventura foi professor de teoria lite­rária e literatura comparada da Universidade de São Paulo. A nova edição é da Três estrelas editora.

As cartas entre Graciliano Ramos e Candido Portinari em exposição online

A universalização de Portinari, sua vida e obra, foi anunciada pelo Google Arts & Culture. A coleção conta com mais de 5 mil obras e 15 mil cartas e documentos do artista, que é o primeiro brasileiro a ter uma retrospectiva na plataforma. Todos os materiais estão em alta resolução, o que permite o internauta conhecer detalhes de obras emblemáticas como Mestiço (1934), Lavrador de Café (1934) e Café (1935). A captura de cada detalhe foi feita pela Art Camera, uma câmera de altíssima resolução (gigapixel). Em uma das cartas enviadas pelo alagoano ao pintor, Graciliano Ramos questiona Portinari sobre o sentido da arte e pergunta se ele acredita que a arte depende da desgraça de alguns para ter sucesso. O escritor também relata que saiu atordoado da casa de Portinari, indagando se seria possível fazer arte em um mundo feliz e se era correto ambos os artistas falarem de universos dos quais não tinham propriedade (tanto o escritor quanto o pintor retratavam a miséria humana e a pobreza em suas obras). A retrospectiva foi Intitulada: Portinari: O pintor do povo. Veja aqui.

Sexta-feira, 14 de junho

A voz de Frida Kahlo?

O enigma sobre a voz da pintora mexicana começou a ser resolvido. A Fonoteca Nacional do México publicou uma gravação radiofônica na qual Frida recita fragmentos de “Retrato de Diego”, um texto que escreveu em 1949 para descrever o companheiro e também pintor Diego Rivera. A secretaria de cultura do país assegura que o registro possui várias coincidências suscetíveis à tese de ser a voz de Frida. Por dois minutos uma voz pausada, tranquila e de timbre doce descreve Rivera. A gravação é parte de um dos programas que o locutor Álvaro Gálvez y Fuentes produziu em 1956 para a XEW. Ele ficou conhecido nesses anos por conseguir entrevistas exclusivas com personagens da cultura como Xavier Villaurrutia, Alfonso Reys e Jorge Luis Borges, entre outras. A descoberta se deu em janeiro deste ano quando o diretor da Fonoteca Nacional, Pável Granados, viajou a Huamantla, centro do México, para reencontrar-se com o locutor da XEW Manuel de la Vega que lhe assegurava ter uma gravação com registro de Diego Rivera. Ao revisar o material, Pável se surpreendeu ao encontrar o fragmento com registro de Frida. O programa era dedicado a Diego e trazia relatos de amigos e colegas. Ouça o registro aqui.

Uma coleção para mostrar a poesia portuguesa contemporânea aos leitores brasileiros

As Edições Macondo preparam a Colecção, projeto que apresenta ao público brasileiro cinco nomes da poesia portuguesa atual. São livros de autores que ainda não foram publicados no Brasil, como é o caso de Cláudia R. Sampaio e Miguel Cardoso, e também de poetas que já possuem uma certa recepção no país, como Manuel de Freitas. Dos três autores citados saem Inteira como um coice do universo, Víveres e Ubi Sunt, respectivamente. Além destes livros, publicam-se Um quarto em Atenas, de Tatiana Faia e Antes da iluminação, de Mariano Alejandro Ribeiro. Os livros saem entre este mês e setembro e os leitores têm a oportunidade de realizar assinatura para receber mês a mês as publicações. Para saber mais detalhes e-ou realizar a assinatura pode visitar aqui.

Mulheres e ficção, de Virginia Woolf

Após a morte da escritora, a maior parte do manuscrito Women and fiction foi entregue por Leonard Woolf ao Museu Fitzwilliam, em Cambridge, onde, até sua redescoberta, ficou praticamente desconhecido por quase 50 anos. Este é o principal ensaio e título de uma série de palestras ministradas por Woolf no Newnham College e no Girton College, duas faculdades de mulheres da Universidade de Cambridge. Aí, a escritora traça as razões para as conquistas muito limitadas entre as mulheres romancistas através dos séculos. Por que eles falharam? Eles falharam porque não eram financeiramente independentes; falharam porque não eram intelectualmente livres; porque lhes foi negada a mais completa experiência mundana. É um texto que continua sendo uma importante reflexão feminista sobre a relação mulheres e literatura e sai em breve pela Penguin / Companhia.

Antonio Tabucchi tem nova casa editorial no Brasil, a Editora Estação Liberdade

O anúncio foi feito no comunicado sobre as celebrações dos 30 anos da editora. “Depois de termos introduzido ou readmitido por aqui autores como André Gide, Heinrich Böll, Hans Fallada, Yasunari Kawabata e outros, agora nos toca trazer à baila Antonio Tabucchi e sua profícua fusão dos mundos italiano e português, tanto em inéditos quanto em reedições”. Antes da reedição de títulos que ficaram conhecidos entre os leitores brasileiros pela extinta Cosac Naify, a Estação Liberdade publicará o livro póstumo Para Isabel. Neste livro, que pode ser descrito como uma alucinação o escritor funde elementos do fantástico, com os dos romances de investigação e metafísicos. Antonio Tabucchi nasceu em Pisa, onde fez os seus estudos, primeiro na Faculdade de Letras e depois na Scuola Normale Superiore. Ensinou nas Universidades de Bolonha, Roma, Génova e Siena. Foi professor visitante no Bard College de Nova York, na École de Hautes Études de Paris e no Collège de France. Publicou 27 livros, entre romances, contos, ensaios e textos teatrais. As suas obras estão traduzidas em mais de 40 países. Por aqui, são conhecidos títulos como Noturno indiano, Afirma Pereira e Requiem, obras que foram adaptadas ao cinema respectivamente por Fernando Lopes, Alain Corneau, Roberto Faenza e Alain Tanner.

DICAS DE LEITURA

Esta foi uma semana de aniversariantes importantes; citamos apenas três, dentre muitos: Fernando Pessoa, Saul Bellow e Yasunari Kawabata. A obra de cada um desses escritores é grandiosa e formam três universos que, suspeitamos, seja impossível de um leitor mortal consiga abarcar todos eles. Mas, sempre há os que leram extensa parte deles e nos deixam dicas de títulos indispensáveis. Foi, seguindo esse interesse que pensamos em recomendar nesta seção um título de cada um desses autores. É possível que não seja o mais importante do universo criativo de cada escritor, mas é de alguma maneira uma possibilidade de não sucumbir alheio a ele.

1. Contos completos, fábulas & Crônicas decorativas, de Fernando Pessoa. Estamos diante uma das excepcionais mentes criativas. Impossível de se conter, produziu uma variedade de outros escritores, cada qual excepcional. Ninguém negará que Pessoa é um paradigma para a poesia moderna universal. E é quase certo que muitos leitores, sobretudo os de língua portuguesa, tenham cruzado com a leitura de algum poema seu e sabe-o, portanto, poeta. Mas, é caso de descobrir a face de ficcionista; esta aparece integrada no amplo baú de inéditos que tem se revelado ano após ano desde sua morte. A coletânea aqui recomendada foi publicada em 2018 pela editora Carambaia, como parte do selo Ilimitada. É formada por 14 textos deixados por Fernando Pessoa; textos concluídos e revisados – que se diga. Entre eles, está um inédito em livro. Além desse material, o leitor tem acesso a três contos do escritor estadunidense O. Henry que foram traduzidos pelo próprio escritor. Esta antologia foi organizada pelo poeta e tradutor angolano Zetho Cunha Gonçalves, um dos principais estudiosos da obra do criador português. Este livro, portanto, é uma aposta a se percorrer por lugares que diríamos incomuns na obra de Pessoa. Incomuns, mas não menores.

2. As aventuras de Augie March, de Saul Bellow. O escritor nascido no Canadá em 1915 e Prêmio Nobel de Literatura em 1976 escreveu 14 romances, além de novelas, contos e ensaios. Desde 2009, a Companhia das Letras tem publicado sua obra por aqui e está muito distante de colocar um ponto final na empreitada; do universo de grande amplitude só temos, por esta casa editorial quatro novelas e quatro romances. James Wood recomendaria Agarre a vida, livro que saiu por aqui pela editora Rocco e fácil de encontrar em sebos. Mas, do universo que vimos citando antes, recomendamos o romance acima citado; foi o que, depois de sua aparição em 1953, deu projeção nacional e internacional a Saul Bellow, além, é claro, de ser reconhecidamente uma obra paradigmática da ficção produzida em língua inglesa. Consagra os bairros periféricos do sul de Chicago durante a Grande Depressão; é nesse cenário e nesse contexto por onde transita a personagem-título. A narrativa percorre do otimismo romântico da juventude ao cinismo pessimista da idade madura; Augie March é o arquétipo do anti-herói errante na literatura estadunidense moderna.

3. O país das neves, de Yasunari Kawabata. Este romance foi recomendado numa lista que apresentamos no início de 2019. Por isso, voltamos a ele. A primeira versão desta obra data de 1937, mas só uma década depois que o escritor japonês deu por finalizada. Trata-se de um romance sobre o amor espontâneo e sem nenhuma esperança de retribuição; nele o Prêmio Nobel de Literatura expõe a densidade e as contradições das relações humanas a partir da narrativa sobre o encontro entre Shimamura, um culto senhor de posses, Komako, uma gueixa das montanhas, e Yoko, uma bela jovem provinciana. No Brasil, o leitor encontra este livro publicado pela Editora Estação Liberdade.

VÍDEOS VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. Ainda considerando o aniversariante ilustre, Fernando Pessoa (tornará a encontrá-lo na seção seguinte), poderá encontrar alguns poemas seus no blog da revista 7faces. O destaque na sequência de poemas aqui apresentados são três poemas políticos – sim, Pessoa guardou e expôs opiniões bastante controversas sobre o tema. Bom, não expôs nesses poemas agora citados.

2. Outro nome de grande significado para a literatura – e para a história, depois que se tornou símbolo de luta dos judeus contra os horrores do nazismo –, e que deve ser lembrado aqui no rol dos aniversários é Anne Frank. Nesta semana, passaram-se os 90 anos do seu nascimento. Neste vídeo encontram são os únicos registros em movimento de Anne Frank. A menina autora do mais famoso diário da história da literatura tinha aqui 13 anos; aparece na janela do segundo andar de um prédio a observar um casal de noivos na rua. O registro data de 22 de julho de 1941, quase um ano antes de ser obrigada a se refugiar com a família num esconderijo devido à perseguição do nazismo contra os judeus. O vídeo é do arquivo do museu holandês Anne Frank House.

BAÚ DE LETRAS

1. Saul Bellow nasceu no dia 10 de junho de 1915. Recordamos duas publicações no Letras sobre o escritor e sua obra: a) um texto de J. M. Cotzee sobre o legado do escritor estadunidense para o romance moderno; b) e algumas notas biográficas que apresentam alguns traços da sua vida e obra.

2. Já Yasunari Kawabata nasceu no dia 11 de junho 1919, i.e., passam-se, agora, 120 anos do nascimento do escritor japonês que foi apresentado em nossa coluna Os escritores nesta post.

3. E, Fernando Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888. Das várias publicações do Letras sobre o poeta e sua múltipla obra, destacamos, nesta post publicada em nossa página no Facebook, dez delas.

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