Preencha o formulário para participar da promoção. Se você não chegou aqui pelo Facebook, não deixe de findar sua inscrição cumprindo o restante do regulamento desta promoção.

Na pureza do sacrilégio, de Carlos Cardoso

Por Pedro Fernandes





E como falar
de outra forma?
de cortar
e reformatar o futuro,
e assim querer
e ser sem par.

A pergunta lançada pelo primeiro poema de Na pureza do sacrilégio é capciosa: abre-se em direção a pelo menos outras duas interrogações. A primeira delas é produto da angústia de todo poeta. Num tempo quando perdemos as contas de vozes tão singulares e válidas por gerações e temporalidades, o que ainda resta dizer em forma de poema? A outra, derivada desta, como ser outra vez voz entre vozes depois de algumas largadas? Não pense o leitor que as respostas venham logo em seguida. Nem no livro; tampouco aqui. Ao contrário, o poema abre-se em outras indagações e finda por se constituir um canto angustiado de alguém que parece sentir-se a esmo à procura de uma resposta, mesmo sabedor de que esta não vem ou não existe (em matéria de poesia) de forma simples e objetiva. O mesmo vale para estas notas. O bom poeta é cônscio de que a única resposta deve ser a que se constrói autêntica. “Ainda quero uma frase / primeira, / nua, / ligeiramente inteira” – finda “Frase primeira”.

O leitor, entretanto, é livre e pode, pelas aberturas propiciadas pelo poema, estabelecer algumas respostas – todas elas construídas somente depois de cumprir a travessia pelos poemas que seguem. A travessia por estas palavras é também uma tentativa de construir respostas. De maneira que o poeta se oferece, num gesto muito humilde, inteiramente despido e sem querelas ou subterfúgios de linguagem, ao crivo do seu leitor. Mas não se insinua. Não tem interesse, negando certo cariz sedutor da palavra, por fazê-lo seu cúmplice, induzi-lo à resposta que seus ouvidos talvez gostassem de ouvir. Daí, poderíamos pensar que a razão para essa atitude do poeta é resultada de uma ingenuidade: como ter em mãos a tarefa máxima de uso da linguagem, transformá-la em instrumento de sedução e conquista, e desfazer-se, assim tão livremente? Ou sequer usá-la para tanto?

Bom, mas, se assim procedesse – se utilizasse do poder da palavra para induções – para provar ao leitor que sua voz é a voz ou que justificasse, fosse pela repetição de algumas chaves que afirmam a razão própria de ser do poeta e do poema, fosse pela criação de novas e ousadas maneiras de dizer as mesmas chaves, não parece que faltaria ao poeta alguma lealdade para com o seu leitor? E o poeta que procede assim é um desleal? Nem uma coisa, nem outra. Não cair em mesmidades e não estabelecer outras maneiras de justificar o valor da poesia não significa lealdade ao leitor, porque omitir-se pode ser uma estratégia ainda mais ardilosa. E poeta, sabemos desde Platão, não é uma criatura de se fiar.

Quer dizer, as respostas precisam ser construídas pelo leitor no convívio com os poemas por vir ou mesmo os poemas que o poeta ainda sequer tem consciência se vingarão. Não é a abertura da primeira obra de Carlos Cardoso, mas a pergunta – ainda aquela apresentada na abertura deste texto – finda por refundar a variedade de organização de sua própria obra. É assim com os bons poemas. Não importam onde e quando apareçam, podem sempre estar melhores em qualquer parte da obra e levar o leitor à estabelecer novas relações no âmbito da criação literária do poeta.

A angústia patente desde o título “Frase primeira” é também produto de reconciliação do próprio poeta com o mundo que começou a engendrar desde a publicação de seu primeiro poema. No caso de Carlos Cardoso, Na pureza do sacrilégio é seu terceiro livro. Poderia ser o fim de uma dezena no ponto mais elevado de um itinerário de louros e se não se deixasse tocar pela angústia da espera pelo poema já desconfiaríamos se ainda seria o poeta um habitado pela centelha que ilumina sua própria condição de existir. Talvez, então, devamos substituir o termo angústia por expectativa. Todo poeta é um ser à espreita.



Que o poeta não é de se fiar, sabemos. E sabemos gostosamente. Como quem sabe o perigo que pode aparecer no dobrar de uma esquina mas ainda assim continua a se entregar ansioso (sim, angustiados somos nós os leitores) pelo por vir. É possível que nada aconteça e se for assim o poeta poderá ter fracassado com seu intento. Sim, toda obra poética, é sempre uma tentativa – inclusive a de ser a voz entre as diversas vozes que a circula, e não raras vezes, a intersecciona. O fracasso da tentativa pode, inclusive, ser ainda pura estratégia do poeta para levar o leitor pela mão às suas futuras searas. Não faltarão incrédulos a murmurarem agora que é impossível ou mesmo vão o leitor retornar a um poeta fracassado. Para estes, algum consolo: é de poemas ruins que se fazem os bons poemas.

Carlos Cardoso talvez espere que os poemas que reuniu em Na pureza do sacrilégio possam ser, eles próprios, o élan capaz de oferecer – se não a resposta definitiva e total – possibilidades para que acreditemos ser sua poesia a “frase primeira”, “nua” e “ligeiramente inteira”. A resposta definitiva e total repousa apenas no interior das possibilidades; alcançá-la seria matar o segredo que impulsiona a existência da própria poesia. O poeta sabe disso. Por isso, o grande poema, a voz primeira é puramente “ligeiramente inteira”. Quer dizer, só em aparência se tem certeza dessa inteireza. Porque, no fundo, todo poema é falta e descontinuidade. Janelas que se abrem continuamente para outras janelas. 

Outra ciência cujo domínio parece estar em toda parte neste livro – e dizemos parece porque por mais que olhemos diversas vezes e em tempos diversos é sempre possível que estejamos equivocados por uma via de ver as coisas – é a do mundo vazio. Daí talvez resulte uma dentre as várias compreensões para o paradoxal diálogo proposto entre esses dois termos (pureza / sacrilégio). O mundo vazio à primeira vista deve se confundir com o mundo primitivo, logo, puro. Mas este novo vazio é habitado ora por tartamudos ora de escombros. Ao poeta não resta apenas engendrar uma voz que releve entre as outras vozes, resta ainda engendrar seu próprio mundo com tais restos. É seu sacrilégio. O poeta contemporâneo é um bricoleur.

Mas aqui não encontra o leitor uma voz que se compraz com os vazios, nem com os restos, ou torne a busca pelo poema uma obsessão. Na pureza do sacrilégio é um livro múltiplo: cabe certos impulsos da tradição modernista brasileira; as silhuetas da memória e dos afetos; os acontecimentos mais corriqueiros; os amores, as paisagens. Os poemas, entretanto, são, cada um, peças tão bem polidas, capazes de nos propiciar um reencontro com nossos próprios sentidos e sobre a poesia num mundo em desencanto, ou um reencantamento pela própria poesia. Quer dizer, pode ser que o leitor esteja – mesmo sabendo que poetas não são de fiar – seduzido pelo poeta. O tempo, entretanto, o mais justo dos juízes, dirá se sim ou não. Por enquanto, deixar-se seduzir é a primeira atitude para o contato com a poesia. E a de Carlos Cardoso merece. Experimente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os segredos da Senhora Wilde

11 Livros que são quase pornografia

Os muitos Eliot

Uma entrevista raríssima com Cora Coralina

Além de Haruki Murakami. Onze romances da literatura japonesa que você precisa conhecer

Boletim Letras 360º #308

Boletim Letras 360º #309

As melhores leituras de 2018 na opinião dos leitores do Letras

A necessidade humana de expressão artística – parte I

Os melhores de 2018: prosa