Bolor

Por David Toscana

Ilustração de P. Brissand para Eugénie Grandet


 
Em Eugénie Grandet, Honoré de Balzac descreve a casa do Sr. Grandet no distrito de Saumur com adjetivos nada lisonjeiros e diz que “As duas pilastras e a abóbada que formam a abertura da porta tinham sido, como a casa, construídas com tufo, uma pedra branca peculiar à região de Loire e tão mole que sua duração média é de apenas duzentos anos.”
 
A pedra é porosa e absorve uma boa quantidade de umidade, por isso pode ser péssimo isolante no inverno e tende a desenvolver mofo. Há uma grande quantidade de edifícios na área do Loire, incluindo muitos pequenos castelos ou châteaux, que usam este tufo. Alguns deles estão de pé desde o século XV, sugerindo que Balzac tem mais habilidade como prosador do que como pedreiro.
 
Mas não é meu desejo observar levantamentos rupestres, mas apontar que para Balzac havia um defeito em uma construção feita para durar duzentos anos. Caminhando por qualquer cidade, pode se notar uma construção de trinta anos atrás com mais de uma de trezentos anos. Em parte porque a de três séculos atrás se ergueu com uma intenção clássica de beleza, enquanto a de há trinta tem motivos apenas vagamente funcionais e não estéticos; mas também porque os materiais de hoje tendem a ser mais fracos. O famoso bloco de concreto é pouca coisa se comparado ao tufo do Loire.
 
Ao caminhar pelo centro de qualquer cidade, você pode ver prédios antigos que parecem construídos para estar ali há séculos, e aqueles que em poucas décadas se tornam velhos, feios e deteriorados. Não sei quantos anos levaria para as Torres Gêmeas parecerem mais antiquadas do que o Empire State.
 
As cidades mais atraentes para os viajantes são aquelas que conservaram suas construções antigas. Os turistas que vêm à Cidade do México preferem visitar o centro histórico que um empreendimento Infonavit, e não porque procuram o antigo, mas porque procuram o belo. Uma cidade como Matera, que viveu durante séculos na pobreza, com aldeias entre a modéstia e a miséria, é hoje considerada um dos lugares mais bonitos do mundo.
 
Felizmente os alemães não destruíram Cracóvia, e agora é uma cidade belíssima. É verdade que os turistas também visitam o bairro comunista de Nowa Huta, mas o fazem com certa morbidez e zombaria, para ver como as pessoas viviam na era da União Soviética.
 
Da mesma forma, alguém em Madri pode andar por bairros como La Concepción e perceber que havia arquitetos mais perversos que os de Stálin. É difícil distinguir entre uma prisão e a arquitetura espanhola para as massas. Por seu lado, os espanhóis têm-se contentado em viver aprisionados, e se um arquiteto constrói apartamentos com varanda, o proprietário acaba por emparedá-los para que a sua casa se transforme num ergástulo com dois metros quadrados a mais.
 
Certamente o construtor que agora ergue um prédio de apartamentos não está pensando nos próximos quatrocentos anos.
 
A casa onde nasci tem mais de cem anos e ainda está lá. Em 1969 nos mudamos para uma casa recém-construída. Essa foi demolida há oito anos.
 
Em meus comentários estou romantizando a era Balzac. Seu romance Eugénie Grandet foi publicado em 1833 e, curiosamente, me deparei com um texto de 1835, escrito por um arquiteto londrino. Nele pode ler-se: “Na construção de edifícios modernos existe geralmente uma impaciência para terminar a obra e usufruir da propriedade o mais rapidamente possível, o que é incompatível com durabilidade e segurança contra incêndios. Ao contrário dos antigos e de nossos ancestrais góticos, hoje não construímos para a posteridade, construímos apenas para nós mesmos. Não para durar séculos, mas para aproveitar ou vender imediatamente.”
 
O próprio Balzac, ao se dirigir a Ewelina Hańska em uma carta, diz a ela: “Escrevi muito pouco para a posteridade”.
 
Como escritores, seria muito bom construir nossos romances com esse tufo que tem meia-vida de duzentos anos. Já seria o papel, e não a palavra, o que umedece e se enche de mofo. 


* Este texto é tradução livre de “Moho”, publicado inicialmente aqui, em Letras Libres.

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