Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe

Por Gabriella Kelmer 


Valter Hugo Mãe. Foto: Paulo Pimenta



O romance mais recente de Valter Hugo Mãe no Brasil, Deus na escuridão, leva o selo da editora Biblioteca Azul e foi lançado em 2024, tendo como temáticas centrais o amor familiar e o amor divino, sendo os dois correspondentes ao longo da obra. A narrativa é inaugurada com o nascimento de Serafim, mais comumente chamado de Pouquinho, menino nascido “sem as origens” (metáfora elucidada no mesmo período pelo uso de outra, que diz ter vindo ele “mordido entre as pernas”). 

O romance é elaborado do ponto de vista do filho mais velho da família, Paulinho, o Felicíssimo, cuja perspectiva fraterna e protetora circunda a existência castrada do irmão, moldando-se a ela. Dividida em três partes, chamadas “O nascimento de Pouquinho”, “O evangelho segundo aqueles que sofrem” e “Felicíssimo irmão”, a obra acompanha momentos diferentes da relação entre os irmãos.

Serve a primeira seção, mais longa, de introdução ao nascimento de Pouquinho e de conhecimento de um espaço insular, a ilha da Madeira, que condiciona e organiza as relações e a maneira de ser das personagens, acostumadas às vertigens, aos abismos, aos acidentes geográficos. São as alturas indicativas da condição social das famílias, vivendo os Pardieiros, sobrenome de conotação pouco sutil, no ponto mais alto da ilha. O nascimento do segundo filho, cuja sobrevivência é incerta, é o ponto de inflexão narrativa, embora não resultem desse fato todos os eventos narrados. A apresentação de outras personagens, como a dona Luisinha do Guerra, o doutor Palinhos e a irritadiça Baronesa do Capitão, sugere antes o refazimento de uma infância em um ambiente praticamente intocado pela modernidade, em que a observação de flamingos, o pasmar perante um lustre e a coleta de santinhos políticos é miraculosa e elusiva. Felicíssimo reconta, assim, os primeiros dias do irmão, mas também sua existência na ilha, onde a convivência próxima entre habitantes é primordialmente solidária, onde todos se dão inadvertidamente a conhecer e onde os vazios se vão tornando cada vez mais sentidos por partidas sucessivas rumo a lugares mais promissores. 

A primeira parte se encerra em um episódio enigmático. O pai, tomado por angústia depois do nascimento do segundo filho e sua deficiência, vive desde então a se buscar em um espelho, postura em que o flagra muitas vezes Felicíssimo, que teme uma partida paterna que não se confirma. O sumiço de Pouquinho, durante curto período, e o sofrimento profundo e exaustivo da mãe, Mariinha, faz tornar-se o pai repentinamente ameaça à vida do filho mais velho, em episódio que antecipa eventos vindouros.

“Fiz minha prece à hora da morte. São Bento, salva nosso menino. São Bento, salve nosso menino. O quanto ele for salvo mais nos salvaremos a todos, mais nos teremos felizes. Se meu corpo daqui cair, meu querido São Bento, que se esmague de encontro às pitangas que silvestram por toda a parte. Que uma pitanga me haverá de viver por mais um tempo igual ao coração. E essa pitanga será para agradecer. Eu disse: os gratos são sempre felizes. Assim meu pai escutou. Então me apaziguei. E o futuro ficou todo chamado àquele lugar, àquele instante. Eu pensei que o meu não me impediria de estar feliz. Estava felicíssimo. São Bento cuidaria de meu irmão” (Mãe, 2024, p. 121).

Inicia-se então a segunda parte com uma das grandes analogias da obra, que trata da relação entre Deus e as mães, sendo esse momento — que não se repete em dicção ou digressão ao longo do romance — seguido da revelação de que não houve a violência do pai, pois estão os filhos crescidos. Apesar de ser Pouquinho tido como santo, sendo convocado a ouvir queixas e creditado por realizar milagres, é ele, mesmo em sua diferença física e sexual, quem se interessa por uma moça, Rosilda, com quem se deseja casar. O matrimônio é uma mágoa profunda para a pequena família, crescida como casulo para abrigar esse filho. Felicíssimo, já tendo assumido o lugar do pai na lavoura, chega a desejar que não dê certo o casamento e que o irmão torne logo à casa. Tem, todavia, de se acomodar à ideia, passando a conviver com Pouquinho dentro de outra estrutura familiar. O final dessa porção da narrativa enseja o grande ponto de virada do enredo, até aquele momento alargado em um cotidiano que cresce para vários lados, sem fim presumível. 

É a terceira parte, que lida com os efeitos da revelação, menor do que as duas seções anteriores. Centraliza-se então a narrativa nos rumos da relação entre os dois pequenos núcleos familiares, em especial no que diz respeito ao vínculo de Felicíssimo e Pouquinho, terminando o romance com uma redenção coletiva, contraditada por algum sacrifício.

“Meu irmão passava suas tardes no recanto da vereda, junto à rocha, onde se fazia a pequena gruta que enchia de água limpa. Era uma cova na pedra à qual se espreitava, mas não se entrava, nem passava dali a lugar nenhum. Era uma cisterna natural que juntava água da levada usada nos dias quentes em que o fio secava. Naquele espaço do caminho que fazia esquina para dentro da rocha, com um largo mínimo diante, Pouquinho se sentava à sombra, a escutar as pessoas. Por insistência, o mais que lhes respondia era que não via nada do futuro nem adivinhava nada do passado. Agia como um rapaz comum, sem segredos nem preferências no luxo do Senhor. Ele queria garantir que ninguém se iludisse com coisa alguma que dissesse, porque o que lhe acontecia era apenas um amor, uma espécie de amor que ditava por dentro do coração o que haveria de ser certo e o que haveria de ser errado. Escolher o que fosse certo seria como descortinar o grande mistério, por isso tanto parecia que fazia milagres, que cada vez mais pessoas ali corriam a agradecer a graça concedida, e Pouquinho explicava que era graça da própria criação, da ordem com que Deus fizera o mundo. Não dependia dele. Ele nem se lembrava sempre das pessoas, do que lhes dissera e de que problemas padeciam. Mas, certas de ter sido ali que encontraram solução, suas lágrimas faziam um alarido frequente. Uma comoção grata que Pouquinho procurava desvalorizar” (Mãe, 2024, p. 137).

A história é elaborada, como já sugerido, em primeira pessoa, a partir da visão e das experiências de um narrador-protagonista, embora tal classificação não corresponda à maneira como age a personagem durante parte considerável de sua trajetória. Felicíssimo não toma as decisões que o levam a seguir os passos do pai, nem confronta a ordem das coisas, exceto se essa postura consiste em inteiro altruísmo. Chamado de “néscio” quando tenta se filiar ao exército português, a personagem — em sua existência pautada naquilo que falta ao irmão — cria a sensação de uma complementaridade que é um dos propósitos do texto, elaborando-se, nas entrelinhas, um paralelo entre os dois filhos, um física e sexualmente impotente, mas incomumente sábio; o outro, embora forte e capaz, castrado em sua intelectualidade ou sociabilidade (diria que também em sua força de vontade e em sua autonomia). 
 
Reside na concepção desse narrador um dos grandes problemas do romance. Não é inteiramente convincente a linguagem utilizada e a ele atribuída. Por vezes, notabiliza-se a simplicidade singela, alusiva da voz da criança ou do ilhéu que rememora, em trechos como em “o mundo inventava maravilha. Era abrir os olhos para a saber ver. Eu abri os olhos e pensei: tarda nada se vai deitar aqui o nosso santo. E eu vou poder dizer: boa noite, meu irmão. Deus te cuide” (Mãe, 2024, p. 63). Entretanto, outras passagens soam, em seu tom sumário e poético, estrangeiras ao ambiente e às vivências da personagem, como é o caso de “A infância podia ser só o risco constante do patetismo, de qualquer jeito, num furor natural, ela oscilava entre a permanente entronização e o nervo da miséria” (Mãe, 2024, p. 71). Esse desajuste não se dá na transição entre a palavra do menino e a do homem a quem é a narração atribuível, mas pela implausibilidade de soar natural da boca de qualquer um deles alguns efeitos frasais, algumas analogias inesperadas, alguns conhecimentos íntimos de interlocutores infrequentes. Resta lesada, por esse motivo, a integridade da visão proposta, não se apaziguando o romance com os marcadores individuais atribuídos ao narrador escolhido. 



Ainda quanto à narração, registram-se momentos em que parece emergir a terceira pessoa, que nos dá a conhecer o passado remoto de personagens e dados de sua subjetividade sem que as mediações da primeira pessoa se estabeleçam, como ocorre em seção que narra proximamente a vida da mãe de Felicíssimo e de suas amigas de juventude, em um passado que antecedeu a vida da personagem. Considerada a hipótese de um segundo narrador heterodiegético, sua inserção apenas ocasional é espaçada demais para ser de todo plausível, embora atribuir as passagens a Felicíssimo seja outro imbróglio.

“Deitavam os olhos àquilo. Quando chegavam para beijos e imitações de abraços, deitavam os olhos corpos abaixo dos noivos e todas as pessoas hesitavam no lugar das origens de meu irmão, como se no gesto das calças quisessem descobrir algo guardado, algo que justificasse casar e chamar ao par de família. Por mais que soubessem que havia ali nada, imperava uma curiosidade sórdida que parecia bilhardar que lhe tivessem brotado por magia as cobiçadas origens. Especulavam que, afinal, o buzico talvez tivesse acabado de nascer. Talvez apenas agora, com vinte anos de idade, o buzico acabasse de nascer. Auscultavam meus pais, iam ver-lhes a abnegação de muito perto para terem a certeza de que aquela alegria ainda era um sofrimento. Parecia que só assim as coisas estariam certas. Que aquela festa ainda fosse um sofrimento. E os rostos dos meus pais não revelavam segredo nenhum. O buzico só nascera abreviado, não vivia como as árvores que frutificavam quando adultas. Era de natureza consumada, infértil, e casaria assim igualmente. Infértil” (Mãe, 2024, p. 167-168).

Vincula-se à aparente onisciência um segundo contratempo da narrativa, correspondente ao capítulo que elabora, de modo mais longilíneo, a analogia entre Deus e as mães. Concordando com o comentário com que Carlos Reis prefacia a obra, quando chama a esse capítulo, o décimo, de “momento decisivo do romance” em que se suspende “o curso da história, para se dar lugar a uma densa explicação doutrinária”, é preciso dizer que seus efeitos não são benéficos à totalidade da composição. Rompe-se o ritmo da obra, como aliás enuncia Reis, mas também se estabelece uma incompreensão quanto ao lugar do narrador em primeira pessoa na seção, de fundo dogmático, aparentando ser costurada de forma exógena a associação entre as mães e Deus. O fato de ser o capítulo um ponto fundamental para o argumento do romance é incômodo, ora gerando a impressão de ter havido a percepção de uma falta de articulação natural entre a obra e o título, ora sugestionando uma desconfiança em relação à leitura autônoma do leitor, que não teria condições de estabelecer por si mesmo o vínculo entre os dois substantivos do título (embora o capítulo antecipe a analogia usada da mesma forma por Pouquinho, logo depois). 

A impressão de uma certa desintegração narrativa é ainda explicada pelo caráter episódico dos capítulos da primeira parte, aparentados com contos. Os acontecimentos da segunda e terceira porções da obra, articulados naquilo que se percebe o fio narrativo central do enredo, aceleram-se e se desfazem rapidamente, gerando a sensação de uma ausência de economia narrativa no primeiro terço, no qual a ilha recebe atenção nem sempre justificada, levando-se em conta a aparição singela de algumas personagens ao longo do romance, e de uma resolução demasiadamente veloz quando dos eventos finais, contabilizando-se aliás que Felicíssimo purga “mil anos” de sofrimento em um dos capítulos finais, embora a hiperbolização do tempo e da dor não se coadune necessariamente com a experiência de leitura. 

Sem perder de vista essas considerações, é preciso elucidar que há muitos pontos positivos na obra. É sensível a forma com que as relações familiares são exploradas e reveladora a maneira altruísta, até assujeitada com que o irmão e os pais se vinculam a Pouquinho, que carece de muitos cuidados. O laço fraterno é enternecedor e precede inclusive a relação entre a mãe e o filho mais novo (o que talvez diminua a força da analogia ora veiculada entre Deus, as mães, suas casas). Há a aparição, a certa altura, de uma culpa sentida pelo mais jovem dos irmãos, que pede perdão a Felicíssimo por lhe ter tomado algo, quase tudo. A ilha, pedregosa, vertical, aparece com enorme vivacidade ao longo da narrativa, propondo relações de sobrevivência frente ao risco iminente. Algumas personagens, como a Baronesa do Capitão e as Repetidas, suas funcionárias, são curiosíssimas, introduzindo uma inclinação da obra para o insólito e para a hiperbolização dos caracteres que constitui de modo convincente a experiência mitológica dos habitantes de lugares pequenos.

“A Baronesa enumerava suas enfermidades. Eu jamais escutara falar no que lhe dava ao corpo. Dizia que tinha afasia, displasia, anorexia, cefaleia, apoplexia, reumatismo, desalmamento, acromatúria, heptomegalia, disdiadococinesia. Dizia: estou amenorreica, dá-me um avarismo. E mais disse, que só assim parecia ainda pouco. Mas as palavras difíceis apanham-se menos do que gatos selvagens. A senhora falava que aquilo não era hipocondria. Era tudo verdade. Tudo. E eu encolhia os ombros, enquanto se prostrou tão próxima de mim que acabei por mais lhe tocar e sentir que prevaricava. Lavara muito as mãos, estava lavado, mas não podia imaginar tocar-lhe, à Baronesa do Capitão, que tinha toalhas bordadas a ouro que nem deviam cair na mesa porque não conseguiam entortar para o chão” (Mãe, 2024, p. 153-154). 

O domínio da linguagem de Mãe permanece incontestável, conquanto haja, em algumas passagens, imagens e reflexões que parecem permanecer antes pela beleza do que por exercerem qualquer função dentro da narrativa, o que, não sendo propriamente problema, afrouxa os laços de causalidade entre acontecimentos e impressões, não sabendo o leitor o que resultará em desdobramentos importantes à história. Em alguns momentos, a experiência do romance, em sua diversidade de tons, celeridade e interesses, sugestiona a simultaneidade de boas ideias narrativas que não se acomodaram inteiramente umas às outras. 

Se em si o enredo da obra, que certamente contabilizará muitos interessados e admiradores, não for suficiente para sua leitura, esta resenha, nos apontamentos que faz, talvez a serem contrapostos por outras experiências, seja-o. É por isso que torço, enquanto permaneço na expectativa por novos romances.


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Deus na escuridão
Valter Hugo Mãe
Biblioteca Azul, 2024
240p.

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