“O Mago”, de Colm Tóibín recaptura intimamente um gigante literário

Por Dwight Garner

Thomas Mann. Foto: George Platt.


 
Thomas Mann começou seu longo e definitivo exílio da Alemanha em 1933, depois que Hitler chegou ao poder. Em seguida, o autor de A morte em Veneza e A montanha mágica fugiu para a Suíça com sua companheira, Katia, que era judia. Quando a Segunda Guerra Mundial estourou seis anos depois, os Mann fugiram para os Estados Unidos, primeiro para Princeton e depois para Los Angeles.
 
A família Mann — o casal tinha seis filhos — conseguiu resgatar alguns de seus pertences (móveis, pinturas, livros) da casa que haviam abandonado em Munique. Entre os itens deixados em sua fuga estavam os diários do escritor, guardados em um cofre em seu escritório. O ganhador do Nobel estava apavorado que os nazistas os encontrassem.
 
Goebbels não os encontrou. Mas há uma anedota curiosa sobre os escritos: quando finalmente foram publicados nas décadas de 1970 e 1980, mais de vinte anos após a morte de seu autor, fizeram sua vida e obra serem reavaliadas. Os jornais humanizavam um escritor que, fora de seus livros e às vezes neles, podia parecer altivo e pomposo, movido pelo protocolo e pela vaidade.
 
O romance sinfônico e comovente de Tóibín o humaniza ainda mais. Esta é a segunda vez que o escritor irlandês transforma a vida de um grande romancista numa ficção. O mestre (2004) tratou de Henry James nos últimos anos do século XIX. O gênero é arriscado.
 
A maioria dos que tentam se concentrar em um pequeno fragmento da vida do escritor, como Jay Parini fez com o último ano de Tolstói em A última estação (1990) ou Michael Cunningham em seu pontilista As horas (1998) com Virginia Woolf e outras mulheres ao longo de um único dia.
 
Em The Magician, Tóibín tenta capturar a vida e os tempos de Mann em sua totalidade à maneira de um biógrafo, e ele consegue habilmente. Maximalista em seu ponto de vista, mas íntimo em seu sentimento, o romance nunca parece ceder às expectativas. Como seu assunto, que é sombrio, mas também é espinhoso e estranho, às vezes tudo ao mesmo tempo.
 
Thomas Mann nasceu em 1875 em uma família rica em Lübeck. Seu pai era senador e comerciante de cereais, e quando ele morreu, sua família perdeu seu poder e influência e muito de seu dinheiro. A mãe mudou-se com os filhos para Munique. Esperava-se que Thomas, conhecido como Tommy quando jovem, se dedicasse aos negócios. Acreditava-se que seu irmão Heinrich, mais confiante de si mesmo, é que seria o escritor da família.
 
Mann publicou seu primeiro romance, Os Buddenbrook, quando tinha apenas 26 anos. Casou-se com Katia Pringsheim, a formidável filha de uma formidável família de Munique. Ela é talvez a personagem mais memorável de The Magician. Os diálogos de Tóibín soam metálicos, o autor é um Tom Stoppard romancista, e ele coloca muitas de suas melhores frases na boca de Katia. Sobre uma arquiduquesa arrogante, ela comenta: “Gostaria de vê-la na água. A água espirra sobre os poderosos de uma forma que não lhes faz nenhum favor.” Heinrich responde: “É assim que os impérios acabam, com um velho morcego maluco tratado servilmente em um hotel de província”.
 
O escritor alemão mantinha uma devoção monástica ao trabalho. Podia ser um pai distante. Um livro sobre seus relacionamentos com seus filhos poderia ser intitulado de A desumanidade de Mann com os Mann. Outras vezes, ele podia ser generoso e atencioso.
 
Sua família sabia de suas inclinações sexuais. “Em sua lista de acordos tácitos havia uma cláusula que estipulava que, assim como Thomas não faria nada que colocasse em risco sua felicidade doméstica”, diz Tóibín, “Katia reconheceria a natureza dos desejos do marido sem reclamar, tomaria nota, com tolerância e bom ânimo, dos tipos que ele mais gostava de olhar, e deixaria clara sua disposição, quando fosse apropriado, para apreciá-lo em suas diferentes formas”.
 
Tóibín, que também é homossexual, estendeu sua simpatia histórica aos párias sexuais. Como ele escreveu em outro lugar, “não há baladas do século XIX tratando da homossexualidade”. A dolorosa sublimação da homossexualidade na obra de Mann, especialmente em A montanha mágica, ambientada em um sanatório de tuberculosos, poderia fazê-la parecer uma doença.
 
A ficção do autor do autor de The Magician é animada pela atenção permanente que ele dá às tendências sexuais. Neste romance, Albert Einstein faz propostas a Katia enquanto Alma Mahler se insinua uma vez para Mann. Isso me lembrou do comentário de Edward St. Aubyn: “O maravilhoso dos romances históricos é que você conhece tantas personagens famosas. É como ler uma edição antiga da revista Hola.”
 
Este é um grande romance que flutua. Tóibín traça as mudanças sutis na postura política de Mann — muitos acham que sua condenação de Hitler veio tarde demais — e os altos e baixos de sua reputação.
 
Seus filhos brigaram bastante, especialmente Klaus e Erika — a última casou-se com W. H. Auden num relacionamento de conveniência —, que se tornaram personagens famosos, livres e sexualmente ambíguos na Alemanha de Weimar. A homossexualidade era uma característica da família Mann, assim como se insinuaram nela o suicídio, a gerontofilia e o incesto. Em seus diários, Mann confessou sua atração sexual por Klaus.
 
O grande tema do romance de Tóibín, como de grande parte da ficção de Mann, é a decadência: dos costumes e da moral, das famílias, dos países e das instituições. Thomas e Katia eram cada vez mais vestígios de um mundo anterior, fato do qual estavam dolorosamente cientes.
 
Katia está enojada porque “os líderes nazistas ouvem a mesma música que nós, olham as mesmas pinturas, leem a mesma poesia. Mas isso os faz pensar que representam uma civilização superior. E isso significa que ninguém está a salvo deles, muito menos os judeus”.
 
Mann se interessou durante toda a vida pela alma da Alemanha e pela genialidade de seus artistas. Em particular, ele era um admirador de Goethe. Sobre essa admiração, Tóibín diz: “Goethe imaginou muitas coisas, mas nunca Buchenwald”.

 
* Este texto é a tradução livre para “Colm Toibin’s ‘The Magician’ Intimately Recaptures a Literary Giant”, publicado aqui em The New York Times.

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