Macabéa: flor de mulungu, de Conceição Evaristo

Por Guilherme de Paula Domingos




Em 2012 a editora Oficina Raquel reuniu doze escritores de diferentes origens e idades para compor um livro em homenagem a Clarice Lispector, um dos maiores nomes da literatura brasileira. Cada autor reescreveu, em um conto, um personagem da escritora. Entre os integrantes da coletânea estão, entre outros, os brasileiros Conceição Evaristo e Silviano Santiago, a portuguesa Maria Teresa Horta e a cabo-verdiana Vera Duarte. O livro, intitulado Extratextos 1: personagens de Clarice Lispector reescritos, se encontra esgotado. Contudo, usando de boa vontade e paciência, é possível adquirir um volume usado.
 
Nessa antologia, Conceição Evaristo contribuiu com o conto “Macabéa: flor de mulungu”. A editora resolveu publicá-lo numa edição independente em 2023. Como o nome já indica, a personagem escolhida pela escritora foi a protagonista de A hora da estrela. A partir do episódio de desfecho da narrativa, uma Macabéa deitada na calçada em posição fetal depois de ter sido atropelada, volta ao passado para que se faça uma reescrita do seu destino, mantendo parte de sua essência.
 
Ainda sobre o título, mulungu é uma árvore que pode ser encontrada no cerrado, caatinga, Amazônia e mata atlântica. Ela perde suas folhas em determinada época do ano. E justamente quando parece morta, ressurge, florescendo inclusive no inverno, quando as árvores em seu entorno estão desfolhadas. As folhas podem ser utilizadas em chás que servem como calmantes e sedativos. E não raramente, a diferença entre remédio e veneno é a desmedida, quando as folhas são usadas em excesso para que se consiga o efeito contrário ao da cura.
 
Intercalado por ilustrações de Luciana Nabuco, o conto de Conceição Evaristo redivive Macabéa. Béa, que carrega a morte consigo em seu nome, como promessa a Nossa Senhora da Boa Morte, agora também carrega a vida. Ela exerce duas funções nas quais mostra considerável talento: parteira e cerzideira. Nos dois casos, é uma mantenedora da vida, seja trazendo crianças para o mundo sem deixar nenhuma morrer, seja remendando lenços para as pessoas, que chegavam cheias de lágrimas. “O afazer da moça não se resumia somente em restaurar os fios esgarçados. Era tudo o mais. Tratava-se de recompor, de devolver a vida que ali existiu.”
 
Assim como em seu conto “Olhos d’água”, Conceição escreve novamente uma história atravessada pelas águas. No texto que dá nome ao seu livro de 2014, a personagem sem nome se sente culpada por não lembrar a cor dos olhos de sua mãe. Depois de uma viagem de volta às origens para redescobrir essa informação, ela percebe que eles são “cor de olhos d’água”. São olhos que choram as agruras da vida. E em conclusão, o sofrimento fica marcado nos olhos, mais até do que a própria cor deles. Macabéa, por não ter conhecido a genuína felicidade, também verte as mesmas dores de existir, esse “dói aqui dentro, não sei explicar”.
 
As águas que perpassam as narrativas de Conceição são uma faceta de Oxum, o orixá das águas doces, que está sempre intimamente ligado às emoções. “Um dia, Béa ouvira a fala de um rio. E quem diria, pensava ela, que um tantinho de água arrastando num leito tão esmirradinho fosse capaz de oceanar as dores de sua secura.” — aponta a voz narrativa de “Macabéa: flor de mulungu”.
 
A voz narrativa é um ponto de análise importante para as duas histórias. Clarice Lispector traveste a voz narrativa de A hora da estrela de Rodrigo S.M. para contar uma história, que por boa parte do texto funciona como uma metaficção. Conceição Evaristo, por sua vez, usa a narradora sem nome para que criemos um sentimento de identificação. Justamente por ela não possuir um nome ou algo que a faça distinta, ela pode ser qualquer pessoa. Pode ser inclusive o leitor, o que traz à baila outro recurso inteligente já utilizado por Conceição: os artifícios empregados para criar um traço de universalidade da personagem.
 
Os traços de universalidade aparecem quando Béa é, ao mesmo tempo, todas as mulheres brasileiras. Puxando pelo fio da memória, ela lembra de três mulheres: uma índia, uma mulher negra e uma portuguesa. As três olhando a água do mar (novamente a água).  A Macabéa de Conceição carrega simbolicamente a história do Brasil em si mesma. Ela é particular e é universal. “E assim era Béa. Una e múltipla”. “Macabéa, a Flor de Mulungu, sou eu. Tal é a minha parecença-mulher com ela. Repito, sou eu e são todos os meus.”
 
Por fim, Macabéa é como o mulungu. Ela é o mulungu. Perde as folhas e ressurge, com as flores vermelhas como o sangue que verte da personagem em posição fetal no chão da calçada, mas tendo a potência para alimentar com néctar toda a vida existente. Ela não é mais “um parafuso dispensável na engrenagem da vida”.


Ligações a esta post:

______
Macabéa: flor de mulungu
Conceição Evaristo
Oficina Raquel
40 p.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Boletim Letras 360º #578

Boletim Letras 360º #584

Sete poemas de Miguel Torga

Palmeiras selvagens, de William Faulkner

Boletim Letras 360º #583

A melancolia política em O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira